BRUMAS
filme de
Ricardo Costa
diálogos
MARIA JOSÉ
Ainda se lembra de mim?
PROTAGONISTA
Lembro, lembro-me bem de si !
PROTAGONISTA
Você uma vez começou a contar-me uma história. Era
altura dos Reis. Eu estava muito
entusiasmado com a história que você me estava a contar : haviam de chegar os
Reis em camelos, todos aperaltados e paramentados. E as horas passavam-se. As
horas passavam-se e às tantas começou a cair a noite. Eu fiquei a perceber que
já não havia reis nenhuns. Fiquei furioso. E o que é que eu fiz? Agarrei num
gato preto que lá havia em casa. Atirei-o ao ar, na cozinha - estávamos na
cozinha... O gato caiu em cima da frigideira que estava ao
lume, a ferver. A frigideira caiu, o gato ficou queimado com o azeite a ferver,
fugiu porta fora, desapareceu durante quatro dias e você ficou com as pernas
queimadas com azeite...
PROTAGONISTA
Mas cinquenta e tal anos ... O tempo ...O tempo
que passou ...
MARIA JOSÉ
E que vai passando ... Eu tive filhos, tenho netos e bisnetos e tudo!...
PROTAGONISTA
Você tem ...
MARIA JOSÉ
Tenho dois bisnetos e sete netos. Netos e netas.
Sete.
PROTAGONISTA
E filhos?
MARIA JOSÉ
Tenho quatro filhos. Duas filhas e dois filhos...
CENA
5 : casa da Maria
José, que serve o almoço ao Rudofo e ao David
MARIA JOSé
Olha, o André está a chorar .
DAVID
Está?
MARIA JOSÉ
O André também é de trás da orelha. É tudo boa
gente! A tentar o juízo aos pais!..
RUDOLFO
Ele não passa sem água, avó!
MARIA JOSÉ para o David
Olha,
para onde é que tu vais? Vais jogar à bola com o Rudolfo ou vais trabalhar para
a casa “Garantia” com a mãe?
DAVID
Vou antes com o Rudolfo! Jogar à bola com ele ...
MARIA JOSÉ
Mas é com o Benfica ou com o Sporting?
DAVID
Com o Sporting!
RUDOLFO
O Benfica! Que eu
não vou para o Sporting! Estás
com azar!
DAVID
Co Benfica ...
RUDOLFO
Ah, assim já está
melhor ! ...
MARIA JOSÉ
Vais para o Benfica,
ganhas mais dinheiro....
RUDOLFO
O Sporting não tem
dinheiro para pagar aos jogadores ! Depois és grande e não tinhas dinheiro.
MARIA JOSÉ
Então, o Benfica tem?
RUDOLFO
O Benfica tem !
DAVID
Então o meu pai uma vez
foi jogar no Sporting e até marcou um
golo ...
DAVID
... assim …pum! Até foi
peloo ar, a bola!
RUDOLFO
Como é que sabes? O teu pai era o rei dos gordos, pá! Sabes porquê,
David? Se o teu pai era bombeiro, como é que ele atirava a bola? Era com a
mangueira?
DAVID
Não, jogava à
bola com o sapato dele ...
RUDOLFO
Ele não joga à bola! Olha, o teu pai não percebe nada disso, meu!
DAVID
Pois, o meu pai tira o dinheiro e paga !
RUDOLFO
Mas quem paga não é o teu pai. O teu pai não trabalha para pagar aos outros!
MARIA JOSÉ
Ouve lá David, como é que tu te chamas?
MARIA JOSÈ
Deixa-o agora dizer o nome!
RUDOLFO
Como é que é?
Devagarinho ... Alto, alto! ... Assim não, alto! Senta-te lá e depois dizes o
teu nome! Diz para a avó, para a avó ouvir! Não é aí, David! David Teodoro
Moreira! Diz lá!
DAVID
David Teodoro Moreira!
MARIA JOSÉ
E o Rudolfo, como é que se chama o Rudolfo?
DAVID
Rudolfo!
MARIA JOSÈ
Rudolfo quê?
RUDOLFO
Meia-lança!
MARIA J0SÉ
Diz de rijo, que é para a avó ouvir.
DAVID
Meia-lança!
MARIA JOSÉ
.... leva um murro na pança ...
RUDOLFO
Que é isto, avó? É fogo?
MARIA JOSÉ
Está a apitar? É nevoeiro!
DAVID
É fogo !
RUDOLFO
É nevoeiro!
MARIA JOSÉ
Ah credo, rapazes, calem-se!
MARIA JOSÉ
Não queres fazer estalinhos na mão?
DAVID
Não !
MARIA JOSÉ
Olha, a Joana gosta muito de fazer estalinhos na
mão!
DAVID
Morre! Cai no chão, está bem?
MARIA JOSÉ
Está caído, morreu! E agora, não tens pena dele?
DAVID
Cai !
RUDOLFO
E agora vou fazer óó!
MARIA JOSÉ
Olha, anda cá, escuta lá. A mão fixe, isto é
manobra! ... Faz doer? Não faz! ...
RUDOLFO
Come! Isso é fiambre! Isso não está quente, está
bom!
MARIA JOSÉ
É mesmo burreco!
MARIA JOSÉ
Ó meninos! Não se portem bem, que apanham porrada que até os viro! ... A avó só promete dar não dá! É o que eles têm falta de vez em quando! Uma palmadinha, assim, bem dada ... Que eles são muito reguilas!
MARIA JOSÉ
Queres uvas, David?
DAVID
Morreste!
MARIA JOSÉ
Morri, eu? Estou morta!
Morri agora!
DAVID
Ele morreu! Não tinha pistola!
MARIA JOSÉ
Já não matas a avó? Tantas historinhas a ele, tantas, tantas, que até ficámos a dormir os dois, não foi? Os dois sozinhos ! Na cama da mãe dele, não foi? Até adormecer. Olha, era os palhaços, que andavam aos saltos, murros no nariz, o que ele ria! Até lhe doía a barriga ,,,
RUDOLFO
É para ver se gostas dela ...
MARIA JOSÉ
Ele já deu a ver! Então, e tu?
RUDOLFO
Eu já dou!
Tantos beijinhos, tantos!
DAVID
Já lhe dei mais um!
MARIA JOSÉ
Olha, agora mostra aí esses quadros do Nuno e da
Carla! ..
RUDOLFO.
O quê?
MARIA JOSÉ
Esse quadro que está aí
pendurado! ...
RUDOLFO
David, olha aqui a mãe!
MARIA JOSÉ
É a mãe dele quando era pequenina. E é o tio Nuno,
o irmão-
MARIA JOSÉ
São os dois
filhos da minha Isabel !
CENA 6
: Rudolfo e David no terraço com os cães
RUDOLFO
Vai para ali!
RUDOLFO
Estás com medo do cão:
RUDOLFO
Chuta! Põe
aí o jogo em cima do banco! Chuta para mim!
CENA 7
: ourivesaria
SILVINA
BETA
Mas fica-lhe bem! ...
Até dá com os tons do vestido! É muito gira, essa turquesa.
SILVINA
Tão gira! E fica bem, este tom escuro e dourado.
BETA
Pois, vai escurecendo, porque aqui o ar do mar provoca muito esta acidez e faz as peças ficarem assim ... De vez em quando têm de ser limpas.
CENA 9 : Maria José e as amigas
MARIA
JOSÉ
A minha prime Esmeralda tinha criadas lá em casa e
não ia à lixívia nem uma peça. As
criadas lá de casa ia tudo lavar para a cerca. Mas a minha prima fazia-as lavar
a roupa toda ensaboadinha e depois novamente, e pôr tudo em cima da relva, a
corar, tudo a corar
Nem uma
peça ia à lixívia.
CESALTINA
Diz-lhe
que ma tragam, à Antónia Velha, que a Antónia Velha tem muito sabão! ... Olha,
tens de me levar o sabão à porta para a outra semana! Olha que eu vou-te pedir o sabão!
MARIA
JOSÉ
Ficava ali a roupa branca como a neve, coradinha! Sem lixívia, sem nada!
RUDOLFO
(com os binóculos)
Agora vê-se mais de perto.
CESALTINA
Fazia-se chuchas de açúcar com pão e as formigas
davam com ela ...
MARIA JOSÉ
As formigas a comerem a boca à criança ...
CESALTINA
Passámos muito para criar os filhos ...
MARIA JOSÈ
Olha
agora ! É chuchinhas, é fraldinhas ,,, Como é que se chama às fraldas?
CESALTINA
Sei cá!
MARIA JOSÉ
Como é
que se chama às fraldas? Rudolfo, como é que se chama às fraldinhas do David? É
Dodots, não é? Dodots! Naquele tempo eram de pano. Era a lavar assim! A tirar
aquilo tudo ...
MARIA JOSÉ
(enrola no pulso o colar de ouro da Cesaltina)
Eu a mim não me gosto de ver! A mim não gosto de
me ver ...
CESALTINA
Não gostas não!
MARIA
JOSÉ
E às outras pessoas gosto!
MARIA
JOSÉ
Já dei um fio grosso a elas! Dei uma pulseira a
cada filha!
Continuação da cena
1 (encontro com Maria José) :
MARIA JOSÉ
Era um pagode todos
os dias. Eu só queria era
brincadeira! Ainda
hoje eu sou assim!
Gosto de pagode, gosto de brincadeira, gosto de
rir! Às vezes estou a conversar. Ponho-me a conversar. E a minha
filha : “Ó mãe,
cale-se! Você nunca se cansa de falar tanto, mãe!” “Ó
filha deixa-me
falar! Quando eu morrer já não falo nada. Acaba-se o
falar, acaba-se
tudo!”.
CENA 10 : carro do circo
ALTIFALANTE
Leões, tigres, ursos da Sibéria, palhaços,
trapezistas voadores,
Um grande espectáculo, uma grande companhia! Roberto Cardinalli ! Instalado em Peniche
junto ao Interrmarché! Hoje à dez horas
da noite O êxito continua! Hoje à 10
horas da noite e até ao próximo domingo, dia 30 de Agosto! Sábado e domingo
matiné às 17, cinco da tarde. À noite, vinte e duas horas! Hoje e todos os dias
à dez horas da noite!
CENA !2 : um grupo de homens e mulheres repara uma rede de pesca da sardinha
PRIMEIRO HOMEM
(para o Rudolfo)
Estás a ouvir? Ouviste o que é que eu disse?
RUDOLFO
O que é que é?
HOMEM
Vocês querem ser atadores?
AMIGO DO RUDOLFO
Não!
RUDOLFO
Jogadores!
AMIGO DO RUDOLFO
Eu quero ser jogador!
HOMEM
Vão jogar para onde?
RUDOLFO
Eu vou jogar para o Benfica!
HOMEM
Ai, Jesus!
AMIGO DO
RUDOLFO
E eu vpu
para o Sporting!
HOMEM
Ai, Jesus!
SEGUNDO HOMEM
Não vás para o Benfica ! O Benfica compra e não
paga!
AMIGO DO RUDOLFO
É verdade! Quando chegar ao meio da época não tem dinheiro para pagar aos jogadores!
MULHER
Ora bem!
PRIMEIRO HOMEM
Já parecia o guarda-redes do Salgueiros!
SEGUNDO HOMEM
Ó Jacinto, agora é mais meia hora para chupar o
Perna-de.Pau!.
CENA 13 : em casa do velho fotógrafo
FOTÓGRAFO
Em 1922 vieram os primeiros políticos que tinham residência fixada em Peniche e que todos os dias tinham de se apresentar na fortaleza. Veio um oficial do exército tomar conta da fortaleza e todos os dias se apresentavam. E, passado pouco tempo, passou então a presídio político.
PROTAGONISTA
No tempo de Salazar!
FOTÓGRAFO
No tempo de Salazar, infelizmente, a fortaleza foi presídio político. E assim esteve até ao 25 de Abril de 74.
FOTÓGRAFO
Nesta temos uma fotografia aérea em que podemos
ver a doca cheia de barcos. Podemos apreciar o “Porto de Revés” e a fortaleza. O Rendondo e toda a fortaleza.
E até uma coisa curiosa : na praia de banhos existiu um café-bar, ali, era o
chamado Éden! Ia-se lá tomar um cafezinho.
PROTAGONISTA
Portanto, tudo isto desapareceu: a praia, o mar...
FOTÓGRAFO
E também esta parte. É tudo cimento, hoje! Só
cimento!
PROTAGONISTA
Só cimento ... O que isto mudou!
FOTÓGRAFO
E nasceu aqui o primeiro quebra-mar. E depois o
outro vem de leste ...
PROTAGONISTA
E tudo isto ficou coberto com o novo porto de
pesca.
FOTÓGRAFO
Esta rua é hoje a rua dos restaurantes da sardinha
assada!
PROTAGONISTA
Isto transformou-se completamente. Hoje já não
existe mar!
FOTÓGRAFO
Hoje já não há mar aqui. Hoje há cimento! Mas o
Campo da Torre, onde nós estamos, aqui, estava em ligação, com uma pequena
rampa, com o “Porto de Revés”. De modo que tínhamos aqui no Campo da Torre,
logo na minha infância ... No cimo do Campo da Torre havia construção de
barcos. Assisti lá à construção de barcos para armação.
PROTAGONISTA
E esta ...
FOTÓGRAFO
Esta é o pessoal de uma armação transportando uma rede aqui no Campo da Torre.
PROTAGONISTA
Rede da sardinha!
FOTÓGRAFO
Sim, para a sardinha, carapau, cavala, sarda, tudo
o que entrasse lá na armação! E aqui no Campo da Torre se fazia a secagem e
reparação da rede. Arranjavam aqui as redes.
PROTAGONISTA
Esta foi uma das fotografias que foram utilizadas naquela primeira exposição que nós fizemos ...
FOTÓGRAFO
Foi, foi! E que é a capa do livro que eu publiquei
sobre Peniche.
PROTAGONISTA
Trouxe-lhe aqui umas fotografias da Maria José. A
Maris José “do espanhol”. A ver se o
Senhor Luis Correia a reconhece.
FOTÓGRAFO
Ah, isso já é muito antigo!
PROTAGONISTA
Ela era novita ...
FOTÓGRAFO
Não, passaram muitos anos ... mas lembro-me. ..
FOTÓGRAFO
Os anos passam e as nossas feições também se
modificam ...
PROTAGONISTA
É! Claro que sim ...
CENA 14
: continuação da cena 1 (encontro)
MARIA JOSÉ
E depois houve uma revolução muito grande lá em
baixo no jardim. Em frente do jardim. Os mestres foram presos. Ainda mataram um
mestre.
PROTAGONISTA
Mas porquê os mestres?
MARIA JOSÉ
Bom, não sei ...
Não queriam compara a sardinha! Ou porque ela era barata de mais e eles
não queriam vender por aquele preço...
PROTAGONISTA
E o pessoal, os pescadores, estavam de acordo com
os mestres?
MARIA JOSÉ
E os pescadores começaram a pisar a sardinha toda
com os pés !
MARIA JOSÉ
Queriam pisar a pé, porque não lhes davam o
dinheiro que eles queriam. Já estavam a morrer de fome. Pelo dinheiro que eles
queriam, não ganhavam nada. Começaram a pisar a sardinha, estavam destemidos.
E, olhe, começou a vir gente da fortaleza, os militares, a cavalo, por aquela
Ribeira fora...
PROTAGONISTA
A GNR, a Guarda Republicana!
MARIA JOSÉ
Vinham a cavalo, naqueles cavalos, tuca-tuca-tuca. E eu cheia de medo. Eu e nós todos! Pus-me à janela do meu primo, a ver passar... E o que me lembrou? “Ah, o filho está na escola!”. O filho do meu primo Carlos! Havia só duas ou três casinhas para o lado da escola. E eu a atravessar aquilo tudo! E fui de corrida, de corrida, à escola buscar o filho pela mão ... Corri aquelas ruas todas, todas, todas, a fugir com ele com medo lhe acontecesse alguma coisa! Era só assim. Foi, foi!... .
Circo :
ALTIFALANTE
Lá no alto esta jovem apresenta-nos bonitos e complicados exercícios. .. Aí está, Sheila! Mais, mais velocidade!
CENA 15
: o protagonista oferece uma navalha ao Rudolfo,
no dia
11 de Setembro.
RUDOLFO
(com um emissor portátil)
Eu sou o Paulo de Carvalho e vou apresentar o
jornal nacional. Tã, tã, tarã ... Hoje Nova Iorque e Washington! Primeiro Nova
Iorque! Os palestinianos atacaram com uma bomba. Passado um minuto ou dois, o
edifício caiu abaixo e 50 mil pessoas ficaram feridas. Não sabemos ainda
quantas morreram, mas ainda vamos saber!
RUDOLFO
Um canivetezinho !
RUDOLFO
E pode
continuar o jornal nacional! Ou seja : eu sou o Paulo de Carvalho e vou
continuar o meu programa- Washington : a segunda torre mais alta dos Estados
Unidos da América também foi bombardeada.
Os palestinianos bombardeiam! Ainda não sei o que aconteceu, mas vamos
saber!
CENA 16
: visita guiada à fortaleza.
DIAS LOURENÇO
(antigo preso)
Quando eu vim para cá fui para ali! E começámos a fazer um buraco para fugir por aqui. Simplesmente, o buraco foi ter a uma rocha e nós
não conseguimos fura a rocha.
DIAS LOURENÇO
Ali há um pátio onde os presos faziam o recreio. Uma hora de recreio por dia! Durante o recreio, era terminantemente proibido que estes daqui chegassem à janela. Janela gradeada. Porque se chegassem à janela havia castigos.
DIAS LOURENÇO
Isto é o Redondo! O Baluarte do Redondo1
DIAS LOURENÇO
É o baluarte do Redondo!. Como vocês vêem, isto é obra!
DIAS LOURENÇO
Tirei a porta, encostei aqui ... Passei para aqui, com cuidado, e organizei então a saída para fora.
DIAS LOURENÇO
Se vocês virem isto, é um buraco! Mas depois
atravessei isto e subi aqui acima. Tinha feito um embrulho com a roupa. Eles, a
certa hora, já não abriam a porta do segredo. À uma hora da noite, não abriam,
batiam só. Perguntavam : “Tá cá?” E eu : “Tou!”. E depois, às quatro, cinco da
manhã, faziam o mesmo. Também não entravam. Mas eu fugi logo após a uma hora da
noite.
DIAS LOURENÇO
O mar não estava assim muito bravo...Mas também
não estava manso ...
DIAS LOURENÇO
Então eu tive de atravessar assim: atravessei para
aqui, assim, um, dois três. Cheguei, ele não deu por nada, não gritou às armas,
não viu! Se ele gritasse às armas eu metia-me outra vez dentro do segredo.
Podia levar um tiro. Ficou calado e eu então subi por aqui....
DIAS LOURENÇO
Com este braço sozinho, fui a nadar para o meio do
mar. A maré estava a vazar e o mar a fazer muita força. Então parei, para
resolver o que ia fazer. Fiz um esforço e agarrei-me outra vez à corda, e
depois dei-me conta de um fenómeno conhecido. É que de sete em sete ondas há
uma onda grande, mais outra, pequena. E depois vêm outra vez, de sete em sete.
Então eu aproveitei as grandes ondas para avançar. Nas pequenas, vinha para
trás ... Isto tem uns oitocentos metros, e eu levei uma hora e um quarto para
fugir. E atravessei o túnel que vocês viram. E agora estou aqui com vocês...
No interior da prisão :
DIAS LOURENÇO
Foi
uma grande derrota para o fascismo! Porque o Álvaro cunhal não era um preso
qualquer! E então eles inventaram que a
fuga só foi possível porque estava um submarino soviético ali, na baía de
Peniche, à espera. Fartámo-nos de rir com isso, é verdade!
DIAS LOURENÇO
Para acabar esta parte : eu depois desapareci do mapa e só tinha que agir o camarada que tinha a responsabilidade dos carros e o camarada que tinha a responsabilidade das casas onde nos ia pôr!
CENA 18
: Maria José dá de comer ao
David.
MARIA JOSÉ
Era uma vez um gatinho,
que deu um saltinho para ali. Depois veio um carro que apanhou o gatinho e o
matou, coitadinho!
DAVID
Hoje?
MARIA JOSÉ
Sim . era o Tareco!
MARIA JOSÉ
Ele deu um saltinho para aqui, o carro passou, bumba, apanhou-o logo! O
gato do Dionísio!
MARIA JOSÉ
Ai, o meu menino hoje é muito bonito, come tudo!
MARIA JOSÉ
Vai outra vez? Abre a garagem!
DAVID
Quero água!
MARIA JOSÉ
A avó depois já dá, tá bem? Só mais um bocadinho!
MARIA JOSÉ
Ó Rudolfo, vai buscar
um bocadinho de água ao menino! Vais?
RUDOLFO
Vou!
CENA 19 : fabrico dos carrinhos
RUDOLFO
É o namorado dela!
RUDOLFO
Ó Rui, então a tua namorada?
RAPAZ
Pára com isso!
RUDOLFO
Então assim não consigo cortar!
RUDOLFO
Vai dar uma voltinha!
RUDOLFO
Dá-me outra, dá-me outra!
CENA 20 : catando o cão.
PRIMEIRO RAPAZ
Ele tem uma pulga!
RUDOLFO
Tira! É pulga!
PRIMEIRO RAPAZ
Vês? Estavas a dizer que ele não tinha pulgas, mas
tinha!
RUDOLFO
É pulga! Isso é um bicho!
PRIMEIRO RAPAZ
Olha, até tem mãos e
tudo!
Continuação
da cena 1 (encontro)
MARIA JOSÉ
E lá, naquela Ribeirazinha do abrigo, havia peixe
com fartura! Aquilo era tudo mar. Os peixes-espadas andavam a monte, ali,
assim, uns para trás e outros para a frente. Eu um dia vou lá mesmo ao pé e
digo assim : “Olha lá, vou apanhar um peixe-espada, e à mão!”. Elas olhavam,
riam-se e diziam :”Não és capaz!”. “Não sou? Então vamos lá ver se sou ou
não!”. Pus um pé mais à frente, dentro de água, agarro pelo rabo de um
peixe-espada grande e trouxe-o para terra!... Fartaram-se de rir ...
CENA 22 : Maria
José avista ao longe o “Nosso Sonho”, barco dos filhos.
MARIA JOSÉ
Vai a
andar para terra à força toda! Passaram aqui rentes!
MARIA JOSÉ
Leva o
pau em cima, que é o que fala, o rádio. Leva a casa do leme à frente e é branco
e azul...
A MULHER off
É eles!
MARIA JOSÉ
É eles, não é?
MULHER off
É !
Continuação
da cena 1 (encontro)
MARIA JOSÉ
Isto, a vida do mar, é assim. Tão depressa está
quieto como alevanta-se. Aqui ainda há poucos meses eu fartei-me de chorar. O
barquinho dos meus dois filhos é pequeno. Eles andam juntos os dois. Estava
mar, muito mar. Estava levantado, era ondas e mais ondas. Eles, coitados, iam
para lá e o mar vinha e eles tinham que recuar para cá, e o mar ia para lá!
Tinham de recuar outra vez, ao tom das marés ...
Era uma fola desgraçada que estava para aí! O
salva-vidas andava atrás deles a ver se podia meter a mão a algum. Mas não
conseguia ir ao pé deles. E eu a ver eles vir do mar, coitadinhos, e a querer
ir para dentro sem poder. Muito eu chorei aqui!
CENA 24 : Isabel
e Beta, as filhas da Maria José, saem de casa dela.
BETA
Então até amanhã!
ISABEL
Vou-me embora também!
MARIA JOSÉ
Vai, vai! Vão-se lá embora! Ciao!
O protagonista recebe uma foto antiga de uma amiga de infância.
PROTAGONISTA
Há quanto tempo não vinhas aqui?
ISAURA
Aqui, a esta casa?
PROTAGONISTA
Sim.
ISAURA
Então, já vai para mais de cinquenta! Há mais de
cinquenta anos! Às vezes ia lá a casa a tua mãe, comprar uma coisa qualquer.
PROTAGONISTA
E conta lá como é que ficaste com essa fotografia!
ISAURA
Como é que eu fiquei com a fotografia?
PROTAGONISTA
Sim ... Onde é que tu arranjaste a fotografia?
ISAURA
Foi o teu pai! Foi o teu pai que ma deu, porque a minha já tinha desaparecido.
PROTAGONISTA
Onde é que a tinhas?
ISAURA
Tinha-a lá na parede. Não havia molduras naquele
tempo. Tinha sido posta lá na parede, com pregos. E ainda está lá o sítio onde
a fotografia foi posta. Está lá a marca. Está lá os quatro pregos ainda, na
parede. A fotografia desapareceu. A cal foi comendo a fotografia. Mas eu sabia
que a fotografia existia aqui em tua casa. E eu perguntei ao teu pai se ele
tinha ideia da fotografia. E ele disse que sim, que tinha. E depois eu disse se
ele ma emprestava para mandar fazer uma. E ele disse : pronto, que ma
emprestava quando eu quizesse. Que a ia levar lá a casa, ali à minha mãe, que
era ali perto, para ela mandar fazer uma e que depois lha entregasse.
PROTAGONISTA
Mostra lá!
ISAURA
Que a entregasse a ele,
que ele estimava muito a fotografia. Pronto, que tinha muita estimação, com
tinha no filho.
PROTAGONISTA
Andavas de pé descalço!
ISAURA
Quando tive os primeiros sapatos já tinha mais de
dez ou doze anos. Andava tudo de pé descalço e ninguém tinha frio. Era assim. A
vida era assim !
PROTAGONISTA
O que é que estavas a fazer ali no outro dia
quando nos encontrámos?
ISAURA
A ver se
encontrava alguém para alugar um dos quartos.
PROTAGONISTA
Ah, alugas um quartinho no verão!
ISAURA
Alugo. Às vezes aparece ...
A Isaura e uma amiga tentam alugar um quarto
chamando a atenção dos carros que passam.
ISAURA e MULHER
Quartos! Alô, chambres! ...Chambres!...