BRUMAS

 

filme de

 

Ricardo Costa

 

diálogos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENA 1 : o protagonista encontra-se com a Maria José num banco vermelho frente ao mar

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ainda se lembra de mim?

 

 

PROTAGONISTA

 

Lembro, lembro-me bem de si !

 

 

PROTAGONISTA

 

Você uma vez começou a contar-me uma história. Era altura dos  Reis. Eu estava muito entusiasmado com a história que você me estava a contar : haviam de chegar os Reis em camelos, todos aperaltados e paramentados. E as horas passavam-se. As horas passavam-se e às tantas começou a cair a noite. Eu fiquei a perceber que já não havia reis nenhuns. Fiquei furioso. E o que é que eu fiz? Agarrei num gato preto que lá havia em casa. Atirei-o ao ar, na cozinha - estávamos na cozinha...  O gato  caiu em cima da frigideira que estava ao lume, a ferver. A frigideira caiu, o gato ficou queimado com o azeite a ferver, fugiu porta fora, desapareceu durante quatro dias e você ficou com as pernas queimadas com azeite...

 

MARIA JOSÉ

 

Depois, eu fiquei com as pernas queimadas com o azeite e a sua mãe estava a falar com o tio Joaquim da Rosa na sala. Ouviu qualquer zum-zum e veio à cozinha. “Então o que é que se passou?”. “Eu tenho estado a enganar o menino, que vamos ver os Reis, que vamos ver os Reis, e não há maneira de irmos ver os Reis!”.

 

PROTAGONISTA

 

Mas cinquenta e tal anos ... O tempo ...O tempo que passou ...

 

 

MARIA JOSÉ

 

E que vai passando ... Eu   tive filhos, tenho netos e bisnetos e tudo!...

 

 

PROTAGONISTA

 

Você tem ...

 

MARIA JOSÉ

 

Tenho dois bisnetos e sete netos. Netos e netas. Sete.

 

 

PROTAGONISTA

 

E filhos?

 

MARIA JOSÉ

 

Tenho quatro filhos. Duas filhas e dois filhos...

 

 

 

 

CENA 5 : casa da Maria José, que serve o almoço ao Rudofo e ao David

 

 

MARIA JOSé

 

Olha, o André está a chorar .

 

DAVID

 

Está?

 

MARIA JOSÉ

 

O André também é de trás da orelha. É tudo boa gente! A tentar o juízo aos pais!..

 

 

RUDOLFO

 

Ele não passa sem água, avó!

 

 

MARIA JOSÉ para o David

 

Olha, para onde é que tu vais? Vais jogar à bola com o Rudolfo ou vais trabalhar para a casa “Garantia” com a mãe?

 

 

DAVID

 

Vou antes com o Rudolfo! Jogar à bola com ele ...

 

 

MARIA JOSÉ

 

Mas é com o Benfica ou com o Sporting?

 

 

DAVID

 

Com o Sporting!

 

 

RUDOLFO

 

O Benfica! Que eu  não vou para  o Sporting! Estás com azar!

 

 

DAVID

 

Co Benfica ...

 

 

RUDOLFO

 

Ah, assim já está melhor ! ...

 

 

MARIA JOSÉ

 

Vais para o Benfica, ganhas mais dinheiro....

 

RUDOLFO

 

O Sporting não tem dinheiro para pagar aos jogadores ! Depois és grande e não tinhas dinheiro.

 

 

MARIA JOSÉ

 

Então, o Benfica tem?

 

 

RUDOLFO

 

O Benfica tem !

 

 

DAVID

 

Então o meu pai uma vez foi jogar no Sporting e até marcou um

golo ...

 

 

DAVID

 

... assim …pum! Até foi peloo ar, a bola!

 

 

 

RUDOLFO

 

Como é que sabes? O teu pai era o rei dos gordos, pá! Sabes porquê, David? Se o teu pai era bombeiro, como é que ele atirava a bola? Era com a mangueira?

 

 

DAVID

 

Não,  jogava à bola com o sapato dele ...

 

 

RUDOLFO

 

Ele não joga à bola! Olha, o teu pai não percebe nada disso, meu!

 

 

DAVID

 

Pois, o meu pai tira o dinheiro e paga !

 

 

RUDOLFO

 

Mas quem paga não é o teu pai.  O teu pai não trabalha para pagar aos outros!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ouve lá David, como é que tu te chamas?

 

 

MARIA JOSÈ

 

Deixa-o agora dizer o nome!

 

 

RUDOLFO

 

Como é que é? Devagarinho ... Alto, alto! ... Assim não, alto! Senta-te lá e depois dizes o teu nome! Diz para a avó, para a avó ouvir! Não é aí, David! David Teodoro Moreira! Diz lá!

 

DAVID

 

David Teodoro Moreira!

 

 

MARIA JOSÉ

 

E o Rudolfo, como é que se chama o Rudolfo?

 

 

DAVID

 

Rudolfo!

 

 

 

MARIA JOSÈ

 

Rudolfo quê?

 

 

RUDOLFO

 

Meia-lança!

 

 

MARIA J0SÉ

 

Diz de rijo, que é para a avó ouvir.

 

 

DAVID

 

Meia-lança!

 

 

MARIA JOSÉ

 

.... leva um murro na pança ...

 

 

RUDOLFO

 

Que é isto, avó? É fogo?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Está a apitar? É nevoeiro!

 

 

 

DAVID

 

É fogo !

 

 

 

 

 

RUDOLFO

 

É nevoeiro!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ah credo, rapazes, calem-se!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Não queres fazer estalinhos na mão?

 

 

DAVID

 

Não !

 

 

MARIA JOSÉ

 

Olha, a Joana gosta muito de fazer estalinhos na mão!

 

 

DAVID

 

Morre! Cai no chão, está bem?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Está caído, morreu! E agora, não tens pena dele?

 

DAVID

Cai !

 

 

RUDOLFO

 

E agora vou fazer óó!

 

 

 

 

MARIA JOSÉ

Olha, anda cá, escuta lá. A mão fixe, isto é manobra! ... Faz doer? Não faz! ...

 

 

RUDOLFO

 

Come! Isso é fiambre! Isso não está quente, está bom!

 

 

MARIA JOSÉ

 

É mesmo burreco!

 

 

MARIA JOSÉ

Ó meninos! Não se portem bem, que apanham porrada que até os viro! ... A avó só promete dar não dá! É o que eles têm falta de vez em quando! Uma palmadinha, assim, bem dada ... Que eles são muito reguilas!

 

 

MARIA JOSÉ

Queres uvas, David?

 

 

DAVID

 

Morreste!

 

MARIA JOSÉ

 

Morri, eu? Estou morta! Morri agora!

 

 

DAVID

 

Ele morreu! Não tinha pistola!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Já não matas a avó? Tantas historinhas a ele, tantas, tantas, que  até ficámos  a dormir os dois, não foi? Os dois sozinhos ! Na cama da mãe dele, não foi? Até adormecer. Olha, era os palhaços, que andavam aos saltos, murros no nariz, o que ele ria! Até lhe doía a barriga ,,,

 

 

RUDOLFO

 

É para ver se gostas dela ...

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ele já deu a ver! Então, e tu?

 

 

RUDOLFO

 

Eu já dou!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Tantos beijinhos, tantos!

 

 

DAVID

 

Já lhe dei mais um!

 

 

RUDOLFO

 

Dá mais um! ,,, Então não gostas da avó?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Agora anda cá tu! Então agora anda cá tu! Dá-me um beijinho para ver se gostas de mim!

 

 

 

 

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ah os meus ricos netos, todos, todos, a avó gosta muito deles ...

 

 

MARIA JOSÉ

 

Olha, agora mostra aí esses quadros do Nuno e da Carla! ..

 

RUDOLFO.

 

O quê?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Esse quadro que está aí pendurado! ...

 

 

RUDOLFO

 

David, olha aqui a mãe!

 

 

MARIA JOSÉ

 

É a mãe dele quando era pequenina. E é o tio Nuno, o irmão-

 

 

MARIA JOSÉ

 

São os dois  filhos da minha Isabel !

 

 

 

 

 

CENA 6 : Rudolfo e David no terraço com os cães

 

 

RUDOLFO

 

Vai para ali!

 

 

RUDOLFO

 

Estás com medo do cão:

 

 

RUDOLFO

 

Chuta!  Põe aí o jogo em cima do banco! Chuta para mim!

 

 

 

CENA 7 : ourivesaria

 

 

ISABEL

 

O ouro é os mesmos quilates : oitocentos. O nosso ouro português tem oitocentos. A diferença é de feitio. Enquanto este é filigrana, este é normal. É trabalhado à mão. O ouro tradicional português é trabalhado à mão. É normal. Experimente só para ver!

 

 

SILVINA

 

Quer que eu me vire de costas? Ai, eu com o meu vestidinho e uma coisa destas ao pescoço ...

 

 

BETA

 

Mas fica-lhe bem! ...  Até dá com os tons do vestido! É muito gira, essa turquesa.

 

 

SILVINA

 

Tão gira! E fica bem, este tom escuro e dourado.

 

 

 

 

 

 

BETA

 

Pois, vai escurecendo, porque aqui o ar do mar provoca muito esta acidez e faz as peças ficarem assim ... De vez em quando têm de ser limpas.

 

 

 

CENA 9 : Maria José e as amigas

 

 

MARIA JOSÉ

 

A minha prime Esmeralda tinha criadas lá em casa e não ia à lixívia nem uma peça.   As criadas lá de casa ia tudo lavar para a cerca. Mas a minha prima fazia-as lavar a roupa toda ensaboadinha e depois novamente, e pôr tudo em cima da relva, a corar, tudo a corar

Nem uma peça ia à lixívia.

 

 

CESALTINA

 

Diz-lhe que ma tragam, à Antónia Velha, que a Antónia Velha tem muito sabão! ... Olha, tens de me levar o sabão à porta para a outra semana!  Olha que eu vou-te pedir o sabão!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ficava ali a roupa branca como a neve, coradinha! Sem lixívia, sem nada!

 

 

RUDOLFO

(com os binóculos)

 

Agora vê-se mais de perto.

 

CESALTINA

 

Fazia-se chuchas de açúcar com pão e as formigas davam com ela ...

 

 

 

MARIA JOSÉ

 

As formigas a comerem a boca à criança ...

 

 

CESALTINA

 

Passámos muito para criar os filhos ...

 

 

MARIA JOSÈ

 

Olha agora ! É chuchinhas, é fraldinhas ,,, Como é que se chama às fraldas?

 

 

CESALTINA

 

Sei cá!

 

MARIA JOSÉ

 

Como é que se chama às fraldas? Rudolfo, como é que se chama às fraldinhas do David? É Dodots, não é? Dodots! Naquele tempo eram de pano. Era a lavar assim! A tirar aquilo tudo ...

 

 

MARIA JOSÉ

(enrola no pulso o colar de ouro da Cesaltina)

 

Eu a mim não me gosto de ver! A mim não gosto de me ver ...

 

 

CESALTINA

 

Não gostas não!

 

 

MARIA JOSÉ

 

E às outras pessoas gosto!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Já dei um fio grosso a elas! Dei uma pulseira a cada filha!

 

 

 

 

Continuação da cena 1 (encontro com Maria José) :

 

 

MARIA JOSÉ

 

Era um pagode todos os dias.  Eu só queria era brincadeira!   Ainda

hoje eu sou assim! Gosto de pagode, gosto de brincadeira, gosto de

rir! Às vezes  estou a conversar. Ponho-me a conversar.  E a minha

filha : “Ó mãe, cale-se! Você nunca se cansa de falar tanto, mãe!” “Ó

filha deixa-me falar! Quando eu morrer já não falo nada. Acaba-se o

falar, acaba-se tudo!”.

 

 

 

CENA 10 : carro do circo

 

 

ALTIFALANTE

 

Leões, tigres, ursos da Sibéria, palhaços, trapezistas voadores,

Um grande espectáculo, uma grande companhia!  Roberto Cardinalli ! Instalado em Peniche junto ao Interrmarché!  Hoje à dez horas da noite  O êxito continua! Hoje à 10 horas da noite e até ao próximo domingo, dia 30 de Agosto! Sábado e domingo matiné às 17, cinco da tarde. À noite, vinte e duas horas! Hoje e todos os dias à dez horas da noite!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENA !2 : um grupo de homens e mulheres repara uma rede de pesca da sardinha

 

 

PRIMEIRO HOMEM

(para o Rudolfo)

 

Estás a ouvir? Ouviste o que é que eu disse?

 

 

RUDOLFO

 

O que é que é?

 

HOMEM

 

Vocês querem ser atadores?

 

AMIGO DO RUDOLFO

 

Não!

 

 

RUDOLFO

 

Jogadores!

 

 

AMIGO DO RUDOLFO

 

Eu quero ser jogador!

 

 

HOMEM

 

Vão jogar para onde?

 

 

RUDOLFO

 

Eu vou jogar para o Benfica!

 

 

HOMEM

 

Ai, Jesus!

 

AMIGO DO RUDOLFO

 

E eu vpu para o Sporting!

 

 

HOMEM

 

Ai, Jesus!

 

 

SEGUNDO HOMEM

 

Não vás para o Benfica ! O Benfica compra e não paga!

 

 

AMIGO DO RUDOLFO

 

É verdade! Quando chegar ao meio da época não tem dinheiro para pagar aos jogadores!

 

MULHER

 

Ora bem!

 

 

PRIMEIRO HOMEM

 

Já parecia o guarda-redes do Salgueiros!

 

 

SEGUNDO HOMEM

 

Ó Jacinto, agora é mais meia hora para chupar o Perna-de.Pau!.

 

 

 

 

 

 

 

CENA 13 : em casa do velho fotógrafo

 

 

FOTÓGRAFO

 

Em 1922 vieram os primeiros políticos que tinham residência fixada em Peniche e que todos os dias tinham de se apresentar na fortaleza. Veio um oficial do exército tomar conta da fortaleza e todos os dias se apresentavam. E, passado pouco tempo, passou então a presídio político.

 

 

PROTAGONISTA

 

No tempo de Salazar!

 

 

FOTÓGRAFO

 

No tempo de Salazar, infelizmente, a fortaleza foi presídio político. E assim esteve até ao 25 de Abril de 74.

 

 

FOTÓGRAFO

 

Nesta temos uma fotografia aérea em que podemos ver a doca cheia de barcos. Podemos apreciar o “Porto de Revés”  e a fortaleza. O Rendondo e toda a fortaleza. E até uma coisa curiosa : na praia de banhos existiu um café-bar, ali, era o chamado Éden! Ia-se lá tomar um cafezinho.

 

 

PROTAGONISTA

 

Portanto, tudo isto desapareceu: a praia, o mar...

 

 

FOTÓGRAFO

 

E também esta parte. É tudo cimento, hoje! Só cimento!

 

 

 

PROTAGONISTA

 

Só cimento ... O que isto mudou!

 

 

FOTÓGRAFO

 

E nasceu aqui o primeiro quebra-mar. E depois o outro vem de leste ...

 

PROTAGONISTA

 

E tudo isto ficou coberto com o novo porto de pesca.

 

 

FOTÓGRAFO

 

Esta rua é hoje a rua dos restaurantes da sardinha assada!

 

 

PROTAGONISTA

 

Isto transformou-se completamente. Hoje já não existe mar!

 

 

FOTÓGRAFO

 

Hoje já não há mar aqui. Hoje há cimento! Mas o Campo da Torre, onde nós estamos, aqui, estava em ligação, com uma pequena rampa, com o “Porto de Revés”. De modo que tínhamos aqui no Campo da Torre, logo na minha infância ... No cimo do Campo da Torre havia construção de barcos. Assisti lá à construção de barcos para armação.

 

 

PROTAGONISTA

 

E esta ...

 

FOTÓGRAFO

 

Esta é o pessoal de uma armação transportando uma rede aqui no Campo da Torre.

 

 

PROTAGONISTA

 

Rede da sardinha!

 

FOTÓGRAFO

 

Sim, para a sardinha, carapau, cavala, sarda, tudo o que entrasse lá na armação! E aqui no Campo da Torre se fazia a secagem e reparação da rede. Arranjavam aqui as redes.

 

 

PROTAGONISTA

 

Esta foi uma das fotografias que foram utilizadas naquela primeira exposição que nós fizemos ...

 

 

FOTÓGRAFO

 

Foi, foi! E que é a capa do livro que eu publiquei sobre Peniche.

 

 

PROTAGONISTA

 

Trouxe-lhe aqui umas fotografias da Maria José. A Maris José “do espanhol”.  A ver se o Senhor Luis Correia a reconhece.

 

 

FOTÓGRAFO

 

Ah, isso já é muito antigo!

 

 

PROTAGONISTA

 

Ela era novita ...

 

FOTÓGRAFO

 

Não, passaram muitos anos ... mas lembro-me. ..

 

 

PROTAGONISTA

 

Ela falou de si ...

 

FOTÓGRAFO

 

Os anos passam e as nossas feições também se modificam ...

 

 

PROTAGONISTA

 

É! Claro que sim ...

 

 

 

CENA 14 : continuação da cena 1 (encontro)

 

 

MARIA JOSÉ

 

E depois houve uma revolução muito grande lá em baixo no jardim. Em frente do jardim. Os mestres foram presos. Ainda mataram um mestre.

 

PROTAGONISTA

 

Mas porquê os mestres?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Bom, não sei ...  Não queriam compara a sardinha! Ou porque ela era barata de mais e eles não queriam vender por aquele preço...

 

 

PROTAGONISTA

 

E o pessoal, os pescadores, estavam de acordo com os mestres?

 

 

 

MARIA JOSÉ

 

E os pescadores começaram a pisar a sardinha toda com os pés !

 

 

MARIA JOSÉ

 

Queriam pisar a pé, porque não lhes davam o dinheiro que eles queriam. Já estavam a morrer de fome. Pelo dinheiro que eles queriam, não ganhavam nada. Começaram a pisar a sardinha, estavam destemidos. E, olhe, começou a vir gente da fortaleza, os militares, a cavalo, por aquela Ribeira fora...

 

 

PROTAGONISTA

 

A GNR, a Guarda Republicana!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Vinham a cavalo, naqueles cavalos, tuca-tuca-tuca. E eu cheia de medo. Eu e nós todos! Pus-me à janela do meu primo, a ver passar... E o que me lembrou? “Ah, o filho está na escola!”. O filho do meu primo Carlos! Havia só duas ou três casinhas para o lado da escola. E eu a atravessar aquilo tudo! E fui de corrida, de corrida, à escola buscar o filho pela mão ... Corri aquelas ruas todas, todas, todas, a fugir com ele com medo lhe acontecesse alguma coisa! Era só assim. Foi, foi!...                                                .

 

 

Circo :

 

ALTIFALANTE

 

Lá no alto esta jovem apresenta-nos bonitos e complicados exercícios. .. Aí está, Sheila! Mais, mais velocidade!

 

 

 

 

 

 

CENA 15 : o protagonista oferece uma navalha ao Rudolfo,

no dia 11 de Setembro.

 

 

RUDOLFO

(com um emissor portátil)

 

Eu sou o Paulo de Carvalho e vou apresentar o jornal nacional. Tã, tã, tarã ... Hoje Nova Iorque e Washington! Primeiro Nova Iorque! Os palestinianos atacaram com uma bomba. Passado um minuto ou dois, o edifício caiu abaixo e 50 mil pessoas ficaram feridas. Não sabemos ainda quantas morreram, mas ainda vamos saber!

 

 

RUDOLFO

 

Um canivetezinho !

 

 

RUDOLFO

 

E  pode continuar o jornal nacional! Ou seja : eu sou o Paulo de Carvalho e vou continuar o meu programa- Washington : a segunda torre mais alta dos Estados Unidos da América também foi bombardeada.  Os palestinianos bombardeiam! Ainda não sei o que aconteceu, mas vamos saber!

 

 

 

 

CENA 16 : visita guiada à fortaleza.

 

 

DIAS LOURENÇO

(antigo preso)

 

Quando eu vim para cá fui para ali! E começámos a fazer um buraco para fugir por aqui. Simplesmente, o buraco foi ter a uma rocha e nós

não conseguimos fura a rocha.

 

 

 

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Ali há um pátio onde os presos faziam o recreio. Uma hora de recreio por dia! Durante o recreio, era terminantemente proibido que estes daqui chegassem à janela. Janela gradeada. Porque se chegassem à janela havia castigos.

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Isto é o Redondo! O Baluarte do Redondo1

 

 

DIAS LOURENÇO

 

É o baluarte do Redondo!. Como vocês vêem, isto é obra!

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Tirei a porta, encostei aqui ... Passei para aqui, com cuidado, e organizei então a saída para fora.

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Se vocês virem isto, é um buraco! Mas depois atravessei isto e subi aqui acima. Tinha feito um embrulho com a roupa. Eles, a certa hora, já não abriam a porta do segredo. À uma hora da noite, não abriam, batiam só. Perguntavam : “Tá cá?” E eu : “Tou!”. E depois, às quatro, cinco da manhã, faziam o mesmo. Também não entravam. Mas eu fugi logo após a uma hora da noite.

 

 

DIAS LOURENÇO

 

O mar não estava assim muito bravo...Mas também não estava manso ...

 

DIAS LOURENÇO

 

Então eu tive de atravessar assim: atravessei para aqui, assim, um, dois três. Cheguei, ele não deu por nada, não gritou às armas, não viu! Se ele gritasse às armas eu metia-me outra vez dentro do segredo. Podia levar um tiro. Ficou calado e eu então subi por aqui....

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Com este braço sozinho, fui a nadar para o meio do mar. A maré estava a vazar e o mar a fazer muita força. Então parei, para resolver o que ia fazer. Fiz um esforço e agarrei-me outra vez à corda, e depois dei-me conta de um fenómeno conhecido. É que de sete em sete ondas há uma onda grande, mais outra, pequena. E depois vêm outra vez, de sete em sete. Então eu aproveitei as grandes ondas para avançar. Nas pequenas, vinha para trás ... Isto tem uns oitocentos metros, e eu levei uma hora e um quarto para fugir. E atravessei o túnel que vocês viram. E agora estou aqui com vocês...

 

 

No interior da prisão :

 

DIAS LOURENÇO

 

Foi uma grande derrota para o fascismo! Porque o Álvaro cunhal não era um preso qualquer!  E então eles inventaram que a fuga só foi possível porque estava um submarino soviético ali, na baía de Peniche, à espera. Fartámo-nos de rir com isso, é verdade!

 

 

DIAS LOURENÇO

 

Para acabar esta parte : eu depois desapareci do mapa e só tinha que agir o camarada que tinha a responsabilidade dos carros e o camarada que tinha a responsabilidade das casas onde nos ia pôr!

 

 

 

CENA 18 : Maria José dá de comer ao David.

 

MARIA JOSÉ

 

Era uma vez um gatinho, que deu um saltinho para ali. Depois veio um carro que apanhou o gatinho e o matou, coitadinho!

 

 

DAVID

 

Hoje?

 

 

MARIA JOSÉ

 

Sim . era o Tareco!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ele deu um saltinho para aqui, o carro passou, bumba, apanhou-o logo! O gato do Dionísio!

 

MARIA JOSÉ

 

Ai, o meu menino hoje é muito bonito, come tudo!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Vai outra vez? Abre a garagem!

 

 

DAVID

 

Quero água!

 

 

MARIA JOSÉ

 

A avó depois já dá, tá bem? Só mais um bocadinho!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Ó Rudolfo, vai buscar um bocadinho de água ao menino! Vais?

 

 

RUDOLFO

 

Vou!

 

 

 

 

CENA 19 :  fabrico dos carrinhos

 

 

RUDOLFO

 

É o namorado dela!

 

 

RUDOLFO

 

Ó Rui, então a tua namorada?

 

 

RAPAZ

 

Pára com isso!

 

 

RUDOLFO

 

Então assim não consigo cortar!

 

 

RUDOLFO

 

Vai dar uma voltinha!

 

 

RUDOLFO

 

Dá-me outra, dá-me outra!

 

 

 

 

 

CENA 20 : catando o cão.

 

 

PRIMEIRO RAPAZ

 

Ele tem uma pulga!

 

 

RUDOLFO

 

Tira! É pulga!

 

 

PRIMEIRO RAPAZ

 

Vês? Estavas a dizer que ele não tinha pulgas, mas tinha!

 

 

 

RUDOLFO

 

É pulga! Isso é um bicho!

 

 

PRIMEIRO RAPAZ

 

Olha, até tem mãos e tudo!

 

 

 

Continuação da cena 1 (encontro)

 

 

MARIA JOSÉ

 

E lá, naquela Ribeirazinha do abrigo, havia peixe com fartura! Aquilo era tudo mar. Os peixes-espadas andavam a monte, ali, assim, uns para trás e outros para a frente. Eu um dia vou lá mesmo ao pé e digo assim : “Olha lá, vou apanhar um peixe-espada, e à mão!”. Elas olhavam, riam-se e diziam :”Não és capaz!”. “Não sou? Então vamos lá ver se sou ou não!”. Pus um pé mais à frente, dentro de água, agarro pelo rabo de um peixe-espada grande e trouxe-o para terra!... Fartaram-se de rir ...

 

 

 

 

 

 

 

 

CENA 22 : Maria José avista ao longe o “Nosso Sonho”, barco dos filhos.

 

 

MARIA JOSÉ

 

Vai a andar para terra à força toda! Passaram aqui rentes!

 

 

MARIA JOSÉ

 

Leva o pau em cima, que é o que fala, o rádio. Leva a casa do leme à frente e é branco e azul...

 

 

A MULHER off

 

É eles!

 

 

MARIA JOSÉ

 

É eles, não é?

 

 

MULHER off

 

É !

 

 

Continuação da cena 1 (encontro)

 

 

MARIA JOSÉ

 

Isto, a vida do mar, é assim. Tão depressa está quieto como alevanta-se. Aqui ainda há poucos meses eu fartei-me de chorar. O barquinho dos meus dois filhos é pequeno. Eles andam juntos os dois. Estava mar, muito mar. Estava levantado, era ondas e mais ondas. Eles, coitados, iam para lá e o mar vinha e eles tinham que recuar para cá, e o mar ia para lá! Tinham de recuar outra vez, ao tom das marés ...

Era uma fola desgraçada que estava para aí! O salva-vidas andava atrás deles a ver se podia meter a mão a algum. Mas não conseguia ir ao pé deles. E eu a ver eles vir do mar, coitadinhos, e a querer ir para dentro sem poder. Muito eu chorei aqui!

 

 

 

 

CENA 24 : Isabel e Beta, as filhas da Maria José, saem de casa dela.

 

 

BETA

 

Então até amanhã!

 

ISABEL

 

Vou-me embora também!

 

MARIA JOSÉ

 

Vai, vai! Vão-se lá embora! Ciao!

 

 

 

O protagonista recebe uma foto antiga de uma amiga de infância.

 

 

 

PROTAGONISTA

 

Há quanto tempo não vinhas aqui?

 

 

ISAURA

 

Aqui, a esta casa?

 

PROTAGONISTA

 

Sim.

 

 

 

 

ISAURA

 

Então, já vai para mais de cinquenta! Há mais de cinquenta anos! Às vezes ia lá a casa a tua mãe, comprar uma coisa qualquer.

 

 

PROTAGONISTA

 

E conta lá como é que ficaste com essa fotografia!

 

 

ISAURA

 

Como é que eu fiquei com a fotografia?

 

 

PROTAGONISTA

 

Sim ... Onde é que tu arranjaste a fotografia?

 

 

ISAURA

 

Foi o teu pai! Foi o teu pai  que ma deu, porque a minha já tinha desaparecido.

 

 

PROTAGONISTA

 

Onde é que a tinhas?

 

 

ISAURA

 

Tinha-a lá na parede. Não havia molduras naquele tempo. Tinha sido posta lá na parede, com pregos. E ainda está lá o sítio onde a fotografia foi posta. Está lá a marca. Está lá os quatro pregos ainda, na parede. A fotografia desapareceu. A cal foi comendo a fotografia. Mas eu sabia que a fotografia existia aqui em tua casa. E eu perguntei ao teu pai se ele tinha ideia da fotografia. E ele disse que sim, que tinha. E depois eu disse se ele ma emprestava para mandar fazer uma. E ele disse : pronto, que ma emprestava quando eu quizesse. Que a ia levar lá a casa, ali à minha mãe, que era ali perto, para ela mandar fazer uma e que depois lha entregasse.

 

 

PROTAGONISTA

 

Mostra lá!

 

 

ISAURA

 

Que a entregasse a ele, que ele estimava muito a fotografia. Pronto, que tinha muita estimação, com tinha no filho.

 

 

PROTAGONISTA

 

Andavas de pé descalço!

 

ISAURA

 

Quando tive os primeiros sapatos já tinha mais de dez ou doze anos. Andava tudo de pé descalço e ninguém tinha frio. Era assim. A vida era assim !

 

 

PROTAGONISTA

 

O que é que estavas a fazer ali no outro dia quando nos encontrámos?

 

ISAURA

 

A  ver se encontrava alguém para alugar um dos quartos.

 

 

PROTAGONISTA

 

Ah, alugas um quartinho no verão!

 

 

ISAURA

 

Alugo. Às vezes aparece ...

 

 

 

A Isaura e uma amiga tentam alugar um quarto chamando a atenção dos carros que passam.

 

 

ISAURA e MULHER

 

Quartos! Alô, chambres! ...Chambres!...