o olhar
antes do cinema
de
introdução
O presente artigo foi publicado no
"Jornal da Educação", em Junho de 1982 e ilustra duas coisas : um
certo entendimento teórico do filme documentário e a metodologia subjacente aos
filmes que me foi possível fazer, numa época em que Portugal se abriu à visão,
na maior parte dos casos, deslumbrada e amarga, de alguns cineastas.
Deixou de se fazer filmes desses, ao
mesmo tempo que, pouco a pouco, o país que deu origem a essas imagens se
extinguia. Extinguia-se esse país e extinguiram-se os filmes - precários, à
imagem do país, porque eram pobres como ele. Pobres neste sentido : feitos com
poucos meios, na proporção da precariedade que fez com que aquilo que foi
filmado pouco a pouco se extinguisse. Resta-nos o orgulho de terem ficado
certas imagens, que não voltaram a ser vistas. Este desenlace dos caprichos da
história envolve, é claro, um drama e responsabilidades que hoje ainda não foi
possível precisar e que têm como origem não unicamente situações incontroladas
mas responsabilidades de pessoas que ajudaram a conduzir as coisas nesse
sentido.
É certo que todo o progresso tem
custos e acarreta tragédias, mas a este ponto … Sabemos mais ou menos o que ele
trouxe, sabemos que aldeias perdidas foram ligadas ao mundo, modernizadas, mas
a que preço … Sabemos do vazio trágico em que foram deixados certos lugares e
certas coisas que o progresso, feito dessa maneira, aniquilou. Ficamos também a
saber que nada substituiu certas realidades admiráveis que foram extintas. É
isto que dói, que merece reflexão, mas que nem lamento justifica, porque só nos
resta o futuro. Que entrevemos mal, porque hoje, entre os responsáveis que
temos, há quem tudo faça para que do presente ou do futuro nada seja visto
daquilo que não lhes interessa … nem no cinema. Mesmo que isso possa também ser
belo, comovente, como certas das pessoas, das paisagens, de certa precária
riqueza, de entre tudo o que tem sido extinto.
RC - 21/7/97
dois modos de ver
Um dia, depois de ter
assistido a uma das primeiras representações do "cinematógrafo", o
director do Teatro Robert Houdin, George Méliès, pediu a Antoine Lumière que
lhe vendesse um dos seus aparelhos. O pai dos inventores - Auguste e Louis -
recusou : tratava-se de um invento sem interesse científico, sem carácter
comercial e que não traria qualquer vantagem para o prestigitador.
Méliès construiu o seu
próprio aparelho, baseando-se no invento dos irmãos Lumière, e passou a
utilizá-lo para fins que desvirtuavam inteiramente a intenção inicial dos
inventores. Até 1914 Méliès realiza centenas de filmes cuja eficácia se
fundamenta na ilusão e fantasia, cria imagens alucinantes e chega a fabricar
actualidades trucadas. Constrói hábil e cuidadosamente cenários que lhe
permitem criar no filme a ilusão da realidade.
A partir de então, com
Méliès, o cinema invadiu o mundo, reproduzindo-se numa onda crescente,
tornando-se a arte mais perfeita da verosimilhança. Inicialmente espectáculo de
feira, por excelência, o cinema pouco a pouco foi conquistando um estatuto
nobre que, em definitivo, o impôs como arte nova e, de facto, sem razão para
incrédulos, a sétima. Com técnicas cada vez mais apuradas em todos os aspectos
da produção, o cinema aperfeiçoou até um grau admirável essa sua primordial
capacidade de criar a ilusão do real.
Mas já nos primórdios, a
contestação original de Antoine Lumière, perante a pretensão
"indigna" de Méliès, foi reassumida como questão de princípio e
prática por homens que quiseram, como os irmãos Lumière, usar o cinematógrafo
como meio de reproduzir o real com rigor "científico", menos como
processo ideal de fabricar verosimilhança
do que como meio transparente, como instrumento subtil e eficaz de produzir verdade.
Consciente de que o cinema
é uma máquina de refazer a vida, Louis Feuillade revolta-se contra o
espectáculo de feira em que o tinham feito degenerar, procura superar o
artificialismo do Film d’ Art, opção
de elites, e decide insuflar no cinema um banho de real. Esta decisão justifica a
existência de um manifesto vigoroso, de sólidas convicções : "De même que
dans Le Film Esthétique nous sommes
arrivés à produire une impression de pure beauté que ne font oublier ni les
exhibitions à grand spectacle, ni les cavalcades de la Mi-Carême que d’aucuns
présentent à la clientèle comme le dernier mot du grand art, de même, nous
sommes arrivés dans les scènes de La Vie
Telle qu’elle est à donner une impression de vérité inconnue jusqu’à ce
jour".
Com Dziga Vertov essa
intenção consolida-se a partir de pressupostos de uma filosofia da história, da
prática que o cineasta deduz a partir dela : o Kinopravda, o cinema-verdade, o cinema do olhar. Decifração
documental do mundo visível, todas as suas produções são feitas "fora do
estúdio, sem actores, sem décors, sem representação".
Esta necessidade de
radicalizar o cinema, de o remeter à sua origem, à sua essência, à sua
primordial intenção - o registo animado do real - fundaria de facto uma
tradição de renovadas práticas experimentais, como se se tratasse de sucessivas
variações à volta do mesmo tema.
"Documentário",
"cinema-verdade", "cinema-do-olhar", "candid
camera", "living camera", "cinema directo" são
expressões que traduzem, de uma forma mais lata ou mais ou menos técnica, a
intenção que determinou o invento dos irmãos Lumière. O real que a câmara regista
ora é sinónimo de autenticidade, entendida como atitude moral e não como pura
situação naturalista - Flaherty que, no filme Louisiana Story, escolheu dois actores do povo para fazerem de pai
e filho numa história autêntica -, ora é de facto uma situação natural que a
câmara deve registar e respeitar como um olho neutro - Richard Leacock, que
entende que esse pôr a nu a realidade é imprescindível para fazer o público
pensar, visto que o outro cinema só contribui para cada vez mais construirmos
uma imagem da sociedade que é ficção - ora é sinónimo de matéria, parte
integrante do mundo físico, pelo que "o realizador do filme documentário
não pode mentir, não pode deixar de ser verdadeiro. A matéria não admite
traição (…)" - Joris Ivens que filmou, na construção de um dique, o mar da
perspectiva da terra, a terra da perspectiva do mar e os dois da perspectiva da
máquina que constrói o dique - ora é sinónimo da vida do homem no seu estado
cru - Pierre Perrault, que admite no entanto a possibilidade de a câmara poder
participar na acção filmada para a tornar mais clara - ora é expressão de uma
situação de algum modo mitificada que importa ser vista de uma perspectiva
realista - Jean Rouch, que entende que a câmara deve não só participar na acção
como pode tornar-se actor importante ou até mesmo insuspeito protagonista dessa
acção -, ora é resultado de outras bizarras ou notáveis convicções
cinematograficamente exercidas por esse mundo fora (e muitas delas ignoradas)
procurando todas assumir na prática a pretensão visionária dos irmãos Lumière,
identificando-se elas todas com o radicalismo (o puritanismo) do seu pai ao
recusar a venda do cinematógrafo para exibições de feira.
modo de eu olhar pela câmara
Mas quem não é sensível à
magia de um tal invento? Quem não se deixou ao menos uma vez tocar pelos
sortilégios desse espectáculo de feira, quem não foi surpreendido pelo registo
de coisas que nunca veria se não fosse por interposição desse medium espantoso entre os seus olhos e o
que viu, quem nunca sentiu uma vez só o insensato desejo de brincar com o
invento, como outrora Lumière ou Méliès?
Como muitos dos lunáticos
ou curiosos que se meteram nisso, eu próprio me tornei obstinado e comecei a
levar a sério esse desejo. Aprendi umas coisas sobre o assunto. Com um pouco de
técnica e intuição meti a câmara à cara, carreguei no botão. E não foi possível
voltar atrás. Inúmeras e insuspeitas situações começaram a apresentar-se a meus
olhos, situações que me teriam passado despercebidas se não tivesse resolvido olhar
o mundo através do olhar reflex da
câmara. Fiz opções radicais na vida e, com a prática, elaborei, entre outros
princípios, um método de registo que tenho procurado aperfeiçoar.
As coisas passam-se assim :
1) Por assim dizer já com a
câmara nos olhos - determinado um tema ou situação a filmar - procede-se a uma
investigação, tradicionalmente designada como "répérage", em que se
estabelece um primeiro confronto com a matéria bruta.
2) Compreendidas as situações
observadas, ou se estabelece um plano de registo mais ou menos cuidado (1), ou
se funda uma ideia geral directriz que condicionará toda a actividade de
filmagem, deixando uma ampla margem de previsões para o imprevisto.
3) Procede-se então à
filmagem, onde se cumprem estas condições :
aproveitamento das situações que correspondam ao plano ou
ideia geral que se estabeleceu,
articulação dessas situações a outras situações motivadas, encenadas com personagens reais que são actores conscientes representando a sua própria vida (2), situações dirigidas em função de
necessidades que a acção possa impor ao próprio acto de filmar,
manipulação dessas situações tidas como necessárias em
vários graus : é possível ficcioná-las inteiramente com os personagens reais nos seus
papéis reais, ao ponto, por exemplo, de
se estabelecer ou criar uma situação totalmente fictícia como é característica
do cinema de ficção pura - elaborar pequenos diálogos ou monólogos para serem
debitados em situações reais ou adaptadas na própria realidade, como coisas realmente
possíveis,
no acto de filmagem, por fim, a condição determinante
para reforçar o efeito de realidade e preservar a verdade do acontecimento ou da situação é que a câmara se afaste. Assim afastada do seu objecto (3), a câmara põe-se de lado, sem de facto
participar, tornando-se um simples observador, retirado e esquecido, do que
acontece ou vai acontecer. Limita-se a estar presente, é aceite por todos os
participantes da acção como se lá não estivesse.
4) A partir de então,
existindo já um material fílmico bastante elaborado, em função da linha
condutora que se determinou à partida, processa-se ao trabalho de montagem que
obedece a uma repartição do material e a uma planificação condicionada pela
intenção, pelo sentido, pela estrutura que finalmente se pretende dar ao filme.
o que se vê
Sendo o documentário por
natureza e definição a fixação em imagem cinematográfica de situações reais e não fictícias - registo de
situações ontologicamente verdadeiras - o resultado final do filme documentário
é de facto a existência de uma matéria parcelar de movimentos, de imagens e de
sons verdadeiros e não simplesmente verosímeis. A verosimilhança é o
estatuto por natureza do cinema de ficção : ter a capacidade de ser exactamente
como se fosse realidade, a capacidade
de, como ficção, ser por vezes mais transparente para o espectador que o
próprio real. Daí a circunstância de todo o cinema de ficção ser
inevitavelmente uma arte realista, mesmo quando tematicamente não o é nada. O
cinema de ficção é sempre mais realista que a mais realista literatura, mas
essa circunstância só é devida à ilusão que cria ao servir-se (através da
transparência da película, do rigor iconográfico das imagens que fabrica) de um
simulacro de realidade, recriada com décors, situações, pessoas e objectos.
Simulacro que, já se sabe, pode ser o mais aleatório e falso deste mundo.
Ao contrário do cinema de
ficção, o documentário é muito menos uma arte de representação que uma arte do
real, sem necessariamente ser realista, nos vários sentidos que, em teoria
estética, esse conceito possa ter.
Irmão consanguíneo da
fotografia pelo suporte que utiliza - a película -, o cinema conquistou o
privilégio de registar a imagem, o movimento, o som e a palavra. Reproduz a
vida : é como se fosse a vida no
exacto momento do seu acontecer. Na ficção, de facto, predomina este estatuto.
No documentário a questão é um tanto diferente. No documentário (e sobretudo no
documentário entendido como "puro") vê-se a vida no momento em que
acontece. Em suma : enquanto na ficção o real se produz através de um artifício que é a simulação, no documentário
ele produz-se através de uma representação tão despojada quanto possível, muito
mais pura, visto processar-se através de uma transparência irredutível como a
do espelho - a da película - e do modo fiel
como o olhar é dirigido, através da câmara. A irrealidade mais sensível que
esse expediente acarreta é consequência apenas e sobretudo de uma certa décalage, de um certo desajuste da acção
filmada em relação ao seu verdadeiro tempo, o momento em que a acção
verdadeiramente decorreu. Por muito verdadeira, por muito realista que seja a
ficção - no cinema ou na literatura - esse resultado, o realismo ou a verdade
que transmite, só funciona como convenção, como categoria do espírito, como
efeito da imaginação. Num livro recentemente publicado Roland Barthes cita
Janouch que dizia a Kafka : "As pessoas fotografam coisas para as afastar
do espírito. As minhas histórias são um modo de fechar os olhos". O
espectador de ficção, a certo nível, vê sempre um filme de olhos fechados. É obrigatoriamente cego para certas
coisas.
No filme documentário fica
sempre visível, poderosamente presente, algo da realidade viva que o espectador
vê, ouve e entende, tal como se estivesse
presente no lugar da câmara, coisa que na ficção ele sabe à partida ser
ilusão pura : na ficção entre a câmara e o mundo existe um parasita, a mise-en-scène. O espectador do filme
documentário, de um modo diferente do da ficção, acaba por estar sempre de
olhos abertos.
como se estivesse no lugar da câmara
É neste lugar estratégico,
nesta posição a que o espectador do filme documentário é obrigado a estar, que
é possível jogar-se com a sua ingenuidade (o que, no fundo, ele aceita), ao
ponto de se deixar manipular. A condição necessária é que ele aceite ser
ingénuo, que se deixe levar … até certo limite, fronteira do documentário. O
espectador de ficção também se deixa levar : mais facilmente, bastante mais
longe e por outras razões.
O truque consiste nisto :
pôr a câmara nos olhos do espectador sem que ele se aperceba que a tem. Este
trabalho começa por se fazer na rua, antes e enquanto se filma. No
documentário, o espectáculo filmado é o que tem lugar diante da câmara,
directamente, sem interposto artifício : a realidade "pura" que a
atrai. Quer a câmara participe ou se afaste, a realidade registada será sempre verdade. Daí a necessidade primária de
à partida se condicionar o espectador para esse efeito.
O documentário (que exige a
máxima fidelidade) permite manipular, criar, ficcionar, transformar, ou até
mesmo fingir acontecimentos que não poderiam existir sem a presença da câmara e
sem a pressuposta necessidade do olhar do espectador. O importante é que a
situação filmada seja ou se transforme numa situação real, de tal modo que, do
ponto de vista da câmara, se possa dar
verdade a essa realidade fabricada. Num verdadeiro lugar, com personagens
verdadeiros, em verdadeiras situações, focando-se verdadeiros problemas, o
efeito de verosimilhança que se cria com o cinema, com técnica ou imaginação,
associado à realidade que se forjou ou criou e que a câmara filma, pode e deve
converter-se num efeito de verdade. A verdade é uma certa forma de conhecimento
do mundo, necessária à sobrevivência do homem, que o filme documentário exige
como condição formal da sua própria
sobrevivência.
Quando no cinema o plateau é a realidade, a fronteira entre
o filme de ficção e o filme documentário é indefinida e ocupa uma zona onde são
possíveis experiências que poderão trazer resultados surpreendentes. Em países
condenados a não poderem investir na produção de filmes com custos amortizáveis
ou rentáveis em termos de mercado, em países onde a existência de uma indústria
de cinema não é possível com bases sólidas, a prática de um cinema destes,
sendo de custos de produção bastante abaixo da média, é uma solução que vale a
pena ser tentada. Aqui, por exemplo, neste país pobre e ignorado do mundo e de
nós próprios, há muitas verdades que merecem ser reveladas e que o cinema bem
pode servir.
a câmara entre a matéria e o espírito
No cinema de ficção, a
câmara tem muito menos uma função de aparelho fotográfico que de instrumento
intermédio entre o espírito e uma realidade já projectada, como as imagens na
caverna de Platão. Ela serve apenas para dar suporte a essa ficção, para
gravá-la na película. É um puro instrumento intermédio, em certa fase de
fabrico, entre uma realidade já ficcionada, encenada e de facto projectada no plateau, e o écran da
sala. Expediente admirável que abre o espírito para algo que, sendo do seu
domínio exclusivo, se manifesta fora dele : capaz de levar o espírito onde ele
deseja ir, para ver e ouvir. Como se o transportasse para fora do corpo através
dos olhos. Levando-o (visto ser inseparável do corpo) ao encontro dessa
realidade projectada : como se o transportasse para fora da caverna. Quando, na
verdade, a câmara apenas alcança imagens fabricadas, projectadas e reproduzidas
no plateau. Parasitando os olhos por
um truque de substituição : ao ocupar o lugar dos olhos, a câmara age como se
fosse a única janela existente entre a physis
- a falsa realidade que alcança, a do plateau
- e o próprio espírito.
Escusado será repetir que
este processo - fazer os olhos ver uma falsa realidade - é o necessário
artifício que, no cinema de ficção, o espírito inventou para se iludir. No
filme documentário, de um modo diferente, a câmara é directamente apontada para
a physis, para o real. Regista
directamente sobre a physis, sem
necessidade da ficção intermédia que se projecta no plateau. Como resultado final da intervenção desse olhar
"puro" do documentário, inevitavelmente, porém, a physis, o real, é também transportada
para o interior da caverna, passando a ser do domínio exclusivo do espírito. E
a existência que terá lá, dentro da caverna, a função que irá cumprir, a
fidelidade que mantiver à sua origem serão sempre questões decisivas do
exclusivo domínio do espírito, e que têm a ver com aquilo que é próprio da
ficção.
Quando, no entanto, a
câmara regista situações tocadas, manipuladas ou provocadas pela mão de alguém
na própria physis, no real que está a
acontecer, todas as questões em jogo passam a ser mais complexas e as
implicações mais graves, em termos de efeito de registo, em termos de verdade. No documentário, em que se
manipula o real antes de o filmar, a câmara põe em foco uma outra filosofia,
mete em causa problemas que nos remetem à origem das coisas, a realidades e
questões anteriores ao próprio cinema.
© Ricardo Costa, Junho de 1982
(1) Esta necessidade tem
sido assumida de várias formas na prática do filme documentário. Dziga Vertov,
para alguns filmes, chegou a elaborar, antes de filmar, um guia de rodagem que
era simultaneamente já um guia de montagem com subtítulos.
(2) De um modo diferente de
Dziga Vertov, e desenvolvendo uma tendência que pontualmente se praticava desde
Louis Lumière com todos os operadores de filmes de actualidade, Robert Flaherty
é o primeiro documentarista que conscientemente utiliza a técnica de encenar
certas situações. Como exemplo, para reconstruir cenas da vida de Nanouk, o
esquimó, no interior de um "igloo", Flaherty fá-lo construir um
"igloo" muito maior que o normal, desprovido de cúpula para poder
filmar.
(3) Provocar situações cujo
desenvolvimento a câmara irá explorar para delas retirar revelações foi técnica
que Jean Rouch promoveu. Ele, no entanto, procede de modo a que a câmara
intervenha no acontecimento fazendo com que os personagens se confrontem numa
espécie de psicodrama, a fim de fazer surgir certas verdades ocultas. No método
que preconizamos - e que é possível desenvolver a um extremo difícil de prever
-, trata-se antes de criar uma situação
normal ou possível no contexto real em que os personagens existem e se
movem, dia a dia. Essa situação que foi possível criar por exigência da câmara
acaba por, em certo momento, se inscrever naturalmente no próprio real : ela
seria possível mesmo que a câmara lá não estivesse.