le renard pâle (caverna de Songo - Mali) photo
de Jean Rouch
pintura rupestre
a outra face do espelho
Jean Rouch e o
"outro"
" ... it is not exactly exhibitionism
: it's a very strange kind of confession in front of the camera, where the
camera is, let’s say, a mirror, and also a window open to the outside".
Jean Rouch,
entrevistado por Ian Cameron e Mark Shivas in Movie, nº8, Abril 1963
na face de cá
Jean Rouch, o surrealista
catalão, o anarquista romântico, o irrequieto zazou, um dia meteu o
cinema na mala da etnologia, que do cinema exigia retratos não manipulados.
Sujeitando-se por um dos imperativos da ciência a usar a câmara como um olhar
puro, transgrediu pelo fascínio de ver para lá do visível (a ciência é avessa
ao imaginário), de espreitar o invisível pelas frestas da imagem, pelas subtis
transparências que o filme cria. Com ele sacrificado à etnologia, por caprichos
da fortuna, o cinema tomou posse dela, tal como o espelho toma posse do observador : desassombrado, abriu-lhe a janela ao
imaginário.
Nascido em Paris em 1917, Jean
Rouch formou-se em engenharia civil no início dos anos quarenta, na Ecole
des Ponts et Chaussés. Abandonou em 1941 a França ocupada e foi trabalhar
para África, na Nigéria. Por ser simpatizante da resistência, foi recambiado no
ano seguinte para Dakar.
É aí, no Senegal, que um dia vê
alguns dos negros que trabalham com ele na construção de uma ponte iniciarem um
ritual ao rebentar uma trovoada. Fascinado, inicia-se nos mistérios africanos.
Regressa a Paris após a libertação e põe-se a estudar antropologia no Musée
de l'homme. Tem como mestres Marcel Mauss, pai da moderna antropologia
francesa, e Marcel Griaule, especialista dos Dogons do Mali, povo depositário
de uma riquíssima cultura e detentor de extraordinários conhecimentos de
astronomia. Traça-se para ele um novo destino.
Em 1946 -
tem ele vinte e nove anos - compra na feira-da-ladra, em Paris, uma velha
máquina de filmar Bell and Howell de 16 mm e parte para África com dois amigos,
Jean Sauvy e Pierre Ponty, para fazer uma expedição em canoa : descer o Niger
desde a nascente até ao mar, viagem financiada pelo envio de artigos para a
France Presse. Dessa viagem surge um primeiro filme : Au
pays des mages noirs (1946/47). Tentativa algo frustrada porque o director
das Actualidades Francesas decide exibir o filme com um comentário género
"Tour de France", com música adequada e com umas feras extra na
paisagem. Mas serve-lhe bem a lição : na canoa, a
certa altura, o tripé salta borda fora e ele não tem outro remédio senão filmar
à mão, descobrindo uma agilidade que a câmara fixa não tinha. Mantém-se fiel à
descoberta para a vida inteira.
O retrato destes jovens zazous
do pós-guerra, vestidos à maneira, amantes pouco
fiéis, peritos em acrobacias de dança e fanáticos do jazz nas caves de Saint
Germain, é feito por Jacques Becker no filme Le rendez-vous de Juillet
(1949). Há quem diga que Rouch e seus amigos o inspiraram. Incitado por
Griaule, que tinha feito duas curtas-metragens etnográficas no país Dogon uns
anos antes, Jean Rouch decide de uma vez por todas seguir as pisadas do Mestre.
Rejeita a autoria desse primeiro filme devido às intromissões grosseiras, mas
aceita a «lição de montagem», que lhe será no futuro indispensável na prática
do cinema. As câmaras portáteis de 16mm que se utilizavam na época tinham
motores de corda, o que lhes permitia apenas filmar planos curtos. A principal
lição que ele retira do uso dessas câmaras é a necessidade de prever a duração
do plano antes de voltar a dar corda, de saber de antemão como o plano filmado
se vai articular com o seguinte :
"planificando" no momento da filmagem, prevendo a montagem avant la
lettre. Ou seja : prevendo o resultado final do
material filmado sem fazer, como recomendava o Mestre, "obra de
arte", cingindo-se às exigências de rigor do filme etnográfico, que mais
não deve ser que simples «notes d'enquête», suplemento visual do livro de
anotações do antropólogo.
Faz mais duas curtas-metragens,
uma sobre os ritos dos mágicos Songhay, na Nigéria : Les
Magiciens de Wanzerbe (1948) e outra, Circoncision (1949), sobre um
rito de circuncisão das crianças de Hombori, uma aldeia do Mali. Na mesma
linha, em Initiation à la danse des possédés (1949), lança-se, em duas
palavras, pelo mistério dentro : uma mulher Songhai do
arquipélago de Tillaberi é iniciada. O filme ganha o primeiro prémio no
Festival do Filme Maldito em Biarritz, organizado por Henry Langlois e Jean
Cocteau. Esforçado, o jovem Rouch defende na Sorbonne uma tese sobre os ritos
de possessão. Entra no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) e
filma Les Maîtres fous (1954/55), cujas liberdades Marcel Griaule lhe
censura. Esclarecem-se mistérios. E mais ele ousa.
Uma das razões por que o filme
foi censurado pelo Mestre, que até falou em destrui-lo, é por transgredir as
regras, por ser um retrato de rituais "degenerados". O que é verdade.
Mas os olhos argutos do cientista, na altura, não discerniam o lado invisível
dessa verdade. Bem vistas as coisas, de uma verdade simples, que se tornou óbvia : o ritual, simbólico, é o do homem africano possuído
pelo colonizador, fenómeno de que o próprio filme é um símbolo. Filme lapidar
que, sem indisciplina, não teria sido o mesmo. Tal como a raposa no mito da
criação do mundo (1). Se não ousasse, ela não tinha passado de rafeiro. Por
outras palavras : não teria adquirido o dom de adivinhar
as coisas.
Neste filme Jean Rouch, câmara
na mão, entra no ritual, a câmara torna-se participante. É possuída
pelos personagens que filma, em ciné transe, ao mesmo tempo que os
personagens filmados, em transe, são possuídos pelas personagens que
representam. O que a faz mover é um impulso, um desejo, o delírio do
imprevisível. Trata-se de um fenómeno como o do amor em que os apaixonados
não param de fazer descobertas. Por isso ele filma sem guião. Sabe que a
função do guião é de conter o que não está previsto, de o manipular em
suma, controlando-o. O que ele procura não é isso : é
a verdade que surge, a que não é introduzida.
As virtualidades de uma câmara
assim manipulada, ágil como os olhos da raposa, não lhe bastam todavia para
alcançar o que deseja : descortinar o invisível. A
esse modo de captar a coisa junta a técnica que Fhaherty usara quando filmou Nanouk,
que ele acha indispensável : mostrar as imagens do
filme às pessoas filmadas, procurando discernir o que elas próprias - delas e do "outro" - vêm nessas imagens.
Tentando em suma entender, com a ajuda do seu olhar, o que está a mais no filme
ou simplesmente algo que lá se encontra e que não se viu ainda. Como o humor
não lhe falta, Rouch ilustra o princípio com uma piada. No filme La chasse à
l'hippopotame (1950) resolveu introduzir uma banda sonora para reforçar o
drama e a tensão da caça. Criticaram-no os caçadores :
não pode haver barulho quando se vai à caça. Nem mesmo no cinema
: sempre que seguimos o caçador.
No "Quarto Congresso
Internacional de Ciências Etnológicas e Antropológicas", que por essa
altura (1952) tinha lugar em Viena, Jean Rouch fundava, com André
Leroi-Gourhan, o Comité international du film ethnologique et sociologique,
que teria sede em Paris, no Musée de l'homme, com o fim de estabelecer
elos entre as "ciências humanas" e a "arte do cinema", para
o desenvolvimento de ambas. Desde então, e para o resto da vida, seria o comité
a sua fortaleza. Curiosa coincidência : dum lado do
bastião, no Trocadero, Rouch com os seus filmes, no Museu do Homem, do outro
lado Langlois, com os ousados filmes dele, na Cinemateca. Espaços
estratégicos tomados de assalto, com a torre Eiffel como testemunha.
Sonhos fúteis de uma época?
Seja como for, é a partir daí
que um e outro se lançam nas maiores conquistas. Langlois esgrimindo como
d'Artagnan pela sua dama, a "arte do cinema", Rouch, como Athos, pela
que lhe pertence, a «qualidade misteriosa» do filme etnográfico. Moi un Noir
(1958) é a sua nova conquista, uma primeira longa-metragem, filme "etnográfico" ... com ficção e estrelas.
Filma a ficção como filma o documentário : sem saber lá muito bem o que vai acontecer, o
que é que vai dar a coisa. Filma sempre da mesma maneira, mesmo filmando coisas
diferentes, porque perante o imprevisto a câmara só pode ter uma postura : tem de estar atenta, activa dentro do seu espaço
de acção. Filma assim sempre, mesmo sabendo que, quando a surpresa se escapa,
quando não surge perante a câmara, o filme falha. Tal é a sua aposta. Prefere
pôr um filme em risco do que arriscar a manipular a verdade que ele procura.
De Moi un noir disse
Godard, afirmação que toda a gente cita : «uma pedrada
no charco do cinema francês como na sua época Roma, cidade aberta no do
cinema mundial» ("un pavé dans la mare du cinéma français comme en son
temps Rome, ville ouverte dans celle du cinéma mondial"). E disse
mais ainda : muito do seu próprio cinema a este filme
se deve.
A fita desenrola-se em
Treichville, bairro de lata de Abdijan, na Costa do Marfim, com cinco actores
não profissionais : um desempenhando o papel de Edward
Robinson, outro de Eddie Constantine, outro o de Tarzan e uma actriz
representando Dorothy Lamour, todos estrelas do cinema americano. O filme é
rodado sem som e sonorizado na pós-produção com uma voz over, os comentários
espontâneos de Oumarou Ganda, que desempenhava o papel de Edward Robinson.
Oumarou tinha feito a guerra da Indo-China e sempre sentira não ter nascido
para o trabalho. O seu maior sonho era tornar-se ... actor de cinema. Realizado o sonho, só não entende por que
carga de água ganhava no mesmo ofício Eddie Constantine 800 milhões de francos
enquanto ele ... ficava a ver
estrelas. Esta obsessão de Rouch em fazer de gente anónima estrelas de cinema
não deixa de ter outras e mais graves consequências.
Edgar Morin, o sociólogo que
escrevera um livro já célebre, Le cinéma ou l'homme imaginaire (2), que
ele subintitula de «ensaio de antropologia», autor de um outro texto sobre as
estrelas de cinema, Les Stars (3), antigo membro da resistência, expulso
do partido comunista por ser anti-estalinista, editor da revista Arguments,
admirador do trabalho de Rouch, propõe-lhe fazer um filme com a intervenção de
alguns dos seus amigos : um fresco social sobre Paris
de 1960. Rouch responde : «Je ne suis pas un fresqueur». Mas
aceita. Morin tem
um argumento de peso : diz que, ao extinguir-se, o
século XIX legou ao homem duas máquinas novas, que acabariam por vencer a
«barreira do som». Uma delas, o avião, deu-lhe asas, o outro prodígio, a
máquina de filmar, deu-lhe a visão de uma realidade terra-a-terra, captando a
vida para a reproduzir, para a «imprimir» na película, como dizia Lherbier. Mas
cedo o avião caía na banal sensatez do universo das máquinas, enquanto a
máquina de filmar levantava voo, como Saint-Exupéry, ascendendo cada vez mais
alto, num céu de sonho, no espaço infinito das estrelas, libertando-se da
terra, onde estaria condenada a ser serva e ... puro espelho.
Questão mecânica
: para conseguir o efeito havia que aperfeiçoar a máquina. Começou Rouch
o filme, Chronique d'un été (1960), com uma Arriflex, já bastante leve
(pesava uns dez quilos), mas, a seu ver, demasiado pesada para
... ultrapassar a estratosfera. Não era bem o
género de máquina que lhe convinha. Para obter o que pretendia, Jean Rouch
atacava em duas frentes : a construção de um aparelho
mais leve e a adaptação de um motor auxiliar que lhe permitisse ultrapassar «a
barreira do som». Tinha o olho posto em dois protótipos :
a KMT Coutant-Mathot Eclair, máquina que estava a ser desenvolvida por André
Coutant, destinada a ser usada em satélites de observação militar, mas que
apenas suportava bobines de filme de 16 mm com a duração de três minutos, e um
gravador de som revolucionário e robusto, a Nagra, criado por Kudelsky, na
Suiça, que podia ser transportado ao ombro de um operador, como uma malinha
vulgar, e que registava o som numa bobine de fita magnética de longa duração e
de reduzido diâmetro. Consegue Rouch que Coutant lhe forneça uma dessas câmaras
com um magazin que suporta um rolo de filme até 120 metros (cerca de 10 minutos
de tomada de vista sem interrupção) e que Kudelsky adapte eficazmente o seu
gravador à máquina.
Questão filosófica
: o processo é utilizado com sucesso. E universaliza-se. Morin reconhece
que Rouch, ultrapassando as fronteiras pisadas por Flaherty e por Vertov, os
pioneiros, os ultrapassa nos seus propósitos de «penetrar para lá das
aparências, das defesas, entrar no universo desconhecido do quotidiano». O
filme «não é um documentário», é uma pesquisa. É uma «experiência de
interrogação cinematográfica» : «um filme etnológico
no sentido forte do termo : uma busca do homem» (4).
Faz-nos o écran uma pergunta através de personagens reais, uma questão simples
que é posta a pessoas entrevistadas na rua, gente anónima. «Comment vis-tu?» reflecte-se
forçosamente na mente do espectador, the audience : «que fazes tu afinal na porca da
vida?». É esse o objectivo a atingir com vinte e cinco horas de rushes. Surgem
exigências dos produtores e divergem os dois autores na montagem. Rouch argumenta : «A minha posição é a seguinte :
o interesse de toda esta história é o filme, é a cronologia da evolução das
pessoas em função do filme. O tema, em si, não tem grande interesse» (5).
As respostas precisas a essas
questões só o tempo as traz. Quais os efeitos da experiência? No que toca a
«cronologia da evolução das pessoas em função do filme», o desenvolvimento dos
personagens, o seu trajecto, surgem cedo algumas evidências.
O filme relança cada um dos seus
actores, "gente comum", numa nova carreira, só por ter feito deles,
durante uns tempos, estrelas de cinema. Angelo, o proletário, despedido da
Renault, mortinho por se libertar das «manivelas», cristalizando a sua revolta,
perde vários empregos até que os amigos, os culpados da aventura, lhe arranjam
uns tostões para montar uma oficina. E por aí fica. A Marceline perde-se pelo
aventureiro Joris Ivens e vai com ele mundo fora a fazer filmes. A Mary-Lou vira
fotógrafa de cena e vai trabalhar com Godard e Bertolucci. O Jean Pierre vai
filmar para a Argélia e para a América Latina. O Regis Debray vai para Cuba,
onde filma Guevara, e depois para a Colômbia, onde vai ser preso.
Outra das evidências
: é indispensável, diz Rouch, que a nova técnica seja rapidamente
aplicada antes que «certas manifestações das culturas ameaçadas desapareçam
complemente». E mais outra, facto de suprema importância :
o espelho que fala reencontra-se com essas culuturas na tradição oral. E
ele interroga-se : «Onde é que isto vai dar? Devo
dizer que nem por sombras o sei. Mas acho que a partir de agora, ao lado do
cinema industrial e comercial, e intimamente ligado a este, existe um
"certo cinema" que é sobretudo de arte e pesquisa» (6). E proclama : «... contribuímos
indirectamente para o nascimento do que em França se chama Nouvelle Vague» (7).
A experiência oral, a do som directo e do plano-sequência será amplamente
explorada por Godard.
Morin aborda a questão noutro
sentido. Nos diálogos do filme, diz ele, pôde cada um dos personagens ser mais
verdadeiro que no quotidiano e mais falso ao mesmo tempo, o que significa que a
verdade não estala como o pé da flor : «A verdade não
pode escapar às contradições, pois há verdades da consciência e da
inconsciência, verdades que se contradizem» (8). A verdade, diz ele, é uma
longa paciência.
Eaton comenta argumentando que
antes de mais nada eles fizeram um filme sobre pessoas a falar, mais do
que a representar a sua vida em frente de uma câmara. Isto resume o essencial,
que se tornou herança : foi a televisão, mais que o
cinema, a beneficiar da experiência. Rouch, por seu lado, pôs-se a explorar o
brinquedo bem à sua maneira. Planos de dez minutos com a "orelha" de
Vertov ligada à câmara? «Onde é que isto vai dar?»
Sequências puras
: a câmara vai ao sabor do olhar, num devaneio pelo real, detendo-se no
mais evidente, deixando-se prender. De uma ponta à outra desse movimento
perpassam imagens cheias de indícios que nos escapam, mas que a câmara regista
na película, a sua memória. Para ser fiel ao propósito de registar a verdade da
forma mais pura, em plano sequência, a câmara segue os acontecimentos sem
interrupção e sem mudança de ponto de vista. Interromper o plano e mudar de
ponto de vista significa um corte : um hiato na
continuidade, a omissão de um lapso de tempo da acção, uma pausa do olhar, ou
então uma mudança de perspectiva que não respeita a situação no espaço do corpo
do observador, que altera o ritmo do real e vai introduzir no filme mais um
artifício (já não basta o da câmara!) : a montagem.
O plano sequência filma ao
correr do acontecimento. Embora não possa escapar aos efeitos de montagem é o
mais completo, contém os outros, é o único que corresponde a um observador que
se move no espaço e que, sem pestanejar, segue qualquer coisa
: um personagem ou uma ideia. Ao lado dos outros, olhar errante, é o
mais voraz ... o mais impuro.
O que não é sem riscos : em plano sequência, ao filmar
um ritual de possessão, até a câmara fica possuída. Prende-se ao cavalo e ao
cavaleiro, segue-lhes os saltos, os gestos simbólicos, regista os personagens,
entra com eles em transe, esquecida.
É o tipo de plano que melhor nos
garante não deixar escapar pitada. Por bem servir, adopta-o Jean Rouch como
ética. Princípio que o aperfeiçoamento técnico das máquinas sonoras com som
síncrono consagrou e impôs, mas princípio estético também porque, mesmo na
ficção, o plano sequência é o mais fiel amigo : faz
ver sem cortes, narra sem montagem. La Gare du nord (1964), é a pura
demonstração desse princípio : num plano-sequência de
cerca de 16 minutos - desculpado o truque do elevador
- seguimos o agitado despertar de uma jovem desde que se levanta até ao
dramático suicídio de um galã de automóvel que se cruza com ela na rua, 16
minutos depois.
a coisa que "mexe"
O lado não visível de uma
realidade, de uma maneira ou de outra, está sempre presente, disfarçado no seu
spectrum. É algo que, escapando à observação, só pela imaginação pode ser
discernido, algo que é do seu domínio puro - mesmo na
ciência - domínio que já Vertov, médico de formação e "engenheiro"
visionário, escrutinava com a óptica e a apurada mecânica da sua
"máquina".
A voracidade do nosso olhar
perante o desfilar do mundo exige de nós registos fiéis para bem captar as
coisas. Jean Rouch, engenheiro de pontes e de estradas que nos conduzem a um
outro tempo, vira a objectiva para África, o berço do homem. Atraem-lhe o olhar
práticas ancestrais em extinção, num estado ainda puro. Ao contrário de Vertov,
que aponta a câmara para o futuro, Jean Rouch aponta a sua para o passado,
visando o mesmo personagem. Figura que Vertov mostra com nuances futuristas,
Jean Rouch regista em retrato, no que ele tem de mais antigo. O «cine-olho» de
Vertov prefere retratar a construção do mundo num momento crucial da história,
a «câmara participante» de Flaherty e o «cinema directo» de Rouch retratam a
desconstrução de mundos em crise ou em vias se perderem. Rouch, ele só, associa
esse modo perscrutador da câmara ao rigor e objectividade que a etnologia, que
é ciência, dela exige.
Deu-nos Ado Kirou uma máxima
surrelista que funciona : «... si
au cinéma la chance vous offre des surprises, ne les refusez jamais ... ». É um
dos corolários do bom espectador. Jean Rouch, fanático espectador de cinema,
excede-se, pondo-se teimosamente a ver o mundo com o olhar da objectiva.
Cinéfilo vanguardista, radicaliza a posição da câmara. Filma sabendo isto : a imagem que acabamos de ver já o instante seguinte
apagou, sem a película tudo o que vemos nos escaparia. Com ela não só tornamos
visível a realidade que se extingue como aquela que se esconde. Registando-a,
podemos revê-la no écran e descobrir nela coisas que sem ele não veríamos. E
extrai daí os princípios da sua ética : «la
ciné-transe, choréographie du tournage en mouvement, ou l'art de filmer comme
un possédé» (9), ou seja, não parar de carregar no botão. Eternizar o efémero,
perante certas coisas que vemos e não mais veremos, torna-se questão vital.
África : dar a ver momentos de uma idade
anterior do Homem numa das suas antigas encruzilhadas (num momento dramático da
história em que se extingue o seu passado vivo, os últimos vestígios dessas
antigas idades) é um dos motores da câmara. O outro é discernir, nos indícios
do retrato, o que na nossa idade temos de parecido. Isto é, esperar surpresas.
Homem ávido de mistério, com o seu fraco surrealista, Jean Rouch a surpresas
não lhas perdoa, mas ... respeitando
sempre os imperativos da ciência.
Chama-se «antropologia visual» o
que o tenta. O que por certas razões, levadas ao extremo, tanto pode ser
documentário etnográfico, ficção etnográfica ou pura.
e o reflexo
Mostrando como uma tradição
africana, inscrita no mito, se apropria de símbolos do outro -
o colonialista europeu - interpretando-os e encenando-os, um filme como Les
maîtres fous revela ainda como todo esse violento e bizarro ritual se
converte em terapia. É o outro lado da questão que o filme suscita, um
apontar do dedo, um vislumbre de evidência, uma porta que se abre para uma nova
interpretação. Para um novo olhar, gerado quase por empurrão. Algo semelhante
ao que se passa quando uma foto nos interpela : ela
anima-me e eu animo-a. Fala disso Roland Barthes na Chambre claire : «É assim
que se deve designar a atracção que a faz existir : uma
animação. Nada há de animado na fotografia, (nem eu acredito em fotografias
"vivas") mas ela anima-me : é assim que
começa a aventura» (10). Em suma, é a mesma exigência do olhar que anima a
fotografia aquela que anima o cinema, mas num registo diferente, num
comprimento de onda diferente daquele em que ele é já fotografia animada. O que
num caso e noutro se "mexe", mexe-se fora da
imagem.
No cinema ou na fotografia a
imagem está contida num quadro, que a reflecte, como um espelho. A esse quadro
corresponde uma extensão dentro de um campo que detecto pelo saber ou pela cultura : ao ver-me ao espelho sei à partida que, por
defeito, a imagem que recebo é invertida. É através de um filtro assim que a
imagem fotografada me responde às questões que eu lhe ponho ou que ela
me suscita. Na medida do meu interesse por ela : o meu
studium, a aplicação ou o gosto com que fixo o que os olhos envolvem, o
que a imagem representa. O que ela representa - na
fotografia ou no cinema - como resultado de uma operação, acto do Fotógrafo, o operator.
Ora acontece ser o studium,
essa minha aplicada observação, a de spectator, por vezes perturbada por
um pormenor que me fere o olhar, um puctum, algo de intrometido que me
interpela. Algo que, algures no quadro, escapou ao próprio
"operador", uma co-presença estranha. Algo que o subtil «olho que
pensa» o obrigou a acrescentar à fotografia, como diz Barthes
: os dentes estragados de um dos rapazinhos de um bairro de Nova Iorque
numa foto de William Klein ou o detalhe, «não de forma mas de intensidade», que
domina o retrato de Lewis Payne, jovem condenado à pena capital por ter tentado
assassinar em 1865 o secretário de estado americano W. H. Sewart. O punctum
aqui é o tal detalhe imaterial que indica apenas isto :
ele vai morrer.
na face de lá
Retratar, em suma, dá-nos não só
detalhes assim como também nos põe em confronto com os mitos de quem retrata,
fazendo-nos «...ler na Fotografia os mitos do Fotógrafo...», ao que o levam as
suas tendências. O mesmo quando nos vemos do outro lado do espelho e detectamos
as nossas mentiras. Questão delicada para o etnólogo quando é ele próprio quem
retrata e, ainda por cima, com uma máquina de filmar, o mais complexo dos
espelhos. Mais delicada ainda quando o Fotógrafo tem por objecto os mitos do
outro, que respeita. Como ser rigoroso? Como lidar com eles sem os baralhar com
os seus? Mas ... por que não
fazê-lo, se pode acontecer até que tenham algo em comum? Para dar resposta a
esta questão, Jean Rouch, radical, serve-se de um passe-partout, um
princípio universal que aplica à ciência : «Il faut
croire à la croyance de l'autre». Pelo mesmo princípio acredita no plano
sequência, por ser o mais natural. Por esse mesmo princípio acredita mais no
filme, suporte por excelência, por ser o mais fiel. Princípio que tanto exige a
fidelidade da câmara aos olhos do homem como a fiabilidade do suporte que
regista as imagens à realidade que lhes deu origem, fidelidade, por fim, à sala
de cinema, a câmara escura cujo visor se torna écran. Portanto, no que toca a fidelidade ... é ir o mais longe
possível. É aí que o Outro melhor se encontra.
Para quem acha que tem de crer
no que o outro crê, não é de espantar, no que toca a mitos, que Rouch parta
para o trabalho a acreditar nos do outro. E a pretender que, de algum modo, o
outro acredite nos seus. Instrumento de descoberta, como para Vertov, que
também não dispensa nem a imaginação nem a poesia, a câmara é ainda para Rouch
o utensílio que interpela o real com o rigor da ciência, e que logo o
interpreta, como faz o mito. Apesar de contaminada pelos espectros que se
escapam sempre pelo olho do Fotógrafo (os que mais o assustam surgem das
tentações «estéticas» na composição da imagem, que ele pretende tão crua como o
seu objecto), apesar disso, a câmara pode reproduzir situações com uma precisão
superior à de qualquer outro instrumento. Com um senão :
não pode passar despercebida, só participando filma.
A imagem devolvida pelo espelho
traz-nos assim, no cinema, não só o aspecto geral das coisas como certos detalhes
que nos escapam a olho nú, mas em número e com uma qualidade diferente da
fotografia sem movimento. Ela só, sublinha Barthes, já de si
liberta «détails qui font le matériau même du savoir ethnologique».
Se para o Fotógrafo dedicado à
etnologia já de si a observação, no écran, do teatro do real, o seu studium,
pode afinar a vista, inúmeros pormenores que o olho da câmara desvela podem
trazer ainda maiores surpresas. Sobretudo quando, no écran gerado por essa
câmara escura, por exigência do etnólogo, se fundem ou se confrontam os olhares
de quem vê e de quem é visto.
Expurgada ao máximo de mediações
estéticas como o gosto do Fotógrafo, das tentações do belo, de intromissões
ficcionais apriorísticas, de qualquer filtro deformador, a escrita
cinematográfica de Jean Rouch é, paradoxalmente, uma irrequieta procura no pólo
oposto. La belle image, diz ele, é o maior dos perigos. Foi ela que
perdeu Narciso. O que não significa que quem o diz não ouse correr riscos
desses (vêmo-lo por vezes colocar a câmara no mais belo enquadramento) e, mais
ainda, que não arrisque exultar-se quando vê outros a correr esses riscos. De
quem ele gosta, no cinema, é de uma beleza sem convenção, sem maquilhagem, que
ele sabe não existir, mas que procura. Sabendo bem que ao encontrá-la, ao
reproduzi-la, ela não escapará nem à convenção nem à beleza em que acabará por
ficar contida : nem à convenção em que o cinema a
meteu, nem ao amor que o Fotógrafo, cativo do olho da
câmara (que também se apaixona), acrescentou à coisa amada. Fixar nela os
olhos, virar para ela a câmara, é uma opção irredutível que significa a mais
importante das coisas : elegê-la. Um acto supremo de
amor. Tentação de morte para um etnólogo.
Diz Mick Eaton a propósito desta
contradição, para Rouch "impossível" de resolver, que ele consegue
dar a volta à coisa, "inscrevendo o pessoal e o subjectivo no corpo do
texto filmíco". Assumindo-se como o último garante do filme - da obra - de toda a sua verdade : o Autor. Alguém
que tem razões de sobra para saber o quê e quando deve filmar, «garante do
conhecimento, de um conhecimento quase místico, da necessidade deste particular
evento, mais que a de outro, ser filmado» (11).
É um impulso ético que anima o
Fotógrafo e o motor da câmara : é ele quem decide da
pertinência da imagem. Responsável não só pela decisão de filmar, responsável,
como «primeiro observador», em fazer a mise-en scène de forma certeira - pré-montando ao filmar -, mas responsável também pela
manipulação das imagens na montagem. Não sem antes, na maior parte dos casos,
ter trocado pontos de vista com os personagens que filmou, durante uma
projecção, num efeito de feed-back, antes de o fazer com o montador, o
«segundo observador», estranho ao acontecimento, um técnico que só intervém no
filme para fazer passar a imagem.
Põe-se aqui forçosamente a
questão de saber para quem filma Jean Rouch. Em primeiro lugar, disse uma vez,
é para ele mesmo que filma. Em segundo lugar filma para quem foi filmado. Mas
não deixa de dizer também que, no fim de contas, filma para toda a gente.
Prova-o com as projecções que resolve fazer todos os sábados de manhã na sala
do Musée de l'homme ou, ali ao lado, na da cinemateca de Langlois : entrada de borla ... para toda a gente.
É claro que ao filmar para ele
também filma para nós, ao vermos como os olhos dele. Ao filmar para "o
outro", que está do outro lado do espelho, filma-o para melhor o ver. E
também para melhor lhe dar a ver como pode ser visto. Ao filmar para "toda
a gente" fá-lo para mostrar que «podem ser feitos filmes tão excitantes
como os do Tarzan», filmando-se a coisa que lá está e não aquela que lá se
pretende ver. Em suma, filma exorcizando os parasitas do espelho, polindo-o à
sua maneira, para melhor poder mostrar a outra face, sabendo que quem aí se vê
daí retirará uma verdade. É neste sentido que reclama um direito próprio de
todo o cinema como o seu, o direito de ser visto. Em África ou aqui onde
estamos existem locais com verdades que não podemos perder de vista. Vistas no
cinema, terminada a sessão, verdades dessas saltam para fora da sala, como uma
onda, suscitando novas imagens, provocando a palavra, abrindo horizontes,
conduzindo-nos a outras verdades, às vezes a importantes descobertas
: no "outro", que é à nossa imagem, temos sempre de ver o
igual e o diferente. É para isso que ele filma - coisa
dita por Mick Eaton e repetida por Deleuze (12) : «para que uma nova verdade
possa ser revelada, que não a verdade do evento pró-fílmico, mas a verdade do
próprio cinema», uma verdade que só dele pode vir, «a criação de uma nova
realidade», a verdade do espelho. Não uma criação "artística". Não
uma criação que cativa mas uma criação que prende :
uma criação em que o espectador (the audience) não é dominado mas entertained,
num entertainment (valha-nos o realismo crítico!) de uma espécie não
alienante, uma forma de entertainment que gira à volta de uma verdade
que se descobre, que nos espanta, que se discute, não de uma mentira. E que por
vezes é - mesmo se a ignoramos - uma verdade a ter em
conta.
as mentiras do espelho
Ao tirar o cinema da mala da
etnologia, Jean Rouch não resistiu aos seus sortilégios, pondo-se a ver de
ambos os lados do espelho. Não resistiu aos seus sortilégios. Resistiu, sim, à
tentação do "artista", do autor do filme de arte, do visionário cujas
visões dominam o reflexo, só se vendo a si, como se no espelho só houvesse um
rosto.
É ousado nessa busca do
imprevisto, que nele se torna um culto. É cauteloso ao evitar a intromissão de
parasitas, de elementos estranhos à realidade que pretende fazer surgir.
Isso mesmo : fazer surgir, mais que revelar.
Não se sente na pele de demiurgo, a sua não é a palavra divina. Foge do guião
como o diabo da cruz. Foge da mentira como o cientista. Revela a palavra sim,
mas como a raposa, ficcionando ao sabor do acontecimento, no seio da verdade
onde se movem os actores que com ela criam a história :
provocando a aparição, tal como fazem os adivinhos.
"les tables du renard"
(As tábuas da raposa)
Germaine
Dieterlen e o adivinho
photo : Musée de l'homme – Paris
"Ficções
etnográficas", chama-lhes ele, ficções "que se tornam
realidade", drama ou comédia : Moi un Noir,
Jaguar, La Pyramide humaine (1959), Cocorico, Monsieur Poulet
(1975). Mas não disse ele também ser Jaguar uma «ficção pura»? Feitas as
contas, não se percebe lá muito bem que ficções ele
acha puras ou etnográficas porque baralha os géneros e porque, para ele, tudo o
que tem a ver com o Homem é, de uma maneira ou de outra, etnografia ou
antropologia. Dionysos (1984), Enigma (1986), Folie
ordinaire d'une fille de Cham (1987), Liberté, égalité, fraternité et puis
après (1990/98), Moi fatigué debout, moi couché (1997), que filmes
são estes? Provocações?
Neles, que verdades surgem? E que mentiras? Sem dúvida, todas
elas obras menos de um artista que de um engenheiro que se põe a abrir
novos caminhos.
Dionysos, por exemplo, é por um lado o
documentário etnográfico de uma orgia (sem guião) com certos amigos das
ciências do homem, filmado por Jean Rouch com o propósito iconoclasta de se rir
dos seus próprios símbolos e, por outro lado é ficção, filmada como
documentário, ilustrando a louca confusão de uma bizarra oficina. Gare du
nord (1964) - uma das curtas metragens de Paris
vvu par Jean Rouch, Jean-Daniel Pollet, Jean Douchet, Eric Rohmer, Claude
Chabrol e por Jean-Luc Godard -, que é ficção pura é, perversamente, um filme
etnográfico, um documentário transvertido : o desencontro de um jovem casal
parisiense cheio de rotinas num mundo em reconstrução, a cidade de Paris no
pós-guerra, e o inesperado encontro que a companheira de casal tem, ao sair de
casa, com o tal desconhecido que surge de automóvel em busca de aventura.
Documentário (só não é documentário porque na verdade a história não
aconteceu) onde tudo se passa como num sonho, onde a verdade acontece.
Não é o sonho que comanda a
vida? Mesmo a do antropólogo? O sonho : uma das faces
do cristal de Breton, de que não prescindem as ciências do homem, muito menos a
antropologia. Matéria transparente e volátil, que tem algures um peso e ... uma medida. Não se pode de
resto olhar através do visor de uma câmara sem sonhar, pela simples razão de
que ela foi feita para isso. Mete-se lá o olho e logo o filme começa. Mesmo que
o olho seja de etnólogo. Apercebeu-se disso Jean Rouch, é claro, e tomou logo o
partido do cinema. Com boas razões : mesmo contaminada
pelos fantasmas que se nos escapam pela janela, a câmara é dos olhares mais
puros que exercemos. Tanto pode servir o poeta como o cientista.
Mas vendo bem as coisas : nesse ponto, o que os une? E o que é que os separa?
O que vê um que o outro não veja? Como não se sabe lá muito bem, o melhor é que
cada um se ponha a ver ... com
o devido respeito pelo que vê o outro. No fundo, estão a trabalhar para a mesma
pessoa.
Ensina-nos Rouch, no fundo, que
não há encontro sem ficção. Quando fixamos o Outro, o homem imaginado - vivemos com ele e ele não nos deixa! -, não
podemos deixar de ver nele qual é a história que o espelho conta : a
"história", tudo aquilo que, com ele, na verdade vamos ter de
construir - tudo como numa brincadeira de crianças.
Não podemos fugir a ter de ver isso. No fundo, que diferença entre um sacerdote
Dogon, um astrónomo do CNRS ou um Jean Rouch, quando põem os olhos em Sírius
(13) ao romper da aurora? Não é como se cada um deles olhasse por uma das
diferentes facetas do cristal a face visível do mesmo sonho? Será que não estão
a ver a mesma coisa?
© Ricardo
Costa, 11/3/2000
NOTAS
1 Le Renard Pâle - Marcel Griaule e Germaine
Dieterlen, Institut d' Éthnologie, Musée de l'homme, Paris 1991.
2 Edgard Morin - Le cinéma ou l'homme imaginaire,
Editions de Minuit,Paris, 1958
3 Edgard Morin - Les stars, Editions du Seuil,
collection Point Essais, Paris.
4 Edgard Morin - Chronique d'un film, publicado in
Chronique d'un été, pág 9, Inter Spectacles, Paris 1962.
5 Jean Rouch in Chronique d'un été, pág 28, op
cit.
6 Jean Rouch : Cinéma de l'avenir, publicado in Chronique
d'un été, pág 52,op cit.
7 ibid, pág 50.(8)
8 Edgard Morin in Chronique d'un film,
pág 41, op cit.
9 Artigo de
Jacques Mandelbaum no jornal Le Monde, 13 de Junho de 1996.
10 Roland Barthes in La chambre claire, éditons de
l'Étoile, Gallimard, Le Seuil, 1980. «C'est donc ainsi que je dois nomer
l'attrait qui la fait exister : une animation. La photo elle-même n'est rien
animée (je ne crois pas aux photos "vivantes") mais elle m'anime :
c'est ce qui fait toute aventure».
11 Mick Eaton in The production of
cinematic reality, texto publicado no livro Anthropology, reality,
cinema (the films of Jean Rouch), British Film Institute, Londres, 1979).
12 Mick Eaton, op cit, pág 52, diz :
«a cinema in which Rouch plays the shaman, the master of cerinomies at a
cinematic ritual, stimulating and entering the transe with his camera as the
magician's intrument wielded so that a new truth can be revealed which is not
the "truth" of the pro-filmic event, but the "truth" of
cinema itself - cinema is the criation of a new reality». Escreve Gilles Delleuze in L'image-temps, pág 197, Les Editions de Minuit,
1985, Paris : «Alors le cinéma peut s'appeler cinéma-vérité, d'autant plus
qu'il aura détruit tout modèle du vrai pour devenir créateur, producteur de
vérité : ce ne sera pas un cinéma de la vérité, mais la vérité du cinéma».
13 Um dos
mistérios dos Dogons do Mali que Griaule, com Germaine Dieterlen, revela no seu
memorável trabalho de investigação resume-se nisto :
sabiam ter a estrela Sírius, estrela mitológica também para os egípcios, um
satélite -Sírius B - que é invisível a olho nu, muito
antes de um astrónomo inglês de meados do séc. XIX o ter descoberto. Sabiam
ainda que Sírius B era composto por uma matéria mil vezes mais pesada
que todo o ferro existente na Terra : supõe a ciência
que o satélite terá resultado de uma estrela anã, corpo celeste que implodiu
formando uma matéria ultra-densa, na ordem de uma moeda por meia tonelada.