olhos no écran
as coisas vistas pelo cinema
«Tudo começa de forma bem modesta. Depois, a intensidade da luz torna-se
cada vez mais brilhante, iluminando uma parte cada vez maior do universo» O sentimento de si, António Damásio.
«A vida revive a vida; é uma
repetição. (…) Além disso, a imagem invoca mais a morte do que a vida por não
poder separar-se dum olhar fascinado que olha a morte nos olhos, de tão
implicado que está com o desejo : iluminar a morte dando-lhe vida» Bataille,
l’ Autre et le sacré, John
Lechte.
os estados de alma
Projecta-se
a luz no écran. Mesmo que nesse espaço iluminado nada se mexa, o filme começa.
Basta que o que lá está lá esteja. Mesmo nada estando a mexer, passado um pouco
algo se anima. De súbito, na imobilidade das coisas, algo se faz notar, algo
ressalta, um raio mais vivo no feixe de luz, reflexo de qualquer coisa. Algo
que esboça um movimento antes de haver movimento, algo que o olhar detecta.
Algo que prenuncia a acção, algo a que se prende o olhar : talvez a ponta do
fio de Ariana.
Vistas as
coisas noutra perspectiva : o nosso ponto de partida, o ponto fixado no espaço
e no tempo pelo nosso olhar, o ponto que identifica o lugar de onde saímos e o
modo como em relação a ele se situam as coisas. O meu ponto em relação ao
desenrolar do fio. O meu lugar no mundo e na sala de cinema. Sendo o ponto de
partida e a ponta do fio uma a mesma coisa, são coisas diferentes o fio da
meada, que segue um percurso, e a linha do olhar, que segue outra coisa. O
olhar é a manifestação suprema de um estado de vigília : tem a linearidade da
luz, vai direito à coisa. Quando a luz se perde, quando entramos no Labirinto,
quando deambulamos no escuro, sonâmbulos, o fio de Ariana é o único recurso.
Seguimos um
e outro, Ícaro e Ariana, ao encontro da luz : ao reencontro. Agitamo-nos na
cadeira. Mudamos de posição. Sobe-nos a adrenalina no sangue e o corpo consome
mais energia. Na vida temos momentos assim. E gostamos de os ter no cinema.
Mas, num e no outro caso, há quem abuse.
Ou algo a isso nos obriga, forçando-nos
a uma tensão permanente, às vezes esgotante, nesse teimoso confronto entre o
olhar e a intriga. Há de facto quem abuse neste campo : como se no mundo nos
confrontássemos só com isso. Como se, no cinema, esse frenético esbracejar - o
que segue o fio da meada - fosse a única coisa que importa. Mas sabemos bem que
não. Viver certos estados de alma é para nós coisa tão importante como irmos
pisando o fio.
Todo o filme
é uma navegação. E uma das coisas que numa navegação mais importa é, confirmando-se o ponto,
podermos lançar o ferro, parar. Mesmo a meio da viagem o navegador que pára
fá-lo para se abastecer : sondando o
fundo do mar, procurando descobrir o que lá existe, olhando à sua volta.
Espraiando os olhos na paisagem, terra à vista. Coisa que não lhe acontece quando
navega : fixando um ponto. Na vida e no cinema, há quem prefira viver estados
assim. Estados sem rumo, numa viagem interrompida, uma calma deriva dentro da
paisagem.
Fundeando,
sente-se o navegador num estado de
quietude, num meio em que tudo à sua volta se acalma, num espaço em que as
coisas mal se mexem. Num espaço em que não há verdadeiro movimento, em que o
tempo se perde de vista, se confunde, se distende. O mesmo dito pelo seu corpo
: num momento em que carrega baterias. Dito pelo espírito : num momento
reconfortante, num estado sereno, com tempo de sobra, livre de embrulhadas.
Estes momentos de inacção são importantes na vida. E são propícios à criação.
Fazem convergir energias que de novo se vão consumir na acção.
Num estado
de lassidão, em que as coisas amolecem, algo se anima : como na(s) Hitoire(s) du cinéma, onde bulem
todos os filmes, os que foram feitos e os que não se fizeram ainda, num rumor
eloquente, mas de onde não sai nenhum. Onde algo fervilha sem saltar da panela.
Algo que nos ameaça importunar. Algo que, esboçando um movimento, mal nos
desperta. Quebrando essa preguiçosa forma de estar em que o espírito não busca
: em que só busca o reconforto. E que é uma certa forma de bem-estar, mesmo que
não seja o melhor o aspecto das coisas. Um certo bem-estar : mesmo na prisão do
barco, mesmo que não estejam consumados os desígnios da chegada, mesmo por
vezes no sofrimento. O puro mal-estar induz-nos o desejo de mudança. Um certo
bem-estar serena as coisas, faz-nos lembrar e mesmo esquecer . Ilumina-nos a
paisagem.
No cinema,
falamos de filmes que abrem janelas para certas coisas que passam despercebidas
mas nos atraem. Como por exemplo os presságios, vistos no vôo dos pássaros, no
seu canto, até no seu jeito de depenicar. Acontecia isso nos templos romanos.
No templum : «espaço aéreo delimitado
pelo bastão do augúrio para observar os auspícios». Num estado próximo da
contemplação estética, um estado de «percepção confusa», que Baumgarten opõe ao
conhecimento racional (1). Tal como definido pela Einfühlung, um estado de
percepção próprio : contemplando, projectamo-nos em pensamento no objecto da
nossa contemplação, profundamente, bem dentro dele, e algo dele extraímos pelo
conhecimento do seu interior. Há quem veja nisso um «prazer no repouso», no
repouso do «pensamento que se deixa absorver pelo seu objecto, tornando-se cada
vez mais semelhante ao objecto da sua contemplação». Mas ainda há quem nisso
veja, como Delacroix, um estado de grande actividade do espírito e do
pensamento. Também há quem diga que, sendo estados propícios «à beleza que é
sempre mais ou menos espectacular»,
serem eles propícios a certos
impulsos da acção.
Ora os
nossos impulsos de acção, os primeiros, visam o futuro. E no extremo, no
cinema, vinga a ficção científica, que tem duas vertentes : o confronto com o
espaço que nunca pisámos e o encontro com alguém absolutamente desconhecido, o
mais estranho estrangeiro, alguém
que, como todas as pessoas que conhecemos, teremos forçosamente que enquadrar,
que identificar no seu habitat, no seu verdadeiro lugar.
olhos espraiados
Olhamos à
nossa volta. Este agora que se
prolonga é o estado de alma que melhor corresponde ao estado em que se encontram
as coisas : quando elas não mexem, adormecidas. Há inúmeros estados assim.
Nestes estados, em que o corpo se detém numa postura, fixando melhor as coisas,
vemos que afinal elas não estão imóveis : agitam-se, mas nada se move, lá onde
elas se encontram. Tudo está preso na paisagem. Nada entrará ou sairá fora de
campo no espaço dominado por um olhar abrangente : aquele que nos permite fazer esperar as coisas.
Nesses
estados, às tantas, tudo à volta se
anima, mas prevalece a imobilidade :
dentro dessa animação, por vezes viva, nada de particular sobressai, nada se
mexe que chegue. Apenas sentimos que há coisas
a querer mexer. Começamos a
dar-nos conta disso e descobrimos que cada uma delas tem uma ressonância.
Marinetti, o
futurista italiano dos primeiros anos do sec XX, sustenta essa ideia. Diz existirem três
expressões diferentes da mesma coisa, a que ele chama onomatopeia : a directa,
que é imitativa, a indirecta, que é analógica e complexa, e a abstracta, que é
«a expressão quase ruidosa e inconsciente dos momentos mais complexos da nossa
sensibilidade», a que exprime um estado de alma. E fala de «acordos onomatopaicos» quase
musicais que, neste estado extremo, inspiram e dão liberdade ao poeta. Um
exercício - se usarmos o verbo - no modo infinitivo, a que ele chama infinito.
Como ele defende no Manifesto da
Literatura Futurista (1912), o modo de se «atingir a essência da matéria a
golpes de intuição», tal como certamente faz o recém-nascido. O modo de se
desvelar «o sentido contínuo da vida», o modo em que o ser se desvanece na
apreensão de algo que é «a matéria e a sua vida interior», numa fusão com o
mundo. Estados que, de resto, se ligam entre si
como as «continuidades furtivas da matéria». Estados esses em que só a
imaginação trabalha, sem ideias : «a imaginação sem fio».
Nesses
estados de alma, de facto, o estado transmite-se do olhar ao ouvido. A animação
das coisas começa a jogar nos dois sentidos. Quer isto dizer : vemos as coisas animar-se antes de
esboçarem um movimento e ouvimos a subtil vibração que emitem
antes de nos fazerem ouvir qualquer ruído, antes da primeira nota. O espectro
precede a imagem, a palavra precede o fonema, tal como a partitura precede a nota. Nada surgiu
ainda.
Estados em
que a sensibilidade se renova. Sabe bem disso o navegador, que não despreza esses estados de alma, em
que se reencontra. São momentos que duram e que ele faz durar até soltar a guitarra, topar um fio da trama, avistar
um personagem. Só aí mudam as coisas. Só então voltamos à intriga. Quando, no
silêncio, ressoa o primeiro acorde. Quando, nas voltas do novelo, aparece a
ponta da meada. Quando finalmente retomamos o protagonismo, face a uma presença
estranha.
Nesses
estados de alma em que toda a emoção se dilui como uma gota num copo de água,
nesses momentos de inacção em que o fio
não se desenrola, lá no fundo, algo trabalha : teimosamente, como o
coração. Provocando a tal ligeira turbulência. Aquela que surge
no momento em que na paisagem várias coisas ao mesmo tempo se põem a bulir um pouco,
prenunciando a animação. Nesses estados acontece por vezes essa surda
turbulência ajudar a soltar o novelo de certas coisas mais embrulhadas, fazendo
surgir a ponta da meada. Ou ajudar a descolar algumas imagens mal coladas, que
temos de fixar de novo no écran, ajustando-as no lugar certo da paisagem.
São estados
propícios à bricolage, é certo. Mas
acontece também serem estados que, estabilizados numa surda frequência,
ondulando numa agitação que não chega a transmitir-se, se põem a adquirir uma determinada
carga. Que, em determinado momento, se solta. Quando é de sinal diferente da
energia da coisa que aparece, do animal que surge no meio da folhagem, do
personagem que entra em campo, salta a faísca. Tudo começa a mexer a sério. De
súbito, quando menos se espera, desponta a intriga. É aí que verdadeiramente se
inicia a história.
Essa brusca
libertação de energia, independentemente «da pessoa, da época ou do género»,
mesmo que surja só por efeito de uma carga acumulada, sem agente externo
aparente, é o que produz essa «explosão
estática» de que fala Eisenstein num texto escrito entre 1945 e 1947 intitulado
«A natureza não indiferente» (2). E que, nos seus traços mais superficiais, se
chama pathos : «o que faz o
espectador saltar na cadeira, o que o faz aplaudir ou vociferar, em suma : tudo
o que põe fora de si». Fala disso a
propósito da ideia de composição na obra de arte, em que, por efeito do pathos, o espectador é levado ao estado
de êxtase. «O ek-stasis significa literalmente sair de si ou sair do seu
estado habitual». E precisa a ideia : «Nessa estrutura, deve ser
respeitada, em todos os seus traços,
a condição da “saída de si” e da passagem
contínua a outra qualidade». «Põe-se então e naturalmente a questão de sabermos
o que é essa “panaceia” extra-histórica, extra-nacional, extra-social - que
possuirá caracteres imanentes, fora do tempo e fora do espaço» (3).
No processo
do êxtase, citando como exemplo o caso de Inácio de Loiola, diz Eisenstein que
o sujeito «recua» às fases mais antigas, comunicando inevitavelmente «com a
Essência e com o Ser, o devir e o princípio do devir». São estas palavras do
santo : «eu via primeiro o Ser, via depois o Pai e a minha devoção terminava na
Essência antes de alcançar o Pai». São estas, a propósito, as de Eisenstein :
«isto é comunicação com o princípio e
só depois imagem do pai».
Interessam-lhe estas reflexões porque ilustram o facto de esses tais estados de
«êxtase», de «exaltação», de «transporte fora de si» serem «semelhantes entre eles, tanto pelo seu
carácter como pelo método que permite suscitá-los psicologicamente». No que
toca a obra de arte, eles são inequivocamente suscitados «pela passagem do mecanismo perceptivo através
das fases nitidamente combinadas da obra, fases calcadas na estrutura do fenómeno».
Para melhor
ilustrar o que diz, refere um conhecido desenho de Steinberg : um desenho que
«consiste em tudo e para tudo em uma mão munida de uma caneta / que desenha a
silhueta de um homem até à cintura / que desenha a silhueta (idêntica) de um
homem até à cintura, etc. …» num mesmo desenho que se repete repetindo a figura
do homem que se desenha. Como na tradicional lengalenga, sem sentido : «Uma
velha que tinha um gato / e debaixo da cama o tinha / O gato miava / e a velha
dizia : / Estou só / Estou só / Estou só / de uma banda só etc. …». A cada
traço, um homem sai de um homem que sai de um homem saindo de um homem. «Isto
é, temos diante de nós a própria condição da produção estática, respeitada de
uma ponta à outra». Num desenho assim não existe o efeito de «explosão». Por um
lado ela não se produz porque a dinâmica do desenho é convencional, porque, por
muito autêntica que seja, fica contida nas condições do próprio desenho, na sua
dinâmica «necessariamente convencional». Por outro lado também não se produz
porque no desenho «O homem sai de si, sai de si, sai de si, mas nunca é
projectado numa nova qualidade (nem mesmo no sentido de uma simples mudança de
tamanho), continua ele próprio, ele próprio, ele próprio».
Diferente,
embora o princípio seja o mesmo, é o mecanismo das matriochkas, que tem como variante outro brinquedo : «Trata-se de
um sistema de reguinhas entrecruzadas, unidas por charneiras, que
instantaneamente - note-se bem : instantaneamente - se desenvolve no
comprimento (Fase B) desde que se carregue na extremidade das réguas, numa das
pontas do sistema » (Fase A) :
Fase A
XXXXXXX Fase B ><><><><><><><
Eisenstein
compara esse efeito com «…o que se passa na reacção em cadeia do urânio, no que
toca a acumulação da energia
dinâmica da explosão. Daí saltar de um modo tão imediato, tão
pronto, a extremidade livre do sistema, sem medida comum com a energia
despendida» (Fase B).
Fala ele
ainda de «um outro domínio da saída de si»,
como no caso de “O Couraçado de Potemkine”. «É a passagem da imagem para o
campo da música», estando ele a falar de cinema mudo. Trata-se de uma «música
plástica», gerada pela composição, a plástica inerente ao filme. Trata-se de
uma «paisagem emocional» - certamente mais da ordem do sentimentto que da pura
emoção - que age como elemento musical, aquilo a que ele chama «natureza não
indiferente». Por essa via, «o cinema mudo escrevia a sua música». Uma maneira
de sair de si numa outra dimensão. «A
plástica do cinema tinha de ressoar».
O capítulo
em que desenvolve estes conceitos intitula-o «A música da paisagem». Dá-lhe
como subtítulo «Destinos da montagem contrapontística». No filme, a montagem é o elemento gerador do movimento
: «um rosto mudo fala no écran, do
mesmo modo que uma imagem ressoa». E,
a propósito, refere uma tradição antiga : «A música para os olhos floresce com especial plenitude na arte do
Extremo-Oriente, na China ou no Japão». Variações do mesmo motivo alternam-se
em tonalidades diferentes. «Quando a pintura não visa apenas a interpretação musical-emocional dum pedaço
de natureza visível mas resolve um
problema unicamente musical, surge logo - de modo inevitável - um tipo de
composição em partitura».
As tradições do quadro-rolo (e também as
peripécias do seu desenvolvimento) mantiveram-se vivas durante muito tempo na
gravura japonesa, quando não se limita ao espaço de uma folha, «compondo-se de
várias folhas (dípticos ou trípticos) que podem existir separadas mas que só
dão um quadro completo da atmosfera e do assunto quando as folhas são postas
lado a lado». Quando isso acontece, multiplica-se o eco e a redistribuição dos
motivos torna-se claramente perceptível «pelo próprio facto de o quadro se
estender em comprimento, tornado-se então fácil seguirmos a linha de cada
elemento através das modulações sucessivas pelas quais ele passa». Do mesmo
modo é composta a corrente contínua do glissando,
própria da voz e dos instrumentos de corda, como ainda a estrutura temperada do piano. No caso do
quadro-rolo, é a própria imagem que «se enrola» no interior de um rectângulo,
«o que não é um jogo de palavras mas um facto».
Conclui assim Eisenstein o seu raciocínio : «Mas o próprio facto nos dá
a possibilidade de observarmos de um
modo preciso todas as fases que caracterizam o desenvolvimento primeiro do
pensamento e da arte. Estas fases são como se fossem artificialmente mantidas
nesses estados de infância e de adolescência que, nas nossas próprias
artes, só podem ser reveladas em exemplos tipicamente arcaicos».
Na
pré-história do cinema, quando não existia ainda um conceito coerente de
montagem, registava-se movimentos simples, cavalos a galope, comboios a
avançar, carros de bombeiros, acontecimentos desportivos. «O prazer que o
cinema nos dá», diz Panofsky, não vem de qualquer necessidade artística, vem da
«descoberta e aperfeiçoamento de uma técnica nova». Não vem de uma necessidade estética nem de um
interesse objectivo, «mas do puro encanto em que caímos ao ver mexer as coisas,
quaisquer que elas sejam» (4).
Filmes há,
porém, em que a coisa praticamente não mexe, outros em que quase não a vemos
mexer. Nesses filmes só há estado de alma, são modulados de uma ponta à outra
pela tonalidade de um sentimento
dominante. Neles raramente surge a emoção que, mesmo que surja, logo é
engolida por esse sentir constante : à superfície das águas, com uma
ligeira ondulação, se alguma vaga se
levanta logo se perde na calma circundante. Há filmes assim e alguns deles há
em que esses estados se prolongam indefinidamente.
Há no
entanto – e no cinema também – enormes vagas que de súbito se erguem e aumentam
de volume. Incrédulos, vêmo-las crescer e abater-se com estrondo, explodindo,
irrompendo costa dentro. No meio da estagnação dominante, por vezes, há
movimentos desses. Há de facto coisas assim, meio ocultas, que às tantas surgem
e que inesperadamente vemos começar a mexer, a ganhar tamanho, chegando a
adquirir proporções assustadoras. Em 1921 o jornal alemão Berliner Illustrierte Zeitung inicia a publicação em episódios de
um romance escrito por um jornalista chamado Norbert Jacques, hoje um
desconhecido. Chama-se o folhetim «Dr Mabuse der Spieler» : «O actor Dr
Mabuse». A história tem um fenomenal sucesso e é adaptada ao cinema por Fritz
Lang (1922), num filme em duas partes : Doktor
Mabuse, der Spieler, ein Bild der Zeit, «O Dr Mabuse, actor, imagem dos
tempos que correm» e Inferno, Menschen der Zeit, «O Inferno e os
homens dos tempos que correm». Os serials
estavam na moda e a moda havia de durar (Ver 1 in anexo).
A nós de
interpretarmos esses estados como melhor nos convier. Basta lembarmo-nos de
outros filmes que tocam, de uma maneira ou outra, estados assim, como por
exemplo os de Dreyer, de Antonioni, de Satyajit Ray, de Tarkovsky, de Wim
Wenders, de Kiorestami, de Sokurov, os
de Oliveira e outros mais. Filmes que revelam certos estados de alma em certos
estados das coisas. Filmes em que o si não
sai do seu contexto, em que o eu e o outro são uma e a mesma pessoa, numa forma
perigosamente estável do sentimento de si
ou da “consciência alargada” . Filmes
esses em que os seus personagens não chegam verdadeiramente a atingir o estado
de contemplação de si próprios ou do que os rodeia : um estado transitório da
consciência, dominado por um sentimento que se degrada. Os tais estados de reflexão (tal como os vemos no écran)
que antecedem a acção, que procedem ou sucedem a intriga. Durante a intriga
predomina a emoção, não o sentimento (Ver 2
in anexo).
confrontos com a coisa
Olhos
perdidos na paisagem, algo de súbito se avista : uma forma escondida, coisa ou
espectro, uma nova estrela no horizonte do navegador ou, em qualquer outro
horizonte, um personagem. O Dr Mabuse, por exemplo. Quebra-se a rotina das
coisas. Desponta a emoção.
Derivam
primeiro os nossos olhos no brilho e na côr. Na paisagem que eles
percorrem, são as luzes mais fortes que
os atraem. Podem ser entretanto atraídos pelos brilhos menos intensos, contidos
na luz circundante. Buscam a presença de uma forma. Procuram detectar o traçado
geométrico de qualquer coisa. Dizia Cézanne que «somos levados a encarar a
natureza pelo cone, pelo cilindro e pela esfera». Tanto nos veios da madeira do
armário que temos à nossa frente como nas imagens constituídas por simetrias
verticais e abstractas, que os psicólogos usam para detectar as nossas
tendências, começamos logo por discernir essas formas, formas geométricas que de súbito se revelam.
Começamos a vê-las surgir como por
magia. E o que vemos?
Ponho-me a
olhar um desses desenhos, todo ele abstracto. É uma imagem constituída por três
bandas verticais - como um tríptico - colocadas lado a lado, em que a segunda é
um reflexo no espelho da primeira (uma simples textura vegetal), a sua imagem
invertida, e a terceira o desdobramento da primeira, de novo invertida. Incidem
em primeiro lugar os meus olhos nas zonas mais claras e logo de seguida,
atraídos pelas cores mais salientes, detectam formas evidentes. E o que é que eles vêem? Nas bandas à
esquerda, surge-me primeiro um rosto. Fixo nele a atenção : é sem dúvida uma
máscara, talvez uma máscara africana ou um rosto maquilhado. Tem a testa em
forma de cone, uma popa negra com um risco ao meio no alto da cabeça. É azul
essa testa, não chego a perceber se tem os olhos fechados, se tem pálpebras
brancas, ou se os olhos estão abertos e têm as órbitas vazias. A parte inferior
desse rosto é outro cone, invertido, com um nariz adunco. Tem uma boca
minúscula de lábios muito vermelhos e uma barbicha em pêra aguçada, tão negra
como o cabelo. Por cima dessa figura diviso logo outro rosto : outra máscara,
lívida, assustadora. Tem orelhas de elefante e um pequenino tronco, cilíndrico,
munido de dois bracinhos azuis, cruzados
sobre o peito. Diviso nessas bandas outras grotescas figuras.
Desviam-se
os olhos para o vinco simétrico que
separa a segunda da terceira banda e dou logo de caras com a cara de um
palhaço. Tem um penteado ridículo, negro e vermelho, como uma borboleta de asas
abertas. Tem orelhas bem encarnadas, com uma espécie de brincos pretos, e um
enorme nariz da mesma côr, sob o qual se abre um sorriso sinistro. Ao longo desse vinco quase imperceptível, à
medida que linha do meu olhar vai descendo, vão-me surgindo, irresistivelmente,
outros rostos : uma cara preta, triangular, olhinhos pequeninos, colados um ao
outro, com um tufo de cabelos amarelos lá no topo, um novo palhaço, o palhaço
chique, dos tais que eu via quando era miúdo, mas que não me engana. Em tudo
aquilo que ele tem de vistoso detecto o seu segredo : um carácter perigoso.
Avisto, mais abaixo ainda, a face de um tigre alucinado, bochechas azuis,
orelhas informes, salientes, como dois ramos de árvore. Sai o bicho de uma
enorme tigela. Não param de me surgir outros rostos. Faço rodar a imagem a
noventa graus, tornam-se horizontais os vincos verticais, continuam lá todos os
rostos. Rodo agora a imagem a cento e oitenta graus e tudo se altera. Ao seguir
com os olhos as linhas verticais, agora invertidas, logo me surgem outros
tantos rostos, todos diferentes dos anteriores.
Às «formas
sugeridas» junta-se o «fluxo óptico». Quando em zoom in, em travelling para a frente, os meus olhos mergulham na
figura, quando o carro em que sigo avança, rápido, por uma rua fora, tudo
aquilo que vejo à minha frente segue um movimento inverso. Ao aproximar-me de
um centro, afastam-se dele todos os elementos que antes o rodeavam, acabando
por assim dizer por ficarem em suspenso, fora de campo. Quando em zoom out, em travelling para trás,
executo o movimento inverso, afastando-me do centro do écran, regressam a ele,
juntando-se, todos os elementos que dele estavam afastados. Do mesmo modo, se
os meus olhos se deslocam da esquerda
para a direita ou da direita para a esquerda, em panorâmica ou em travelling
lateral, sucede o mesmo que no cinema : vejo deslocarem-se em sentido contrário
ao do meu olhar todas as coisas por ele percorridas antes de se fixar. Se, em
vez destes movimentos de translação, os meus olhos efectuarem um movimento de
rotação em redor do seu eixo, gera-se no écran um turbilhão : sinto-me como se
estivesse bêbado ou a desmaiar, tudo se baralha à minha volta. Se porventura os
meus olhos envolvem uns tantos pontos aleatoriamente distribuídos no écran,
caso efectuem um movimento de translação, a imagem que retenho surge algo
distorcida, mas o meu cérebro, que logo corrige a imagem da retina, compensa
facilmente o efeito e eu apercebo-me sem problemas da existência da regularidade
estática do espaço. Dessa imagem fixa, constituída por pontos, que é deformada
pelos movimentos do olhar que a percorrem, resultam representações em que os
pontos, distribuídos no écran sem
simetria, ora se alinham paralelamente (na translacção do olho) ora convergem para o centro (no olhar que se
afasta) ora se afastam do centro (no olhar que se aproxima) ora se associam em
espiral (no caso da rotação do olho). A
estes labirintos gráficos chama-se
texturas de Glass (6).
No écran é a
detecção de uma forma, de um motivo ou de um
rosto aquilo que nos transporta
: tanto no movimento que precede como no movimento que esboçamos após o seu
registo. É o acto que nos convida a prosseguir o movimento efectuado pelos
olhos : uma aproximação, por exemplo, se nos atrai a forma avistada, ou um recuo, se ela nos repugna. O
motor que em nós gera esse movimento nem sempre o controlamos pela simples
razão de ele ser mais antigo que a nossa
consciência. O mundo visível é por nós apercebido em permanente estado de fluxo,
a coisa que mexe a isso nos obriga.
Tanto pode ela mexer por um efeito que lhe é próprio como pela simples razão de
sermos nós a fazê-lo : pelo puro desejo de nos aproximarmos ou de nos
afastarmos. Toda a imagem que avistamos é contaminada pelo seu duplo, pela
imagem que nela projectamos. Dessa fusão resulta sempre algo de novo, algo
renovado também pelo simples movimento
dessa projecção. Em certos casos, quando a consciência vem em nosso socorro, o que de novo dessa
fusão resulta tem um nome. É a interpretação que fazemos.
Leva-nos o
desejo de ver à interpretação da forma. Quando a forma é um rosto agravam-se as
coisas porque todo o rosto, em particular o rosto humano, está repleto por
traços ambíguos. Vemos sempre no outro, pelos
traços pertinentes do seu rosto, algo da pessoa que ele é. Mas corremos
sempre o risco não só de interpretarmos mal esses traços como ainda de nos
iludirmos ao projectarmos nele a imagem do nosso próprio rosto, como se nos
estivéssemos a ver ao espelho. O cinema está repleto destas metáforas.
Quando, por
força das circunstâncias, nos aproximamos do outro ou quando dele nos
encontramos já tão perto que o não podemos evitar, tudo muda de figura. Gera-se
a empatia ou o confronto. Ou entramos em ameno diálogo ou, se as coisas não se
prestam a isso, entramos com ele em conflito. Se ele acaba por nos atraír,
iniciamos nova aproximação que nos pode levar a uma fusão de corpos, a um
sereno estado de alma. Se ele nos repugna pode o confronto degenerar em fuga ou
numa luta corpo a corpo. E pode até essa luta conduzir à pura aniquilação de um
deles, como nos jogos de computador.
Tem o jogo,
no mínimo, duas partes em confronto. Na situação mais equilibrada, tudo se
passa, por exemplo, como no futebol : sendo iguais os dois meios campos, sendo
as mesmas para ambos as regras do jogo, a única coisa que diverge é o corpo. É
o corpo - a que não é alheio nem o estado físico nem a aprendizagem - que decidirá o resultado do jogo, não
obstante as regras. Quando um dos actores tem vantagens de terreno, vantagens
de equipe, de saber ou performance, o jogo será desequilibrado e o desejo do
mais fraco de sair vencedor traduz-se por um risco perigosamente assumido.
Nessas circunstâncias, o melhor talvez seja evitar-se o jogo, recusar-se o
conflito. Coisa que nem sempre nos é possível : entramos, no mínimo, em
confronto com nós próprios. Manifesta-se
sempre no écran esse confronto.
Manifesta-se
no écran o que está a ser sentido. Ao
mesmo tempo, nesse speculum se
reflecte também o que está a ser sentido por quem especula a uma certa distância. A uma certa distância podem sem
grande risco confrontar-se os desejos de uns e outros, actores e espectadores,
até mesmo quando somos espectadores de nós próprios. A uma certa distância adquirem as coisas todo
o seu relevo. No cinema, salvarguardo por essa distância, sem qualquer hipótese
de contacto físico com a coisa avistada, desejável ou indesejável, deixa-se o espectador levar. Deixa-se
levar pelo desejo ou pelo engano. Com mais artifício ou menos artifício,
deixa-se levar tal como se deixavam levar os primeiros espectadores de cinema.
É o
movimento dos olhos que dinamiza o espaço. São os olhos, que se movem de um
lado para o outro, que o estilhaçam em bocados. Na vida ou no cinema, é o écran que fica reduzido a um
pedaço : um pedaço do tal écran que se estende para cima e para baixo, para um
lado e para o outro, em suma, para fora de campo. No espaço em que a coisa
surge : no que está dentro de campo, no que fica de súbito enquadrado pelo
ângulo reduzido da visão. Tudo o resto, entretanto, tudo o que está fora de
campo, tende a ficar esquecido, ainda que mereça ser enquadrado. Fixam-se os
olhos no rectângulo - num só rectângulo - embora o espaço do écran seja
divisível em múltiplos rectângulos. Esse espaço envolvente (o do écran que se
encurva por cima da nossa cabeça, que passa por baixo dos nossos pés, que
continua por trás das nossas costas, amplo, infinito como uma esfera, no centro
da qual se situa o nosso corpo, no ponto exacto em que se movem os nossos
olhos) é o espaço que habitamos, o nosso
verdadeiro lugar. O écran de cinema, o espaço coberto epelo olhar,
limita-se a ser o tal pertinente rectângulo, o único possível naquele momento,
momento único e determinante, o pequeno retalho interior dessa imensa esfera
que outra coisa não é que a sala de projecção : o mundo. É simplesmente esse fragmento de écran que
nos prende. É aí, nesse espaço assim presente, que a coisa mexe.
Os primeiros
homens que viram os primeiros filmes já sabiam
ser ilusão o que viam : já tinham visto um verdadeiro combóio surgir
sobre os carris, tornando-se maior, a cada jacto de vapor. Já tinham aprendido
a não se deixar impressionar pela assustadora massa metálica que se aproximava,
como um monstro pré-histórico. Mas, ao vê-lo agora irromper no écran, esqueciam-se da ilusão : arrepiavam-se,
encolham-se todos, como se o monstro viesse direito a eles, sem apelo nem
agravo, pronto a esmagá-los num ápice. Um dos mais vibrantes testemunhos dessa
vivência é de Méliès, após a célebre projecção de um dos filmes dos irmãos
Lumière.
Sentados na
cadeira, sabendo nada arriscar, podiam agora os espectadores de cinema, perante
as coisas, vê-las de outro modo :
sentindo-se protagonistas.
Emocionavam-se, deliravam com isso e logo se aperceberam que a aventura não
podia parar : viam-se na Lua, no fundo do mar, nas gélidas paisagens polares
(«la Conquête du pôle»). A cada novo filme, sentiam-se cada vez mais
protagonistas, mais heróis. Sentiam-se metidos num corpo novo a cada nova cena.
Poderiam ter lido os livros que
inspiraram os filmes que viam, mas nunca antes tinham sentido aquilo que
sentiam ao verem-se agora nesses lugares : em países exóticos, em pleno mar, no
céu onde paira a Lua e as estrelas. Transportados pelo desejo todos eles,
tantos mergulhados na angústia, tantos
deles sem esperança, sem trabalho, atormentados pelo espectro da fome, paralisados pelas crises sociais, toda essa
gente, apenas nutrida por ténues esperanças, «The crowd» (King Vidor,
1928), refugiava-se em obscuras salas de
cinema : no «ópio», deixando-se devorar pela delirante «fábrica de sonhos»,
vivendo emoções fortes. A «aventura exótica», que distraía os desfavorecidos
nesses terríveis anos de crise da Wall Street, tinha começado antes com «Nanouk
of the North», com «Moana», nas paisagens virgens das ilhas Samoa (Flaherty) (Ver 3 in anexo).
Na vida,
como no cinema, move-se o corpo no espaço : move-se por si próprio, logo existe
como consciência. Ao mover-se transporta consigo os olhos, que multiplicam o
movimento. No teatro do mundo identificamos assim o espaço. É assim também que,
pelo movimento, identificamos o outro. É assim que se esboça no homem o desejo
: o desejo de ver, o desejo de ser visto, o desejo de se ver perante o outro, o
desejo de o ver longe da vista.
Entre ver e
não ver, nas nossas crenças mais extremistas, no mundo ou no écran, dominam
duas presenças. Dum lado o Diabo, que,
espicaçando-nos, despertando em nós o desejo, nos pode levar de um extremo ao outro, do supremo
gozo à suprema dor. Domina Deus do
outro, apontando-nos o dedo para o Paraíso, para a felicidade serena que nos
regula o prazer, que anula em nós o desejo. O estado que Deus nos propõe é de
apaziguamento. É um estado que dispensa tanto o instinto de descoberta como o
erotismo, um estado em que aquilo que interessa é o que deve ser, aqulio que se
vê, a evidência, e não aquilo que se deseja. É um estado em que nos sentimos
livres de intriga, da complexidade do labirinto ou das maquinações do Maligno.
O estado a que este induz é o contrário disso. O grande problema é que nem
sempre sabemos ver qual desses estados é o que mais nos convém.
Faz-nos Deus
ver as coisas, leva-nos o Diabo a desejar umas tantas, bem à sua maneira. O
mundo é um ritual de atracções e é por esse lado que nos perdemos. A memória
orgânica, que motiva o desejo, memória
partilhada tanto pelo homem como pela abelha, pode levá-los à flor. Mas pode a
flor ser carnívora. A intersubjectividade, a inteligência interactiva dos seres
vivos, a simples inteligência mecânica, são técnicas de que a vida necessita
perante a morte, de que depende mas não deseja. Estão também os filmes repletos
de metáforas destas : a teia de aranha, de uma refinada técnica, o voo suspenso
do milhafre, que paira ou mergulha mal mexendo as asas, são formas de
inteligência que o homem pode reproduzir, adaptando-as, pondo-as ao seu serviço
ou combatendo-as. Nisso não é diferente de todo o ser vivo que sabe que, em
tudo o que mexe e o rodeia, essa inteligência se exprime com todos os seus
artifícios, para a vida ou para a morte.
A
identificação da coisa é algo em nós de primordial : sabermos identificar a
teia que nos pode prender as asas, o bicho que morde, identificar uma flor carnívora,
uma serpente, um precipício, sabermos identificar a coisa ou o ser que nos
surge pela frente. No mais repulsivo dos encontros : “É um escorpião!”, “É uma
serpente venenosa!”. A metáfora, que a cada passo surge no écran, é uma das
figuras de uma primordial retórica presente em todo o ser vivo armado de
consciência. Um frente a frente que só é possível na vida, em que muitas vezes
entramos em conflito com a nossa própria sombra. O aventureiro solitário que
atravessa o Atlântico, que percorre as desérticas planícies do Novo México ou
do Arizona, que escala as vertentes de Monument Valley, não é com obstáculos
desses, com esses caprichos da natureza que verdadeiramente se confronta, é,
antes de tudo, consigo próprio.
Quando a
natureza lhe é hostil, quando alguém o atormenta, sente o Homem necessidade de
mudança. Às tantas agarra naquilo que tem, leva consigo o que pode e vai-se
embora. Tem inscrito nos genes esse desejo de viagem. Põe-se fora de si, e lá vai ele. Põe-se a
mexer. Vira costas ao outro : dele já nada pretende. Deixa a terra onde nasceu
: dela já nada espera. E começa a aventura sem saber bem onde ela termina.
Parte como pode e vai até onde for, até onde melhor se vier a sentir. Sempre
assim foi desde o primeiro momento em que começou a ser Homem. Há no entanto
momentos
peculiares
dessa sua aventura.. Momentos há em que, em longínquas paragens, nas noites
frias, ao pé da fogueira, soltando a guitarra, ele invoca em lendas, em poemas
épicos, em canções de gesta, as terras de onde veio e os encontros que teve.
São essas histórias povoadas de espíritos, de seres benignos e malignos que lhe
invadem os sonhos, que nunca o largam, apesar de ele ter querido deixá-los em
paz, lá na sua terra (Ver 4 in anexo). Sonhos,
serenos ou agitados, que o iluminam no western, seja quando perante o motivo
saca da guitarra, seja quando perante o inimigo ergue o revólver. Sonhos que
lhe dão asas quando acorda. E que o instruem na luta pela vida. Não foge à
regra.
atenção e visão rápida
De súbito os
olhos da gazela detectam a silhueta do leão que, sorrateiro, surge a dois
passos dela, aparição que um vago prenúncio lhe permite detectar no último
momento : uma mancha de luz suspeita nos arbustos da savana, uma ligeira forma,
quase imperceptível, que mal se adivinha.
Sobressalta-se e dispara, correndo. Ágil, possante, astuto, põe-se o
leão a persegui-la. Pode bem acontecer que ela escape. Sabem ambos disso por
instinto.
Cada um
deles faz o seu cálculo. Pernas para que te quero, e as dela são ligeiras e
finas, lá vai ela. As do leão são robustas e as suas patas, largas e bem
constituídas, firmam-se na terra a cada impulso do corpo, erguendo uma nuvem de
poeira. De tão leves, as dela mal tocam o chão. Na sua selvagem obstinação, o
leão ganha terreno, a velocidade que ele atinge coloca a pobre gazela em
desvantagem. Mas ela tem os seus truques. Mal sente que ele a alcança, de tão
leve que é, salta para o lado, num ângulo agudo, inflectindo bruscamente.
Desvia-se assim do leão quando este quase lhe lança a pata e este, já contando
com isso, inclina toda a massa do corpo sem parar de correr, abranda, muda de
direcção e de novo acelera. São só músculos o seu corpo e é isso que lhe
permite compensar num ápice o ângulo desenhado no percurso do seu provável
almoço. No seu trajecto consegue criar uma curva, quase sem perder balanço, mas
como é bastante pesado não pode evitar um indesejável atraso, perdendo
velocidade na mudança de direcção. Afasta-se a gazela por um momento. Para
escapar ao leão terá ela de repetir os saltos sempre que este recupera no seu
avanço. Para a conseguir apanhar terá ele de aumentar a velocidade e de
calcular a amplitude das curvas que o seu corpo imprime a cada novo salto da
gazela.
Passam-se
assim as coisas : no seu trajecto de fuga, para compensar a sua menor
velocidade, a gazela avança aos ziguezagues, o que obriga o leão a abrandar na
corrida, acabando por perder terreno. Seria perfeita a estratégia da gazela se
o leão não soubesse calcular com toda a eficácia : mais rápido que o seu corpo,
o seu cérebro, guiado pela linha do seu olhar, em milésimos de segundo, vai
desenhando sobre a linha quebrada do trajecto da gazela uma linha ondulante que
se aproxima o mais possível da linha recta do seu olhar, ao prever
o ponto onde a irá apanhar. Todo o percurso do leão é assim traçado por uma
sucessão de curvas aproximando-se da linha recta que compensa a linha quebrada
dos ziguezagues da gazela. Este cálculo matemático, ultra-rápido, refinado, em
que, a cada ínfima fracção de segundo, entram em equação três problemas
complicados - o primeiro físico, o segundo cinético e o terceiro geométrico -,
é aquilo que permite ao felino dar por
fim o último salto, fixar as garras nas ancas da gazela, derrubá-la e consumar
o seu feroz intuito : ferrar-lhe as presas na garganta. A fuga da gazela é condicionada por um modelo
determinista que ela herdou dos seus antepassados. A perseguição do leão é
movida por um cálculo em que ele prevê os efeitos causados pelo meio externo, a
configuração do terreno e os obstáculos com que a gazela se cruza na sua fuga
sem destino. Ela procura sempre ganhar
terreno, ele outra coisa não deseja que encurtá-lo.
A cada salto
da gazela, no preciso momento em que ela se livra das garras do leão, cria-se
um momento de suspense. Para o
espectador, que irremediavelmente se vê metido na pele do animal perseguido,
mantém-se, tal como para a gazela, o desejo de que o sonho continue a ser
sonhado. Se porventura ele se meter na pele do leão acontece o mesmo. Vê-se
driblado, sente que o objectivo não é atingido. Sente que o sonho não se
cumpriu e continua a sonhar. E sofre, tanto num caso como no outro, só porque o
filme continua. Não lhe basta os indícios de uma solução que só no final se
revela.
Tudo se passa
de uma maneira muito veloz. A capacidade humana de reconhecimento ultra-rápido
revela-se nisto : o olho apenas precisa de uns vinte milésimos de segundo para
reconhecer a imagem de um animal, e de uns cento e quarenta milésimos para
saber se é animal ou não. Tem o olho, desde que é olho, tendência a detectar em
primeiro lugar bruscas mudanças de luz e
logo a seguir os movimentos, numa paisagem estável. A forma, que ele acabará por detectar - a
mais importante das coisas para o bicho que vê -, é já resultado de um processo
mais lento. A forma de um ser vivo, aquilo que o identifica, é aquilo que os
olhos mais procuram. Algo a isso os leva : vermos algo que nos agrade ou, coisa
não menos importante, vermos algo que nos repugna : homem, bicho ou coisa. De
resto, em todas as coisas que mexem há algo
que as faz mover. Nada do que nos interessa ou nos ameaça nos convém perder de
vista.
Duas
metáforas (a metáfora é também indispensável ao progresso da ciência) ilustram a ideia de forma. Uma delas associa a
forma dos seres vivos à das máquinas e à dos objectos manufacturados. A outra
associa o procedimento criativo a um «processo orgânico» de desenvolvimento. A
primeira remonta ao Renascimento e a Descartes. A segunda a Goethe e Coleridge
e, nessa linha, a alguns sábios do período romântico. Ambas nos conduzem a esta
hipótese : «… todo o conjunto ordenado
de formas resulta dos efeitos combinados de dois processos deterministas : a
resposta a exigências funcionais externas e os imperativos na expressão das variações
impostas pelas propriedades dinâmicas do sistema generativo» (8).
O conceito
de corpo-máquina surgiu no
Renascimento e inspirou certos estudos
sobre a organização das estruturas dos seres vivos. Um tratado fundador desses
estudos, do anatomista flamengo Vésale, é de 1543 e chama-se De humani corporis fabrica. Outra
obra-mãe é a de Harvey, que descobriu a circulação sanguínea em 1616 : via ele
o sistema sanguíneo como um conjunto de bombas ligadas por tubos. Descartes
fala de um «animal-máquina» e introduz a
ideia de que o sistema biológico pode ser redutível a uma questão
físico-química. Estas metáforas de facto podem estimular o cientista :
obrigá-lo a estudar e a compreender ambos os sistemas e a perceber como eles
agem.
A analogia
organismo-máquina, certa em fisiologia (todo o organismo obedece às leis da
física), permite que as suas funções se
expliquem por isso mesmo, por ele ser máquina.
Mas para que elas possam ser bem explicadas - hoje todos sabemos isso -
esse modelo não nos basta. Sabemos que, em Descartes, a analogia está
contaminada : «ela não concerne apenas a função das formas orgânicas que vimos
na natureza, mas ainda a existência dessas formas, elas próprias resultado de
um processo de selecção, que responde a imperativos funcionais» (9). O conceito de selecção natural de Darwin, que aqui se intromete, faz com
que a analogia se torne causal. O mecanismo determinista da evolução actua
tanto na evolução biológica como na tecnológica, mas com velocidades
completamente diferentes. A máquina inventada pode sofrer modificações sempre
que se pretenda maximizar o seu desempenho em função de um certo custo de
produção, o que implica economia de tempo. «A forma de uma máquina é portanto
caracterizada por exigências funcionais externas e pela minimalização dos
imperativos internos gerados pelo seu modo de fabrico» (9). É a função da
máquina que dita a sua forma. Como na natureza, com todos os seres vivos, os
objectos tecnológicos produzidos pelo Homem não só se inventam como se
reproduzem. Père Alberch invoca, a propósito, um livrinho de Henri Focillon, a Vida das Formas, de 1934, em que ele diz
ser uma forma artística a entidade dinâmica que sofre uma «ontogénese
característica» antes de inteiramente se exprimir. «Para entendermos o produto
final temos de estudar necessariamente o processo onto-genético subjacente».
Entramos em pleno domínio do processo da concepção e da criação, processos decisivos no próprio
processo de vida, em que tanto joga a experiência passada como a interpretação
de uma informação nova, que na maior parte das vezes tem de ser rapidamente
apreendida, e que pode ser bem aproveitada. É aí, por entre pinturas rupestres,
por entre telefones móveis (que, desde os que lhe deram origem, mantêm certos
elementos e traços fisionómicos comuns), é aí que «se encontra os primeiros
sinais da capacidade do Homem em transcender a realidade». Realidade que, em
caso algum, podemos perder de vista : nem quando vimos as coisas tal como elas são (ou as
julgamos ver) nem quando, se não as vimos, as virmos como elas tiverem de ser
vistas, por sermos obrigados a isso (10).
Aprendemos
com os nossos primeiros filmes, quando
ainda mal sabíamos ver, que tudo começa com a adaptação do olhar ao que se vê
no écran. Aquilo que nos é dado ver à nascença, acrescido daquilo que nos dão a
ver aqueles que vão surgindo à nossa volta, será o que nos permite
adquirir a visão própria. É assim que
nos confrontamos com o mundo, é assim que aprendemos a nos enfrentar com a coisa ou com o outro. Sucede isso em
duas situações diferentes : em situações de intriga ou nos momentos em
que algo surge pela simples vibração das coisas. Pode acontecer isso quando a
coisa começa a mexer por efeito da intriga
ou então quando algo explode, como por um excesso de energia
acumulada. Num e noutro caso, quando o
estado de alma se transforma em estado de
vigília. Estado que exige outra postura : atenção e visão rápida. Tudo se anima então nesse ponto, em que as
duas linhas se cruzam : o fio da intriga e a linha do olhar. No ponto preciso
em que, para uma e outra, o avanço se torna regresso.
É assim no
cinema : enrolado em duas bobines diferentes, o fio da meada desenrola-se por
um lado. Ao mesmo tempo, ao mesmo tempo precisamente, enrola-se por outro. De facto num ponto : no
ponto em que enrolar e desenrolar são um e outro, na janela do aparelho. Nesse ponto crucial : no ponto preciso em que a luz a atravessa. Na
passagem mais estreita de todas as suas passagens. Para cá e para lá. No ponto em que ela própria consigo se cruza,
no cristalino ou na lente, na sua veloz viagem de regresso até à retina : até à
película. Até à ponta da película, a
ponta que aí termina e aí começa, onde o desenrolar se enrola e o fantasma faz
uma pirueta, ao entrar pela janela. A janela : o ponto em que a luz que
transporta o espectro choca consigo
própria e onde é profundamente atingida pelo correr da intriga, pelo desenrolar
da bobine sobre a qual actua, imprimindo-lhe a imagem. Nesse ponto de viragem. E de vertigem. Nesse ponto de avanço e de
retrocesso, quando, à velocidade da luz, a imagem regressa da película ao écran
e do écran aos órgãos a que se destina e que lhe dão origem : os olhos.
o olho da câmara
a óptica e a mecânica
A máquina de
filmar não é um simples aparelho, uma simples lanterna mágica. Trata-se de
coisa mais complicada. É um medium, uma prótese provida de um
mecanismo subtil que se adapta e se comanda com o olhar, e que o ultrapassa. Um
vaivém, um dos nossos mais seguros artifícios. Um mecanismo que, no essencial e
em perfeito sincronismo, por um lado enrola o passado e por outro desenrola o
futuro. E que ainda por cima é capaz de fixar as imagens desse movimento, com a
precisão de um cronómetro. Coisa que, sem ela, nós nunca faríamos, incapazes que
somos de medir o tempo certo sem recurso a um instrumento. O instrumento que
produz o filme, a matéria de expressão de que fala
Hjelmslev, é de tipo sensorial : «técnica na emissão, sensorial na recepção»,
como a define Christien Metz (11). Matéria que vai e vem, viajando no
espaço.
Sendo a
máquina de filmar um instrumento, a questão da máquina desdobra-se. Uma questão é a própria máquina, que só tem um
olho. A outra é que nós temos dois. E na vida, regra geral, andamos com eles
bem abertos : um deles cola-se ao visor e o outro perde-se na paisagem.
Particularidade importante, que Jean Rouch assinala : no filme
documentário - tal como no teatro do
real - um dos olhos que filma fixa-se no evento enquanto o outro deriva in full screen. A coisa
que mexe a isso nos obriga.
Confirma-nos isso o écran de televisão no espaço habitado da sala de
estar, espaço de um espaço. Temos um olho no écran e outro na sala. Facto que
tem uma explicação simples, mas não sem transcendência. Na sala de estar, a luz
da televisão, que anima as coisas, vem do lado de trás do écran, do lado
contrário ao nosso ponto de vista, bem como a luz da sala, a que o olhar não
escapa. Mergulhados na realidade, bem em nossa casa, aquilo que vemos no écran
não é só aquilo que através dele nos chega mas ainda aquilo que o rodeia : o espaço que habitamos, o mundo “real” em que
vimos as coisas.
Na sala de
cinema, pelo contrário, como no sonho, em que um só olho se fixa, a luz vem de um projector que se situa por trás
da nossa retina, atrás da nossa cabeça. À volta tudo é escuro. É como fecharmos
um olho, sentindo que algo do filme substitui o que esse olho via. Apagam-se as
luzes, anima-se o écran, reduz-se o campo, define-se o quadro : a saída da
caverna que nos abriga, no interior da
qual deixámos gravadas as nossas imagens, em cujas paredes, desde os
primórdios, ficaram inscritos os nossos rituais. Rituais esses em que se cumpre
um objectivo : re-produzir as imagens associadas
por um Montador. Quando olhamos de dentro da caverna para o lado de fora é de
facto como fixarmos algo fechando um olho : através de um ponto de mira (12).
Vemos a coisa como a viu Ariana que,
ciente do Labirinto, fornece a Teseu o fio condutor. A câmara só tem um olho :
o de Ariana. O outro, o que nós também temos, é o de Teseu. Na vida usamos um e
outro. Enquanto o filme corre, usamos um dos dois.
Na sala de
cinema fixamo-nos num ponto : aquele que se cruza com a mira traçada no visor
da câmara, que se reproduz no écran.
Situamo-nos num ponto e não num espaço : estamos sentados na cadeira, na
penumbra. Na sala, aí no ponto onde nos encontramos - numa encruzilhada - o
espaço é o do écran e o da distância que nos separa do fantasma que avistamos,
que bem pode ser o monstro.
Mal se apaga
a luz, sentimo-nos logo nesse ponto : no ponto de um espaço dominado pelo
écran. Sentados na cadeira, a uma confortável distância, sentimo-nos de algum
modo estranhos ao que aí se passa. Sentimo-nos estranhos mas ao mesmo tempo
envolvidos porque, às tantas, a linha do
nosso olhar se encurta tanto que quase entramos em contacto físico com a coisa.
Basta para isso um grande plano. Mas como na tela o enquadramento muda a cada
passo, animado pelo desenrolar do filme, eis que também nos sentimos logo mudar
de ponto. No cinema, eis o paradoxo, podemos mudar de ponto, voando no espaço,
mas de lugar nunca mudamos.
No cinema o lugar que
ocupamos é sempre o mesmo. Viajamos sem mexer o corpo. Viajamos entre a cadeira
em que nos sentamos e o ponto em que situam as coisas na tela. Mas também viajamos entre um antes e um
depois, no tal ponto em que o desenrolar se enrola : viajando no tempo. No
ponto em que a película é impressionada, antes do que vai acontecer e depois do
acontecido. No ponto em que o fotograma
é iluminado : agora. No ponto em que ainda não foi e já
deixou de ser.
Sem nos
mexermos, viajamos assim no espaço mas também no tempo. A máquina que nos
transporta, tal como os nossos olhos, é um portentoso engenho que não pára de
nos levar a toda a parte e a lado nenhum, gerando sem parar as imagens desses
lugares : as imagens que nos fazem aproximar ou afastar, que nos fazem derivar
na duração. Mas ao passo que, no caso dos olhos, esse ir e vir é um sentir gerado pela máquina
do nosso corpo, no caso do cinema ele é gerado pelos olhos de um Montador, que
não está presente em lado nenhum : o
motor da ideia que nos faz viajar. Que Motor é esse? Que indizível Força é
essa que nos faz andar de um lado para o outro, que nos obriga a recuar e que
nos empurra logo para a frente?
o registo da imagem
Ao ser
projectada, a película reproduz-se no écran. Recobre tudo aquilo que nele
reconhecemos. Todas as imagens que lá se projectam são sempre cobertas por uma película, com os seus
tons, as suas matérias, os seus contrastes, com tudo aquilo que ela tem de
artifício, de falso e de verdadeiro. Tudo aquilo que no écran reconhecemos como
verdadeiro, tudo o que nele vemos de real, é, como sabemos, recoberto por algo
ao mesmo tempo revelador e encobridor, a preto e branco ou a côr. Não se trata
só daquilo que a película registou mas também o modo em como ela o fez : encobrindo certas partes daquilo que mostra,
a película realça outras, imprimindo-lhes o seu tom.
Sabe-se que
tudo o que a película regista e re-produz
tem «uma substância icónica» que algures a prende ao real. Substância essa que,
na fotografia, tem exactamente por
função reproduzir com «exactidão geométrica» a «imagem aérea» a que
corresponde. A fotografia pura, tal
como a retina, respeita-a o mais possível, na «exactidão
dos contornos», na «fidelidade aos detalhes», na «conformidade ao
contraste», em luz natural : respeito que faz a regra que permite à fotografia,
como à imagem reproduzida na retina, tornar-se um analogon daquilo que reproduz. Mas também sabemos que «toda a transmissão
fotográfica, logo toda a transposição de uma imagem aérea em imagem argêntica,
produz fortes aberrações, que podem
ser atenuadas, mas nunca anuladas». E
sabemos ainda que essa transposição
dá origem a dissipações.
«Surgem as aberrações da própria formação da imagem argêntica e as dissipações
ocorrem durante a transformação da imagem aérea em imagem activa» (13). Na sala
de cinema, por essas razões e ainda pelo seu efeito revelador/encobridor, é
hábito ter-se cuidado com ela, a película : presta-se a manipulações subtis.
No écran do
cinema, como no écran da vida, seja como for, se lá não vemos a verdade que é,
a verdade que lá se encontra, vemos
pelo menos uma verdade qualquer : a que lá se projecta. É assim, note-se, com todo o bicho que tem
olhos. A mosca tem uma visão bastante diferente da do homem mas, ao detectarem
um objecto, os olhos de ambos seguem a mesma regra : projectam sobre a coisa
detectada, como por sonar, o próprio reflexo dela, uma visão matriz, uma visão que se ajusta à forma da coisa, à sua
«imagem aérea» e, através dessa forma, ao que ela significa. É assim que todo o
bicho a interpreta, seja ele mosca seja ele o pássaro que persegue a mosca seja
ele a coisa, o assassino, o inimigo
que entrevemos. Aqui não é a inteligência que comanda. É o corpo que, provido
dessa inteligência, a adapta às suas conveniências. O homem, como qualquer
bicho, está em primeiro lugar. Face a todos os outros, é a primeira pessoa.
O que os
olhos do homem têm diferente dos da mosca é também em função do corpo. A mosca
tem uma visão esférica para rapidamente detectar matrizes, ao voar depressa e
em ziguezague. Os do homem fixam-se num écran mais ou menos rectangular, como o
do cinema. Será que podemos ver o universo
de outra forma? O olhar exerce-se sempre nesse campo restrito : sobre aquilo
que nos é dado ver.
Só vemos o
que está dentro de campo. Fora desse campo nada vemos. Só sabemos o que lá está
através dos outros sentidos, ou imaginando. Para vermos o que está fora de
campo desviamos os olhos, criamos novo enquadramento. Fora dele só “vemos” o
que imaginamos. Mas, mesmo dentro do quadro, estamos limitados pelo alcance dos
nossos olhos. Para lá do que eles alcançam, também só “vemos” imaginando. E,
nisso, somos milhões de vezes mais eficazes que a mosca.
Para ver
para além dos seus olhos, o homem, ao contrário dos outros bichos, pode criar
um instrumento : lanterna mágica ou telescópio. Mas nem mesmo os instrumentos
que cria para ultrapassar os limites da sua visão escapam à sua vertigem, ao
incontornável desejo de ver para lá do que eles próprios alcançam. Sem ele, sem
poder ver o que esse instrumento vê, o homem apenas imagina. Com ele, passando a ver coisas que antes não via,
não resiste e logo cria um novo campo, feito só de imaginação : o que se situa
para lá do alcance do instrumento. Ver e imaginar são, para o homem, partes
quase iguais do mesmo acto. E, sendo manifestações do corpo, nunca se fazem sem
desejo. Na vida como no cinema, se o quadro se altera, o campo é outro, mesmo
se algo restar do anterior. Altera-se o quadro quando o olhar se move de um
lado para o outro, em movimentos rápidos, mas também em profundidade. Possuindo um olhar de longo alcance, o homem
exerce-o para melhor prever : uma imposição do corpo. Mais que qualquer outro
bicho, o homem vê para isso.
Para ver e
prever movem-se os olhos dentro das órbitas, em saltos bruscos, antes de se
fixarem. O nosso campo de visão, a cada movimento do olhar, corresponde assim,
como no cinema, a um outro plano, que é o novo espaço abrangido pelo olhar
quando ele se fixa. Se a animação das coisas é intensa, não cessamos de as
seguir com os olhos, de os mover nas órbitas, em sucessivas alterações de
campo, até que algo os prenda por completo, fixando-os. Quando o olhar se fixa
concentramos a atenção no seu objecto, sem mais roturas de campo : observamo-lo
em plano fixo. Se a acção é intensa,
no cinema, que reproduz artificialmente o movimento dos olhos, imitando-o,
multiplicam-se os planos. Surgem as panorâmicas,
como se intensamente fixássemos o que vemos movendo a cabeça sem mover os
olhos. Iniciam-se os travellings como
se estivéssemos a seguir algo apenas movendo o corpo, sem termos de mover os
olhos ou a cabeça. Quando mexem as coisas que os olhos seguem tudo em nós se
anima, tudo atinge velocidades prodigiosas. Nas órbitas, os olhos deslocam-se
em movimentos bruscos de cerca de vinte a cento e cinquenta milésimos de
segundo e a actividade do cérebro aumenta nas áreas em que trabalha a visão,
que ocupam mais de metade de cada um dos
hemisférios. É, de longe, o nosso sentido mais abrangente. Além disso, o
mecanismo activado no acto de ver não é só aquele que gera o movimento dos
olhos mas ainda, coisa mais complexa e subtil, um outro, «atencional», que os inibe
: aquele que os obriga a fixar-se concentrando a sua atenção nas coisas
observadas (14). A informação proveniente da retina, estimulada pelo movimento
e pelas respostas que concentram os olhos na observação, entra pela parte de
trás da massa cerebral, onde se exerce a visão
central - a parte do campo que se situa em frente dos olhos - enquanto os
bordos da imagem, a periferia do campo
visual, activam certas zonas anteriores do cérebro, inferiores em extensão, menos
precisas no registo. O movimento plano (a
paisagem que vemos desfilar pela janela do combóio, o travelling lateral, o rodar da cabeça, a panorâmica), a expansão (o chão que vem direito a nós na montanha
russa, o travelling para a frente), a
contracção (a casa que se afasta, o travelling
para trás) são movimentos diferentes que activam três zonas diferentes do
cortex cerebral.
A coisa que
mexe bule com uma parte considerável da massa cinzenta e obriga-a a executar
duas operações distintas e essenciais. Uma delas é avaliar a velocidade da
coisa, calcular a direcção que ela segue, interpretar os seus contornos. A
outra é simplesmente deduzir o movimento global da imagem (15). O puro movimento das coisas (associado a outros estímulos, como o brilho, os contrastes e as cores, como
ainda a própria semântica das formas que se associam a sistemas neuronais
infra-temporais sensíveis às particularidades dos rostos, do rosto do macaco no
cérebro do macaco ou do rosto do homem no cérebro do homem) provoca representações da imagem, que se
projecta na retina, para as optimizar,
para delas retirar o melhor efeito. Essas representações, que se produzem em
dois conjuntos distintos de áreas cerebrais, mobilizam a atenção do observador
pelos efeitos que provocam, nas respostas que ele terá de dar a duas grandes
questões que levantam : «O que é que eu estou a ver?» e «Como é que isso se
situa em relação a mim?». A questão
“onde” surge numa zona determinada do lóbulo parietal e a questão “o
quê” numa zona, também definida, do lóbulo temporal.
Estes
factos, cientificamente testados, invocam outra questão, uma vivência nada
científica, que bem podia ser uma cena de cinema mas que, mesmo que não tenha
sido, tem implicações com a teoria. Num passeio de família a uma feira, com
carroceis, automóveis eléctricos,
vendedores de pipocas e muitas barracas de bugigangas, o cão lá de casa, que de
estúpido não tem nada, segue-nos um bocado atordoado com a barafunda. Vêmo-lo de súbito parar, perturbadíssimo, e
dali não arreda. Tem os olhos postos num grande leão de pedra, exposto ao lado
de uma das barracas. Note-se que nunca tinha visto um leão na vida, nem de
carne nem de outra coisa. O cão não avança nem recua e não se convence, mesmo
quando se lhe explica com insistência que o leão, mal parido, de leão não tem
nada. É a custo que, ainda trémulo, se deixa levar, amarrado à trela,
irremediavelmente conduzido. Acaba por fim por se cruzar com o leão. Depois de
o cruzar, como seria de esperar, quem conduz é ele, na outra ponta da trela. É
assim também no cinema : mesmo que seja grosseira a representação, mesmo sendo
foleira a história, mesmo que aquilo nada nos ensine, mesmo que o leão não
convença, somos levados só porque a coisa representada é feita de tal maneira
que não lhe escapamos. Para que isso aconteça, basta que os mecanismos da
imagem, basta que as engrenagens da coisa que mexe actuem de tal maneira que
não dêem descanso à nossa máquina, ao mecanismo que nos anima.
os rituais da memória
Uma vez
registada, a imagem passará obrigatoriamente a ter outra vida. Um poeta, um
escritor, um pintor, um cineasta, seja quem ele for, isso não interessa, está
confortavelmente sentado a ler o jornal na sala de estar, apenas iluminada pela
luz de um candeeiro colocado em cima de uma mesa, nas suas costas. Está
concentrado na leitura. Ergue os olhos do jornal para descansar uns segundos e,
sem querer, fixa-os no écran da televisão, que está desligada, em cima de uma
mesinha ao lado da porta de entrada na sala. Nessa superfície negra e brilhante
reflecte-se um feixe de luz, vagos perfis meio iluminados, a superfície sombria
do que parece ser um muro, mas o observador ainda não decifrou o significado
desses sinais. Apenas os reflexos, mal definidos, numa relação de luz e sombra,
lhe prendem a atenção.
Há algum
tempo que pensa (mas há já semanas que com isso não se preocupa) numa cena que
se passa num sítio bem conhecido : uma rampa em cimento que desce para o mar,
onde os pescadores por vezes encalham os botes que utilizam para regressar ou
alcançar as traineiras fundeadas no porto. A cena que imaginou, que um dia
há-de compor, consiste precisamente num bote a remos, com duas pessoas a bordo,
que se afasta da rampa que se ergue junto de uma muralha de pedra.
Olhos postos
nesse écran sem vida, põe-se a decifrar as formas que nele avista. De súbito
tudo se anima. Distingue primeiro o perfil da muralha do porto, à direita,
iluminado por uma luz que vem do lado oposto, uma luz discreta, algo rasante,
que se projecta sobre a superfície da água e a anima com delicados reflexos e
que, em relação à muralha, define claramente o nível da maré : é preia-mar.
Descobre, logo depois, o desenho de um
bote que, visto de través, iluminado pela mesma luz, se reflete na água, proa
virada para o mar, afastando-se. E logo percebe que um dos ocupantes está de pé, à popa. O conjunto, todo ele, é
tocado por esse foco de luz, meio oblíqua, bem real, cuja origem não sabe
definir, mas que imprime à cena uma atmosfera fascinante. Coisa espantosa : a
cena que antes imaginara passava-se de dia, num dia calmo e sem vento nenhum, e
ambos os tripulantes do bote iam sentados. A cena que agora observa passa-se de
noite, o mar é visivelmente agitado por uma ligeira brisa e um dos tripulantes
está de pé, em frente do outro, que rema.
O efeito dramático do conjunto é incomparavelmente superior ao que
imaginara, na versão original da cena. É evidente que a versão ideal é aquela
que se projecta no écran.
Surpreendido,
faz um esforço para ver a coisa da
maneira certa. E, pouco a pouco, descobre primeiro que a muralha é um
reflexo no televisor da aresta da parede da sala, que o bote é a projecção de
um livro que está em cima da mesa, que o homem de pé é o perfil de uma caneta
de feltro arrumada dentro de uma caixa colocada ao lado do candeeiro, que a
superfície brilhante da água é o reflexo do tampo da mesa e que a fonte de luz
é o próprio candeeiro. Pormenor
importante : levou mais tempo a decifrar a imagem real do que a ilusória e
agora, ao mesmo tempo, consegue ver uma e outra.
Neste
processo, a imagem registada é de certo modo ritualizada : entre a sua fixação na memória e a sua
projecção no espaço. Tendo como objecto estar ciente da alguma coisa, a ciência (uma das formas mais avançadas do
conhecimento humano ou, por outras palavras, da consciência) não regista,
comprova. O registo é feito antes que se manifeste o acto de consciência. A ciência, ela também, apenas comprova o
que pelo acto de imaginar foi registado. Só depois de se confrontar com aquilo
que foi imaginado se pode exercer a
consciência. Consciência significa o saber adquirido pelo sujeito que se
projecta como objecto da sua própria observação, como se fosse uma outra
pessoa. Para ser verdadeiramente consciente, todo o indivíduo terá de alguma
maneira de ser capaz de desenvolver essa capacidade de se desdobrar, de
desenvolver um duplo de si próprio : o autor e o
observador crítico da imagem que faz das coisas. Nunca podendo deixar de
observar a sua própria observação, a ciência é avessa ao imaginário neste sentido
: tem de virar a imagem do avesso para não se deixar enganar. Imaginada
primeiro e registada depois, ou registada primeiro e imaginada depois, pouco
importa, a imagem não pode escapar a este dramático confronto consigo própria,
traço comum que une a ciência e o mito, em rituais próprios num caso e no outro
e que têm como objectivo pôr à prova a veracidade do registo.
Neste
preciso momento estou a ouvir música na rádio. É um trecho de jazz, suave e
envolvente. Nada perturba a serenidade dessa música nem a calma que me
transmite. De súbito, no meio da música, levanta-se uma voz de homem, brusca,
abruta, violenta, que me sobressalta e
logo se interrompe. Continuam inalteráveis os acordes do jazz. Regressa de novo,
num breve instante, a voz perturbadora, que nada exprime, como se, no meio
daquela passividade, houvesse alguém a querer quebrá-la, com uma intenção
desestabilizadora, alguém a querer impor-se. Sinto bem o efeito dramático dessa
voz e acabo por o apreciar. Mas nisto salta-me a dúvida : será que a voz não
vem da rua? A voz não retorna e a música termina da mesma maneira suave.
A palavra consciência (conscience) que, como Damásio faz notar, é uma das etapas mais
evoluídas da actividade do cérebro e «que vem do latim con e scientia está em uso desde o
século XIII». As palavras inglesas conscious
e consciousness só terão surgido na
primeira metade do século XVII, depois da morte de Shakepeare que, em todo o caso, pôs na boca de Hamlet esta
frase : «Deste modo a consciência moral
(conscience) faz de todos nós
cobardes». Admite mesmo que Shakespeare tenha compreendido «profundamente a
natureza da consciência alargada» e que tenha até podido compreender «que, por
trás da consciência alargada, deveria haver algo parecido com a consciência
nuclear …». É no fim do processo do conhecimento, no topo de uma espiral que,
defende ele, «a consciência alargada permite a consciência
moral», a seu ver dois dos estados mais evoluídos das capacidades humanas :
«em primeiro lugar, a faculdade de se elevar acima dos ditames da vantagem e da
desvantagem impostos pela necessidade de sobreviver e, em segundo lugar, a
detecção crítica das discrepâncias que conduzem à procura da verdade e ao
desejo de estabelecer normas e ideais para o comportamento e para a análise dos
factos» (16).
Duas formas
elevadas do «sentimento de si» cuja expressão, por um legítimo desejo de as
detectar nas culturas que deram origem àquela em que estes conceitos assim se
exprimem, a nossa, leva Damásio a procurar identificá-las nas culturas da
Antiguidade que, como é hábito considerar-se, lhe deram origem. E conclui que
nem a palavra consciência nem o seu conceito existe em
Platão ou Aristóteles, uma vez que nem nous nem psyche são seus equivalentes. «A preocupação com aquilo a que hoje
chamamos consciência é recente - data, talvez, de há três séculos e meio - e só
vem para primeiro plano no fim do século XX». Diz ele ainda : «Os deuses da
Antiguidade não falam aos heróis dos poemas homéricos em questões de
consciência, mas sim em questões de consciência moral». E acrescenta : «Dez séculos antes de Cristo, as histórias
homéricas supõem a existência da consciência nuclear, mas nunca se fixam
explicitamente sobre ela. Descrevem, indirectamente, uma consciência
inconsciente e dominada pelos deuses, mas a sua verdadeira preocupação é a
consciência moral».
Será que o
Homem precisou de esperar por Freud para, por exemplo, avaliar o significado
óbvio do mito? Será que os gregos eram incapazes de avaliar, de discernir, na pura consciência das
coisas, aquilo que o mito exprime, aquilo que no fundo significa? Por que motivo então, ao constatar o erro que
cometeu, terá Édipo furado os olhos com uma agulha? Apenas porque transgrediu
um interdito, um imperativo moral ditado por deuses que nunca viu? Se assim
foi, qual o significado do interdito? Será que não tem relação nenhuma com a
razão que lhe deu origem? Será que o princípio que o justifica não se funda em
nenhuma observação consciente de nenhum fenómeno da natureza? Acaso mito e
ciência - ambos con-scientia
“alargada” do mundo - não serão formas idênticas de interpretar algo que o
conhecimento decifra e institui como regra? A consciência moral, antes de ser
moral é consciência pura e só pode existir na relação com o Outro ou na relação
do Eu que se projecta, que se desdobra
em outra pessoa. A consciência
ética (do mesmo modo que a consciência estética) é de ordem estritamente
social, não pode existir se não estiverem em causa pelo menos duas pessoas. Uma
vez detectado um problema que pode afectar o Outro, é o conhecimento que
determina a resposta a esse problema e que, impondo-se a uma e a outra pessoa,
acaba mais tarde ou mais cedo por se inscrever nas Tábuas da Lei ou na memória colectiva. Memória que, para se
exprimir, não dispensa os rituais através dos quais o Homem comunica e que, tal
como o próprio Damásio demonstrou em O
Erro de Descartes, também não dispensa a necessidade de existência de áreas
específicas no cérebro destinadas a tratar desse género de coisas : as que têm
a ver com as relações sociais.
Nas culturas
da Antiguidade e ainda naquelas que as precederam, vindas do coração do
continente africano, tal como são conhecidas pela antropologia e etnologia, o
Homem aprendeu a exprimir-se e comunicar simbolicamente. Esse modo de expressão
tanto envolve conceitos como a origem do Universo ou como a do próprio Homem e
revela surpreendentes analogias com mitos de outras culturas mais modernas,
como as da antiga Grécia e forçosamente, por extensão, com certos aspectos da
visão das coisas presentes em sistemas de interpretação que hoje utilizamos e
que são parte integrante da nossa consciência do mundo, da nossa cultura. Pode
mesmo dizer-se, com uma piscadela de olho à ciência, que a nossa cultura anda
de mãos dadas com a nossa biologia. No caso do interdito do incesto, qual a
diferença entre instinto e cultura?
A raposa - le renard pâle -, símbolo do Homem para
os dogons do Mali, mestre da desordem, rompeu o interdito de Amman, o deus que
o criou. Confrontando o Criador, antecipou-se a raposa a ele na criação do
mundo e cometeu o primeiro incesto, não com a mãe (ele não tinha mãe : Amman,
quem o criou, era macho e fêmea), mas
com a sua irmã gémea, Iassidiné. Decidiu Deus puni-lo. Foi-lhe cortada a
língua, privando-o do dom da palavra. Aconteceu algo de semelhante a Édipo que,
por imposição do Destino, tendo cometido incesto com a própria mãe e, por isso,
eliminado o pai, acabou por ficar privado da visão. Se Freud tivesse conhecido
em pormenor a história da raposa não se teria livrado de mais uma grande dor de
cabeça. Um imenso espaço cultural e histórico, ainda mal definido, está pejado
de relatos com surpreendentes analogias, numa forma de ver o mundo que, naquilo
que manifesta de «consciência alargada»,
está muito mais próxima da realidade do que antes a ciência supunha.
Esta forma
ver as coisas é obviamente adquirida pelo indivíduo por via da cultura, tal
como a mais refinada ciência, que, de uma maneira ou de outra, não escapa nem
ao mito nem aos juízos da história. E por essa via no indivíduo se inscreve
como memória e nele age como forma de consciência. Consciência que, para ser
testada, exige toda uma mise-en-scène
que a comprova, tal como a ciência o faz pela experimentação prática : o lado experimental do mito é o rito. Em época
nenhuma o Homem deixou de se confrontar com a necessidade de testar, de ver reproduzidas na prática as suas
convicções ou as suas certezas, condição sine
qua non não só da sua sobrevivência como de todo o seu processo de vida. O laboratório,
para o cientista, é exactamente a mesma coisa que para nós, espectadores, é o
écran da sala de cinema : por razões bem visíveis, ou aderimos ou não aderimos.
A mesma coisa é o espaço cénico do rito para o homem induzido pelo pensamento
mítico. Entre o crer e o não crer interpõe-se sempre a consciência. Mas, tal
como a entendemos hoje, mesmo quando ao seu serviço se aplicam os mais
refinados instrumentos, ela nem sempre funciona (Ver 5 in anexo)..
Os traços
pertinentes detectados nos acontecimentos observados são aquilo que nos permite
identificá-los como fenómeno ou como manifestação significante. Surgem sempre
perante os nossos olhos como espectáculo que decorre no palco do mundo, no
laboratório, no espaço cénico, ritual ou teatral, ou no écran de cinema. É por
os vermos reproduzir-se que os identificamos. Em todas essas situações existe
algo em comum : a sensação de nos
sentirmos a sentir aquilo que
observamos, que resulta da associação de cada uma das coisas sentidas, o tecido
das sensações ou emoções suscitadas por cada uma das coisas, o sentimento proveniente do conjunto das coisas apercebidas.
Trata-se de algo intimamente relacionado com o próprio pulsar do mundo, com a
maneira em como o nosso corpo apreende e sente a coisa que mexe e com a
faculdade que ele tem de registar a memória do movimento, ao ponto de desejar e
ser capaz de reproduzi-lo. O pensamento mítico, como o científico, não se
limita a querer interpretar a sequência causal dos fenómenos, sonha também em
reproduzir o seu movimento. Exprime-se pela reprodução desse movimento, gerado
por um impulso criador que lhe deu origem :
impulso que, por estar na origem de todo esse movimento, não pode ser
representado. Não pode ser representado tal como não podemos representar o
impulso que provoca o salto para a frente da luva de box ou da carantonha
fixada no extremo das réguas articuladas do brinquedo descrito por Eisenstein.
Podemos, sim, representar a ideia que precedeu o impulso, podemos representar o
movimento que segue essa ideia no seu percurso, podemos descrever a mecânica
que o produz, podemos ainda representar o movimento resultante do tal impulso
que lhe deu origem, mas o impulso criador do movimento não é representável. A
mesma coisa se passa quando, no mito, o Homem pensa a criação do mundo : nenhum mito explica o impulso do
Criador, nem talvez mesmo a ciência o queira fazer. No mito, o que as cosmogonias fazem é mostrar como tudo se passou a partir do
gesto primordial. Através do rito, reproduzem e ilustram o movimento da criação,
aquilo que está na origem de tudo, mas não vão além disso. Até mesmo na ciência
moderna o Homem, ciente dos seus limites, nada dá como certo para além do Big
Bang. Não deixa de ser perturbadora a estranha analogia nem as subtis
convergências (basta pensarmos na visão das nossas origens, moderna ou arcaica)
entre essas duas formas de vermos as coisas : mythos e scientia.
A sensação
de nos sentirmos a sentir - que nos permite traduzir por palavras o fenómeno da
consciência - exige que uma determinada coerência se estabeleça entre todas as
coisas sentidas. Resume-se isso no sentido da harmonia que descobrimos - ou que
inventamos - na relação tecida entre as várias coisas que sentimos, e que por
vezes desejamos reproduzir.
Para pôr à
prova a veracidade do registo, como a ciência faz o para demonstrar, o mito
exprime-se pondo-se a significar. Revela-se sempre pela Palavra, que se
manifesta no rito. O rito faz surgir e
revela os conceitos contidos no mito, associando-os, fazendo-os aparecer em
movimento, causado por algo que lhes deu origem. Encena-os de um modo
característico, criando metáforas, não da sua causa mas do seu efeito.
Articula-os sempre em sequências representativas, que são o efeito visível
daquilo que os produziu, com os mesmos agentes,
com as mesmas máscaras, com o mesmo ritmo, com a mesma música, exibindo, demonstrando sempre do mesmo modo a mesma
verdade : usando o mesmo filtro. O que é sempre, e ao mesmo tempo, algo
formador e deformador. Para confirmar aquilo que se vislumbra, o mesmo que o
mito faz … faz a ciência com outros filtros.
Mais que
duas formas particulares de consciência, temos duas formas distintas de pensar
: uma em que o pensamento é permissivo à subjectividade, a outra em que a filtra com maior ou menor rigor. Em
maior ou menor grau, não dispensamos estas formas de pensamento. Não podemos
viver só com a ciência ou só com o mito. Perante os nossos olhos, não pára de
mudar o aspecto das coisas, ora nos convém mais vê-las de uma maneira ora de
outra. Por vezes tudo se complica : de
tão excitados que estão, ou os pensamentos se põem de acordo ou … alguém decide
por eles. Melhoram as ferramentas, progridem as técnicas. Ambas as nossas formas de pensar delas se
aproveitam e tanto mais eficazes se tornam quanto maior a eficácia do filtro
que nos garante a objectividade do raciocínio ou a visão clara : no logos como no mythos, ou entre um e outro. Às tantas complicam-se de tal modo as
coisas que nos vemos aflitos.
Esse filtro
é o mais refinado instrumento de que dispomos e, no essencial, funciona como a
máquina de filmar. Trata-se de um instrumento constituído por uma óptica e uma
mecânica apuradas, a partir do qual uma
consciência se projecta para a frente e - logo que o reflexo se exerce,
logo que a reflexão física se cumpre, logo que a imagem projectada é devolvida,
a uma determinada velocidade - logo ela acaba por regressar ao ponto onde se
exerceu o impulso. Registada a
experiência, à medida que avançamos, o instrumento aperfeiçoa-se, torna-se cada
vez mais apurado, com um senão : a
inovação obriga a que certas memórias em jogo - com o seu grão específico, com
a sua específica tonalidade - sejam
remetidas para os arquivos, da mesma maneira que os velhos filmes.
Aperfeiçoa-se a mecânica, evolui a técnica, mas sempre com percas arriscadas.
Permitem-nos
as técnicas de observação que desenvolvemos atingir diferentes graus de
objectividade e de qualidade a cada avanço. Passa-se isso na mente e, por
reflexo, em tudo aquilo que ela produz, mito ou ciência. Mais rigorosas ou
menos rigorosas, mais eficazes ou menos eficazes, exercemos essas técnicas e
desenvolvêmo-las para as pôr ao serviço da verdade que procuramos. Entre mito e
ciência, na crença em todo o caso, entre confirmação e descoberta, situa-se o
Homem no mundo.
Tanto o
shaman como o cientista são intérpretes, ou procuram sê-lo. Recorrem aos mesmos
métodos para produzir ou reproduzir a revelação, que melhor que o comum dos mortais ele sabe
decifrar. Produzindo ou reproduzindo essa revelação, nalgum ponto ele se
associa ao agente que produziu o impulso causador das associações. As
associações que estabelece conduzem-no forçosamente à sua origem. A questão
central é que, ao atingir a origem do impulso, ele descobre logo que na manifestação desse impulso existem sinais
de outro agente, o agente donde proveio o impulso que o gerou, o impulso
precedente, ocorrido num momento anterior. Na sua manifestação, esse impulso
gera formas como as de um rosto : vagas, tímidas, hesitantes, que se vão
exibindo pouco a pouco. Percebe logo que, por detrás dessas formas, se esconde
um agente desconhecido, cujos traços fisionómicos lhe mobilizam a atenção. Fixa
nele os olhos.
seguir a intriga
sondar o personagem
Tudo começa
com uma aparição. Todas as manhãs, enquanto escrevia, Charles Dickens esperava
que lhe aparecesse Oliver Twist. A Goethe, cada uma das imagens que lhe surgia
pela frente dizia-lhe : «Aqui estou eu!». Certo dia Raphael recebe em casa uma
visita inesperada : A Madona da Capela Sixtina. Miguel Ângelo queixava-se que
certas figuras o perseguiam de tal maneira que ele não tinha outro remédio
senão fazê-las surgir na pedra. «O actor e o encenador não escapam a esta
regra», diz Michael Chekov. Surpreendidos, vemos surgir essas imagens sem as
termos solicitado. Porque é que elas surgem? Surgem só por isto : porque
precisam de quem as crie. Quando elas surgem, basta que se lhes faça umas
perguntas, tal com faríamos a um amigo. «A partir de um estado de espírito
passivo, as imagens transportam-nos a um estado de espírito criativo. Tal é o
poder da imaginação» (17).
Esta
convicção é o traço distintivo do método que M. Chekov preconizava como
essencial no trabalho do actor. Nisso, é sua convicção, dá um passo em frente
em relação àquilo que lhe dizia o mestre, Constantin Stanilavski, que o
considerava, apesar de certas desavenças, o seu «melhor aluno». Na formação do actor, Stanilavski preconizava
um processo em dois tempos : um primeiro trabalho baseado na memória pessoal do
actor e, só depois, o consequente trabalho sobre o papel a desempenhar, com
recurso à imaginação, assimilando e desenvolvendo o corpo do personagem a
partir da matéria recolhida na fonte, a matéria de que é constituído o próprio
actor. Chekov vira o método do avesso : em primeiro lugar está a imaginação.
Isto é, primeiro faz-se uma projecção imaginária do personagem, a sua primeira
representação, em esboço. Segue-se a observação dessa representação, pouco a pouco, que se torna cada vez mais
apurada. Só depois se faz a assimilação corporal de tudo aquilo que de
representativo ele possa retirar dessa projecção.
Como muito
boa gente, Chekov, tinha um ladinho perverso. Tendo-o como aluno, Stanilavki
manda-o representar uma cena da vida real, num exercício da memória sensorial.
Fica siderado com o resultado e pergunta-lhe em que vivência ele se apoiou.
Responde-lhe Ckekov que, para conseguir obter a autenticidade da representação,
se baseou no funeral do pai. Abraça-o Stanilavski, comovido : era a prova mais
evidente da eficácia do seu método. Mas desilude-se passado algum tempo : o pai
do aluno, gravemente doente, ainda não tinha morrido.
No primeiro
caso, é a recordação sensível de um facto vivido que leva o actor a encontrar-se
com o personagem. No segundo, é uma representação fictícia aquilo que
desencadeia todo o processo. Qual dos métodos terá servido ao lagarto que se
pôs a voar? No caso de Stanilavski, como
no de Steinberg - no desenho do homem que se desenha, do homenzinho que «sai de
si» - produz-se um efeito decalcado sobre um objecto, sobre uma certa forma de
comportamento, uma imagem que se reproduz. No caso de Chekov consiste o segredo em produzir antes de mais
nada a imagem virtual de um ser que nunca existiu, mas que pode existir.
Trata-se no primeiro caso de impressionar o espectador pela força da analogia.
No segundo caso, o objectivo é «conquistar o público», «transgredindo as
intenções do autor e as da peça».
Para M.
Chekov o que importa, em primeiro lugar, é «uma extrema sensibilidade do corpo, que lhe permitirá responder a todos os impulsos criadores do espírito».
É pelo interior que se terá de
«remanobrar», de «refazer» o corpo. O que em segundo lugar importa é «uma vida psicológica intensa». «A
aliança de um corpo sensível e de uma psicologia rica e variada, uma coisa
completando a outra, cria esse estado de harmonia indispensável ao bom
cumprimento do ofício». Diz ele que todas essas experiências de «substituição
de personalidade» tornarão o «comportamento mais sensível e vivo». Por fim, a
terceira qualidade indispensável do actor é «uma submissão total do corpo e do espírito à sua vontade». Para que o
actor possa obter esse efeito, recomenda vários exercícios, como esculpir (isto é : «Vou modelar no ar
formas que serão desenhadas pelos movimentos do meu corpo»), ou como flutuar (o que quer dizer : «Os meus
movimentos flutuam no espaço,
fundem-se harmoniosamente uns com os outros»)
e ainda um outro : «Imaginem que o vosso corpo voa no espaço. Uma vez mais, deixem que
os movimentos se fundem um no outro, que sejam bem desenhados». Recomenda M.
Chekov : « … projectem sem interrupção e para a frente essa força irradiante que deve emanar do
corpo e preceder, prolongando-os, todos os vossos movimentos». A estes
exercícios, que têm como objectivo a tomada de consciência do movimento, deve
seguir-se mais um, que tem a ver com seu contrário, como por exemplo, estar
sentado. Estando sentado, pode o actor perguntar a si próprio : como é possível
«continuar ele a sentar-se quando já está mesmo sentado»? A resposta é simples
: estando «fisicamente» sentado, ele continua a sentar-se «projectando na sua frente a intenção
que lhe motivou o acto». «Este exercício deve aplicar-se a todos os movimentos
que terminam com uma posição estática.
Cada movimento deve ser precedido e seguido dessa projecção».
Esta série
de exercícios, que tem por fim conseguir o actor submeter o corpo e o espírito
à sua vontade, inicia-se com dois outros. Começa o actor a mover-se com
movimentos amplos, utilizando o máximo de espaço em redor de si. O que se lhe
segue, coisa essencial, é «Imaginar que existe dentro de si, no peito, um centro donde parte o impulso que comanda
cada gesto, sentir esse centro
imaginário como sendo a fonte de uma actividade intensa gerada no interior do
corpo, um motor poderoso». Esse
motor, aquilo que nos faz mover no espaço, deve preceder o movimento : «devemos sempre projectar a intenção
instantes antes de executar o movimento». É esse motor que nos permite
aproximar-nos de «um corpo ideal». Ao movimento que o desenha chama-lhe ele gesto psicológico.
Através do
movimento gerado pela intenção que está na sua origem, sente-se o actor «fisicamente e psicologicamente
metamorfoseado - digo mesmo, sem
hesitar, possuído : possuído pelo personagem». A transformação acabará por
ser total.
Transforma-se,
por inteiro, o actor no personagem. Vai Chekov um pouco mais longe. Estas
«…transformações consideráveis, a que não se pode escapar, operam no campo da
consciência, sob a acção desse novo eu.
Trata-se de um si superior, a que
Damásio chamaria o «si alargado» que, no processo de evolução da consciência do
Homem, surgiu depois do «si nuclear». Diz Chekov que, no fundo, ele «enriquece
e alarga a consciência». Através dele podemos saber que existem em nós «três seres diferentes». Um deles é «o
material de base» - o tal si nuclear
- a partir do qual o «si superior» - o do artista - cria um personagem. Algo
inscrito na matéria do corpo, ao exercer-se, «pura e simplesmente toma posse
desse material de base». Começamos nesse momento a sentir-nos acima do «si
quotidiano», o si biográfico, se
fosse Damásio a falar. Quando, entretanto, o si «alargado» (a expressão é de
Chekov) entra em jogo, «desdobramo-nos e tomamos consciência do papel
desempenhado por esses dois sis». O
terceiro ser existente em nós, é essa «terceira consciência» : «É
simplesmente a consciência do personagem criado. É mais que uma pessoa
ilusória, não só tem vida própria como é um
si independente. A personalidade artística empenha-se em dar-lhe
amorosamente essa vida enquanto o representa». Curiosas coincidências.
Dessas três
pessoas, qual delas se projecta? Qual delas afinal acaba por dominar no écran?
Será a que se oculta no escuro, lá no fundo? Será aquela que costumamos ver
todos os dias? Ou será apenas o outro,
o obstinado personagem que o actor
persegue na sua ideia?
Chamam-lhe actante. É homem, bicho ou coisa.
Também pode ser os três. Etimologicamente é o que põe a mexer as coisas. Por
vezes é a própria coisa que mexe. Regra geral, tudo começa quando ele surge.
Começam a
mexer as coisas quando alguém surge quebrando a placidez da paisagem,
entrando-nos pela porta dentro ou acordando da sua sonolência, caso esteja a
dormir ao nosso lado. Começam a mexer as coisas quando no meio da paisagem
vimos surgir o bicho que nos espia ou que nós avistamos. Tudo começa a mexer
quando de repente damos de caras com uma coisa qualquer, desejada ou não, que
se agita ou se manifesta à nossa frente. O que se seguirá depende regra geral
da intensidade da acção que o actante exerce sobre o meio-ambiente mas
dependerá também da qualidade daquilo que o faz mover no desencadear da acção.
Pode ser a
acção desencadeada por um actor,
entidade ou indivíduo, caracterizado por um maior ou menor isomorfismo na sua
relação a um ou mais dos actantes que representa. E, quando o actor surge,
desencadeia sempre um mecanismo que Greimas designa por «modelo actancial»,
modelo sintáctico que reproduz o modelo canónico de comunicação, em que o sujeito é o actor :
destinador à
objecto à
destinatário
Î
adjuvante à
sujeito ß
oponente
Introduz-se
o actor como objecto na comunicação, mantém-se activo ao longo do discurso, carrega-se de sentido, cola-se a
paradigmas, faz certas coisas de uma certa maneira, caracteriza-se, tem um
nome. E percebe-se bem quem ele é pelas relações que se estabelecem entre
aquilo que diz e aquilo que nele ouvimos
dizer, entre quem o segue e quem o contraria, entre aquele com quem ele se
identifica e aquele com quem se confronta. Dizer ou não dizer, poder fazer ou
não poder, eis a questão : ser ou não ser, uma coisa ou outra.
No rito em
que domina a sociedade das máscaras - em que cada actor desempenha um papel
simbólico, em que representa algo inscrito na ordem do mundo, em que cada um
deles é uma das peças do processo que
fixou a ordem estabelecida - as respostas às questões que o mito suscita são
dadas à partida. Mal as máscaras saem da caverna, ficam logo em frente dos nossos
olhos. E só por quem não foi iniciado, só por quem desconheça a convenção, só
por quem não tenha aprendido o seu seu significado, é que elas não são
apreendidas : a máscara X reproduz o
movimento do sol e das estrelas, a máscara Y a rotação da terra. São as
máscaras que falam e nos dizem quais os elementos que estão em jogo, que lugar
eles lá ocupam e porque razão lá se encontram. Ao vê-las dançar, temos de saber
o que significam.
Mas por
vezes quer o indivíduo saber mais que isso. Há certas coisas que a convenção
não explica. Por vezes tem o crente certas dúvidas, por vezes é perturbado por
razões para as quais não encontra resposta no mapa do visível pelo qual se
guia. Não lhe dão as Tábuas da Lei a solução que procura, mas pode encontrá-la
nas «tábuas da raposa». Pode também
encontrá-las no transe : na boca do adivinho ou nas palavras que, na sua
própria boca, são pronunciadas pelo ente que o possui. Num e noutro caso é no
Invisível que as encontra. Pode bem encontrar as respostas no apelo assim feito
ao deus da natureza ou ao antepassado (alguém que o antecedeu no mundo,
detentor de um certa ciência, de um
certo bom senso, depositário de verdades ancestrais), por quem acaba por ser possuído. Procura assim alcançar o saber de
outro modo : fazendo seus os olhos do deus ou do antepassado, dando-lhe o seu
próprio corpo. Torna-se ele o «cavalo» e o outro, deus ou antepassado, o seu
«cavaleiro». Não é o agente mascarado que lhe responde, é um outro. É quem o
encarna e o anima no transe, no que ele tem de mais profundo : ele mesmo. É um
outro com os seus próprios olhos, olhos nos olhos, corpo no corpo. Sem máscara.
Inicia-se o
ritual, cria-se uma certa tensão, acumula-se uma determinada carga e de repente
algo acontece, algo se revela. No ritual simbólico, em que as máscaras dominam,
surge o personagem inscrito na ordem do mundo, o actor mascarado que por ele
fala. No indivíduo em transe surge o
rosto do «cavaleiro», em carne e osso. É alguém que foi chamado e que
através dele comunica : numa voz rouca, às vezes numa língua desconhecida.
Interpreta-o o demiurgo, tal como o adivinho interpreta os sinais das patas da
raposa - que não sabe falar - impressos de noite nos quadradinhos das «tábuas»
que no dia anterior ele desenhou na areia com o dedo. Com toda a sua ciência, o
adivinho - como o sacerdote - interpreta
reproduzindo aquilo que lhe indica a raposa, o deus da natureza ou o
antepassado. Mas tanto num caso como no outro, no ritual em que dominam as
máscaras e naquele que desencadeia o transe, é o mesmo elemento que produz a
revelação : o movimento.
Trata-se de
uma maneira de ver as coisas característica de certas culturas que precederam as nossas. Trata-se
de insuspeitáveis analogias entre aquilo que viam certos dos nossos
antepassados e aquilo que nós vimos hoje em dia. Os construtivistas russos do
início do século XX foram as primeiras pessoas a ter uma clara consciência
dessas coincidências. Dizia Koulechov que «o corpo humano, como todo o ser
vivo, em certas situações do processo vital, tem tendência a aumentar a sua
superfície, outras vezes, pelo contrário, a reduzi-las : por outras palavras,
pode encolher-se ou estender-se». Mesmo sendo esses movimentos executados com
certos desvios, podemos sempre detectar «a linha geral» que eles adoptam. Todo
esse processo se desenrola numa
alternância de tensões.
Na terceira
parte de uma célebre conferência de Poudovkin (18) em que fala de «tipos em vez
de actores», descreve ele a experiência que fez com Koulechov. Usando grandes
planos de Mosjukhin, planos estáticos e sem qualquer expressão, resolveram eles
avaliar o efeito da sua associação com outros bocados de filme. «Na primeira
combinação, o grande plano de Mosjukhin era imediatamente seguido do plano de
um prato de sopa em cima de uma mesa : era certo e seguro que Mosjukhin estava
a olhar para a sopa. Na segunda combinação o rosto de Mosjukhin foi associado
ao plano de um caixão com uma mulher morta. Na terceira, ao grande plano do
actor seguia-se o de uma rapariga a brincar com um ursinho de peluche. Quando
mostrámos as três combinações a um público que nada sabia do truque o resultado
foi espantoso. Sentiram-se siderados com a representação do artista» : o seu
estado de alma diante do prato de sopa esquecido, a tristeza com que fixava a
mulher morta, o pequeno sorriso feliz com que olhava a criançinha. Mas faz ele
notar ainda outra coisa : «É necessário
controlar-se e manipular-se o comprimento desses segmentos na medida em que a
combinação de segmentos de comprimentos diferentes age do mesmo modo que as combinações de sons de diferentes
comprimentos musicais, criando o ritmo do filme em função do efeito que ele
produz no espectador. Segmentos curtos e rápidos causam excitação, enquanto os
segmentos longos provocam um efeito de calma».
Koulechov
generalizou as conclusões tiradas dessa experiência desenvolvendo não só dois
conceitos, o do rosto-máscara e o do rosto-máquina como ainda, para o corpo
do actor, o do homem-máquina. E
estabelece esta regra : «… a expressão
de um qualquer sentimento dos modelos em cena modifica-se (no écran e não na representação feita em frente da máquina
de filmar) em função do fragmento com o
qual se associa na montagem (19). Podemos afirmar que no teatro
existe uma lei semelhante que, no entanto, se exprime de um modo completamente
diferente. Se colocarmos uma máscara no rosto de um actor e lhe pedirmos que
adopte uma pose de tristeza, a máscara acaba por exprimir tristeza, se ele pelo
contrário assumir uma pose de alegria logo sentimos que é alegre a expressão da
máscara». Faltou a Koulechov acrescentar que o mesmo efeito se produz com a
máscara ritual, como o mostrou Germaine Dieterlen, na descrição que faz da
máscara do Komo, máscara ritual dos Bambara (20). A máscara do Komo, rígida
como todas as máscaras africanas, é feita de três conjuntos : patas de
elefante, que simbolizam as traves ou os alicerces do mundo, capote de penas de
abutre que comporta os duzentos e sessenta signos da criação e uma cabeça. A
cabeça é constituída por uma boca de crocodilo, crânio de hiena e cornos de
antílope. Cada um dos elementos que constituem a máscara simboliza os vários
aspectos da criação do mundo e todo o seu significado se reflecte nessa cabeça.
Pela metonímia, nela se concentram os
elementos significantes mais fortemente representativos, sendo o mais
relevante, no alto da cabeça, os cornos de antílope : o relâmpago da criação.
Pode
extrair-se duas conclusões desta reflexão : integrado na montagem, o
rosto-máscara (a cara de cera de
Mosjukhin) é assimilado à máscara do actor. «Deste modo o contexto resultante
da montagem em que se insere o grande plano do rosto do modelo torna-se algo
como um corpo, funciona pelo menos como um corpo». Por outro lado, ao retirar o
seu próprio significado desse corpo, a máscara deixa de ser um simples rosto :
dissolve-se no corpo, é o seu prolongamento. «O corpo é já possuidor dessa tal
mobilidade mecânica que está em causa e projecta a expressão dessa mobilidade
no rosto-máscara estático. O rosto torna-se então um apêndice, um órgão do corpo»
(21).
Funcionam
assim também as máscaras rituais, embora no rito o rosto do actor, que não existe como pessoa, mas
apenas como símbolo, use uma verdadeira máscara. O seu significado só se
manifesta no movimento : no movimento do corpo de quem a usa, integrado no
movimento geral da dança, que produz um efeito, que ilustra uma intenção. Cada máscara representa um dos elementos activos
da criação ou da ordem geral do Universo. Cada uma delas só pode ter
significado na associação que se estabelece entre esta e os elementos que estão
em cena, no contexto em que age a máscara, na relação que o movimento geral
estabelece entre cada uma delas e todas as outras que dançam. «Un
masque, ça danse!» (Germaine Dieterlen). Sem isso ela não existe. Só existe
porque a vemos dançar e assim a desejamos ver.
Age o rosto
de Mosjukhin não simplesmente porque ele lá esteja e a ele se cole outra imagem. Não é questão mecânica. Age o rosto
de Mosjukhin porque o estamos a ver :
porque o vemos e nele desejamos ver aquilo
que ele vê, porque desejamos
sentir aquilo que ele sente.
Vendo-nos ao espelho : vendo
também um pouco do que por ele sentimos. Sem isso nada se passa. Com
expressão ou sem ela, seria o mesmo o efeito de montagem.
O rosto
humano só existe quando o olhamos. Só existe porque o olhamos e nele avistamos
o espectro do nosso rosto. Só existe porque o vemos e ali estamos, diante dele,
como diante de um espelho. Borrão de um rosto, objecto puro, a máscara, nos
seus traços, nos seus olhos vazios,
apenas revela aquilo que nela procuramos, aquilo que nela desejamos ver
: por vezes aquilo que ela oculta. Na sua boca meio aberta, ouvimo-la
pronunciar aquilo que nós diríamos no seu lugar. Nos ouvidos que ela tem, mesmo
sem os ter, ela ouve o que nós ouvimos. Nada disto se passa se porventura ela
tiver os olhos fechados, se a sua boca não estiver pelo menos entreaberta, se a
máscara não tiver um vislumbre de vida : estamos perante a figura de um morto
ou de alguém simplesmente a dormir.
«Un masque, ça danse!». Quando uma
máscara dança, é porque simplesmente alguém existe que a vê dançar. Se ninguém
a estiver a ver quer isso dizer que nada existe à sua volta, que o mundo que
lhe deu origem deixou de existir. Se uma hecatombe arrasasse tudo o que nos
rodeia, ficava como uma máscara de madeira o nosso rosto : olhos vazios, boca
petrificada no silêncio envolvente. Para lhe darmos vida teríamos de nos ver ao
espelho, criando assim um outro rosto que pudesse ver, dizer e ouvir tudo aquilo
que nesse trágico momento estivéssemos a ver, a dizer e a ouvir. Deixando tudo
à nossa volta de existir (deixando nós de poder sequer usar o espelho, deixando
até de existir o simples movimento de o
erguer, não nos podendo sequer confrontar com o nosso simples reflexo)
acabaríamos pura e simplesmente por deixar de existir, regressando ao momento
zero, dissolvendo-nos no vácuo.
O «efeito K»
só pode produzir-se se pelo menos estiverem em jogo não dois mas três planos, o da coisa, o do rosto e o
seu contra-campo : o nosso. São pelo
menos necessários estes três planos
para que, no écran, as associações produzam o seu efeito. Como no caso de
Mosjukhin, somos sempre tentados a não deixar escapar um rosto. Um rosto, de
resto, tem sempre uma forma espectral, uma máscara perturbadora, em que são
visíveis alguns dos traços que definem o
nosso próprio rosto.
não o perder de vista
Como de todo
não conseguimos sentir o sentir do outro nem ver a sua consciência (o sentir é
por natureza individual) o único modo que temos de o apreender é segui-lo pelos
sinais que dele emanam, pelos sinais daquilo que com ele se passa, daquilo que
nele se manifesta, e em particular no seu rosto. Para nos aproximarmos da sua
verdade, do que verdadeiramente ele sente, só avaliando as manifestações
externas do seu sentir. Para podermos avaliar o que ele sente, estabelecemos
uma relação de analogias entre o que o vemos fazer, o seu modo de agir, o que
ele parece sentir e entre aquilo que nós próprios sentimos, aquilo que mexe
dentro de nós e nos obriga a segui-lo, a querermos tê-lo debaixo de olho. Para estarmos bem cientes das coisas, não
podemos perder o actante de vista. Não só não o perdemos de vista como lhe
seguimos o ritmo. Não o perdemos de vista não só por ser ele o actante mais ainda por encarnar um
agente que nele se esconde. Não o podemos perder de vista por isso, pela
actividade que desenvolve, pela missão que cumpre, pelas consequências dos seus
actos. Temos de ser ágeis nessa perseguição. Podemos perdê-lo de vista quando
se esconde, quando se esquiva, ou quando ele próprio se perde. Essa dança, de
avanços e de recuos, de encontros e desencontros, tem por vezes movimentos bem
sustentados, bem sucedidos.. Mas nunca
numa dança dessas deixa de haver desencontros. A coisa muda, e até pode mudar
de repente : quando de súbito o agente desaparece. Ou simplesmente quando nós,
enfadados com o enredo, saímos da sala.
Mesmo que ele teime em lá ficar, no seu cinema, se a gente sai o filme
acaba : termina a dança.
Perde-se o
actante no sonho : no tal sonho que o persegue ou naquele que invade o écran
quando o perseguimos. Por muito atentos que possamos estar, acontecem-nos
sempre destas coisas. Às tantas, perdemos o fio da meada e o olhar não nos
basta. O que se perde no meio da intriga, perde-se no tempo : torna-se em nós
inconsciência. Nessas alturas tudo se baralha. É assim a vida : as coisas não
param de mudar, a cada passo nos escapam. No mundo em que vivemos, nos dias de
hoje, é pior ainda. Não só mudam profundamente as coisas, os personagens que
nos rodeiam, a sua aparência, como também não param de mudar as nossas pátrias,
os nossos locais de encontro. Por isso nos importa tanto o cinema, onde por
vezes as reencontramos com tudo aquilo que esquecemos (com tudo aquilo que
ficou perdido e que estava longe da vista, adormecido).
Pode a
figura que nos desperta ter diversas espessuras. Tanto pode ser o actante
numa história que só a nós diz respeito
como o de uma intriga pública. Além de uma determinada espessura, tem todo o
actante uma amplitude própria. Sobretudo se está implicado em casos que
interessam a toda a gente. Tanto num caso como no outro, entretanto, o
interesse que lhe dedicamos depende sempre da importância dos seus actos.
Perante isso, tudo nos leva a ter de apreender bem os seus traços e seguir bem
o seu trajecto. Tudo nos leva a tudo fazermos para dele extrair com precisão,
além da imagem singular, o seu padrão.
Tudo nos leva ainda a bem avaliar as possíveis consequências dos seus actos.
Factores determinantes para qualquer atitude acertada, se tivermos de reagir.
Factores determinantes da intensidade da intriga. Factores determinantes da
nossa sobrevivência, tanto na vida como no cinema. Factores determinantes ainda
do ponto que marcará o ritmo da dança quando de novo o actor surgir.
São
sentimentos de inquietude os que nos assolam quando o personagem se dilui na
intriga. O que é que ele trama? O que é que ele esconde? O que nos espera? A
atmosfera, que domina, ainda que tensa, induz-nos numa certa lassidão. No écran
revela-se agora menos a acção que o estado das coisas. E o estado das coisas
induz sentimentos. Como farinha amassada, as
emoções, geradas pela intriga, tornam-se matéria dessa. É nesses
momentos em que os registos que eu, o espectador, fiz do personagem se
confrontam com essa massa sensível, algo que o meu corpo segregou. Algo de
informe que, no mínimo, me faz sentir se
a situação decorrente me agrada, se gosto ou não do personagem que
avisto. Algo que marcará a pose do meu corpo quando de novo ele surgir, quando
um primeiro sinal, um primeiro motivo ou um primeiro batuque me indicar qual é o ritmo a seguir. Quando de
novo entra em cena o actante também o
expectador, o actor previligeado, de novo «sai de si». E, tal como o actor,
talvez surja do seu estado anterior exibindo um novo traçado, comportando uma
nova tendência, um novo sentido, exibindo novos sinais. O que poderá alterar o movimento, inspirar nova
coreografia. Nesse jogo perverso, eu, o expectador, o agente externo, o tal
actor privilegiado, não só registo e intertreto a imagem que surge como também
a sigo no seu movimento. Assim a avalio : em cena, numa coreografia feita de
avanços e recuos entre o ponto onde me encontro sentado e o écran, entre o
lugar da narrativa que ocupo num certo momento e aquilo que os meus olhos
alcançam.
Bruscamente
sacudidos, de súbito acordados por um raio de luz, por um som, um efeito se
produz : um salto do coração, seguido de determinadas vibrações que nos
percorrem todo o corpo. No rito – na vida ou no cinema –, o
ritmo que nos sacode, acordando-nos um pouco mais a cada imagem, a cada
som, a cada nota, põe-nos o corpo a bulir, dando vida à ideia que o anima.
Apanhando o ritmo, voando no espaço, interpretando o ponto, posso dançar a sós
com as minhas próprias imagens, mas acabo sempre por me pôr a dançar com os
outros fantasmas, com as imagens que dos outros emanam, com as imagens que
deles me chegam. Às tantas o ritmo
cresce, as notas falam ao som de uma
certa música que, mesmo que não se ouça, ressoa.
Toda a
agitação, todo o movimento requere a medida certa, o registo justo, para
produzir em nós um determinado efeito. Essa medida, caprichosa por vezes, tem
padrões, como qualquer lembrança. Encontra-se ela gravada no nosso corpo. Cada
corpo tem o seu ritmo e todos os corpos idênticos têm um ritmo certo. Como numa
fita métrica, essa medida situa-se entre dois extremos : nenhuma medida existe
antes do ponto zero nem para além do outro extremo. Para além desses extremos,
de um e outro, temos de aplicar de novo o metro : o padrão, a medida do nosso
reconhecimento, a mais certa referência do nosso corpo. Somos sempre, de uma maneira ou de outra,
obrigados a isso.
Mas afinal
qual é a medida-padrão do corpo? Se reflectirmos um pouco logo acabamos por
descobrir que a temos no peito, no tal centro onde o actor se concentra e de onde sai o personagem, de onde ele sai de si, o centro imaginário a partir
do qual, com dizia Michael Chekov, ele irradia
: no coração. A medida certa é o seu batimento. Não é aí que se produzem
todas as vibrações, todas as variações, todas as subtilezas da música e do
movimento? Com todas as possíveis nuances à volta do mesmo tema, no seu ritmo
de tambor africano, com todas as possíveis transformações desse batimento? Não
é aí que se geram os novos ritmos quando a eles se associam tonalidades com que
a emoção de súbito os anima e subtilmente os enriquece? Não interage porventura
esse nosso batimento com os batimentos da pessoa com quem nos cruzamos ou com
cujo olhar simplesmente se cruzam os nossos olhos? Não é em momentos desses que
nascem os novos os ritmos?
Encarna-se a
ideia no corpo como consequência do primeiro
movimento. Tudo o que se segue é o efeito causado por isso. A ideia, que
irresistivelmente se move, toma posse do corpo. E, na sequência disso, exibe-se o corpo, actuando. Torna-se a
ideia espectáculo. E tanto pode ser o
espectáculo projecção do sonho como projecção da vida.
Testadas na
prática as teorias da vanguarda soviética, na época heróica do cinema, nas
vésperas do sonoro, uns dez anos antes de René Clair filmar «Sous les toits de
Paris» (1930) - «o mais belo filme do mundo», filme que deriva entre esses dois
extremos - parte Flaherty para as gélidas paragens em que o Homem luta
desesperadamente pela sobrevivência. É sua ideia desvelar a imagem exótica de
quem lá habita e, confrontando-a com a sua própria imagem, produzir o
movimento - a dança - em que uns e
outros, eles e nós, se revêem, em que as
imagens de uns jogam com as imagens dos outros, em que uns descobrem os outros
e se emocionam. Pela importância do que assim põe em causa no écran, consegue,
com intenção ou sem ela, dar uma amplitude máxima à máscara que revela. Com as
imagens que traz dessas paragens, comove milhões de despojados por todo o lado,
de um extremo ao outro da Terra, gente que sonha com um viver um pouco menos
frio : os que «buscam o esquecimento em obscuras salas» de cinema, sentindo-se
reconfortados apenas com o calor que o corpo dos outros irradia, os que estão a
seu lado. O confronto com a vida é inexoravelmente nutrido pelo extravagante
desejo de a descobrirmos em todo o seu mistério : serenamente. Nesses momentos de abandono, nesses lânguidos
estados de alma, nessas pausas algo reconfortantes na luta pelo pão de todos os
dias, um desejo de saber se impõe, exigindo uma resposta : como vive o Outro?
De que pessoa se trata? É uma espécie de luxo esse salto para a frente do
imaginário, esse inútil voyeurismo de quem não vive como merecia. É um mesmo
desejo que os toca a todos, na sala de cinema, que os leva ainda a querer saber
como vivem aqueles que conseguem superar as necessidades básicas de
sobrevivência.
Às tantas,
com o desenrolar do filme, põe-se o espectador a seguinte questão: «E eu?» Que
mundo é o seu? Esse mundo que não pára de impor o confronto, mesmo já na era do
sonoro? Viver a vida passa a significar, a certa altura, usar a câmara como um
arma (Ver 6 in anexo)..Em França, para jovens
irrequietos, que entretanto se tinham arrepiado ao ouvirem ao longe os tiros de
canhão, confrontar as coisas significa
perder o fôlego. Jean Luc Godard : «A bout de soufflle» (1959). Signfica viver
a vida pelo prazer de a viver, um luxo que vale a pena ser vivido : «Vivre sa vie», 1962. Significa sentir a
liberdade até à vertigem : «Pierrot le fou» (1965). Significa usar a câmara com
o mesmo desprezo irreverente que nutrem certos heróis negativos, homens ou
mulheres, por vidas opacas em que já não há heróis a sério. Personagens que
também surgem na ficção científica, mas noutro género, em film
noir, num mundo em que já todos os
heróis se sumiram : «Alphaville» (1965) (Ver 7 in anexo).
Esvai-se o sonho. Atenua-se o desejo. Em certos momentos da história, tudo se
encrua. O que nos move, neste caso, acaba por ser o desejo de não vermos aquilo
que nos é dado ver.
seguir o fio das coisas
No dia 12 de
Junho do ano 2000, no Rio de Janeiro, um tipo tresloucado, que bem podia ter
saído de um filme de Godard, entra num autocarro da carreira 174 e, de pistola
na mão, faz reféns todos os passageiros. Apresenta sinais de perturbações
mentais e a situação torna-se dramática. O acontecimento é seguido em directo
pela televisão.
Um dos
passageiros, uma jovem universitária, é forçada a deitar-se no chão pelo
assaltante que, ameaçando matar toda a gente, lhe encosta a arma à cabeça ... e
dispara. Mas não a mata, aponta para o lado, só pretende assustar. O drama
prossegue, a tensão aumenta. O homem acaba por saír do autocarro com a pistola
apontada à cabeça de outra jovem refém. Um polícia precipita-se, atira para o
abater, mas falha. O assaltante responde fazendo saltar os miolos da rapariga.
É finalmente detido, incólume, pela polícia que o leva para a esquadra e que no
trajecto, por sua vez, o assassina.
Durante o
assalto gritava o assaltante : «Isto aqui não é um daqueles filmes que se
passam na televisão, não! Este é o meu filme, fui eu quem o fiz! Olha só como é
que eu estouro a cabeça dela!» Remata a jovem ameaçada : «Eu acabara de sair da
faculdade e comia uma sanduíche a caminho do estágio. Quero dizer que a minha
história não nasceu história. Aliás, qual nasce? Presunção é pensar que uma
história se conta. Uma história se monta. Isto é, se sobrevivermos a ela. Só
então pode virar narrativa, organizada em palavras. Montar, porém, não
significa mentir. Dizer o vivido é tentar compreendê-lo e ajudar a compreender»
(22).
Toda a
história que se conta é de facto constituída por partes, coladas umas às outras, por um qualquer propósito, unidas
por um fio invisível. Fio esse que tem uma dupla natureza : a da narrativa e a
do olhar. Ao tecer a narrativa, seleccionando e unindo as partes do
acontecimento, a sobrevivente conta-nos a sua história. Ao prever, em pleno drama, um possível desenrolar da intriga, numa
postura optimista e corajosa, conversando com o assaltante, tentando acalmá-lo,
a jovem imagina um desenlace, projectando no futuro a realidade de um presente.
E depois, ao rever o drama, seguindo a mesmíssima linha dessa previsão,
remete-nos ao passado pela linha do seu olhar.
Pelo fio da narrativa segue um caminho inverso : parte do início da
embrulhada e só termina quando, noutro tempo, no futuro, tiver desenrolado todo
o fio.
No cinema -
e de certo modo na vida - o enredo é o mecanismo que foge às regras do olhar,
impondo-lhe uma disciplina. Levando-o a mudar de perspectiva ou usar uma óptica
diferente. Levando por vezes a máquina a colocar-se em posições ousadas.
O fio da
narrativa, tal como o fio de Ariana, é algo que se segue, mas que por vezes se embrulha. Este é o segundo aspecto da
questão : coisa que se resolve com alguma paciência. O primeiro aspecto da
questão, o que se impõe, não é o fio.
É Ariana. É isso que nos ensina o mito :
o fio de Ariana não é só aquele que Ariana segue, como Teseu. É, antes de mais,
aquele que nós sabemos que ela segue sempre, ao desfazer o novelo. Soltando a
ponta da meada, que Ariana lhe deu, Teseu perde-se no Labirinto, dá voltas e
voltas, o fio cruza-se no mesmo ponto mas continua a desenrolar-se até que ele
alcança o que quer : derrotar o Minutauro e sair do Labirinto. Reencontrar a
luz, seguindo o fio, como num renascimento. Num local daqueles, onde o olhar
não se exerce, qualquer herói se perdia.
As linhas com que uma mulher se cose! Desprovido de visão, salva-se o
herói com artifícios de fêmea. Teseu e Édipo.
O terceiro
aspecto da questão é que o outro fio,
aquele que mais nos serve, a linha
do olhar, não se embrulha. Não se tece se o olhar se extingue, mas
nunca se enrola porque tem uma natureza linear, a da mais curta distância : a
transparência. É feito da mesma matéria volátil. E tem por regra ser
inquebrável. O olhar vai sempre direito às coisas, à velocidade da luz,
pretendendo atingi-las com a maior clareza, cruzando os meandros, vencendo barreiras,
penetrando no invisível. Não é como a visão, que pode ser distorcida,
resultante de um acto mecânico todo feito de roturas, desde o pestanejar, a
cada movimento, a cada salto dos olhos. É aquilo que a sustenta, mantendo-a
viva, que lhe solda as imagens nas suas quebras : aquilo que, unindo-as, as anima.
Ariana só
existe por ser alguém que sabe como uma pessoa se sente no meio da embrulhada.
Não existe se não estivermos a vê-la. Se, depois de a vermos, a metemos na
gaveta deixamo-la no mesmo ponto, o sem ponto da embrulhada. Só quando voltamos
a vê-la é que ela se mexe. Ela só existe animada pelo nosso olhar. É um corpus
secundário da intriga. O principal é a
linha do olhar, o fio que os olhos seguem, aquilo
que nos faz ver. Tudo : Ariana, o regresso de Teseu e … o desfecho da
intriga.
A linha do
olhar é aquela que nos conduz sem equívoco. A que nos leva, transpostos em
qualquer coisa, como uma nave espacial, num trajecto que é a mais curta
distância. Mas então que coisa é essa, parte integrante de nós, corpo volátil a
viajar, assim tão direitinha, num espaço translúcido? Do que é que essa nave é
feita? E o que é que a anima? Vejo-a como um ovo de energia, um ovni
incandescente que perpassa de uma ponta à outra, dos meus olhos ao écran, de onde
eu estou até onde me vejo, levando-me com segurança a um qualquer destino. Por outras palavras : que coisa é essa -
energia animada de um corpo - que se concentra na construção de uma imagem para
lá do alcance dos meus olhos? E que age
não sendo só motivada pela intenção de lá ver alguma coisa, num encontro a
que não é estranho o desejo?
Ariana, que
ama Teseu, fá-lo regressar ao ponto de partida dando-lhe uma idéia para a viagem. Estou aqui deitado,
numa fria latitude, fecho os olhos e vejo-me estendido ao sol numa praia
tropical. Uma ideia é algo que me
transporta. Somos sempre transportados por uma ideia para o encontro, por vezes
surpreendente, a que ela nos leva.
Como no caso
de Ariana, toda a ideia tem um corpo. Mas de que ordem? Certamente algo da
mesma ordem daquilo que leva a flor a ter a sua côr e o seu perfume, a abelha a
voar para ela e o homem a querer
colhê-la. Um corpo que me transporta : Atmâ
e prâna, o Si e o Sopro. A parte de nós que segue um raio de luz. É
isso uma ideia : uma flecha voando direitinha ao alvo. Tal como a abelha a vê,
vemo-la surgir como imagem, algo no estado imóvel que quer mover-se. O que indicia que o mais importante
no filme - é o caso da abelha, como o de Ariana - não é só vermos a coisa, mas
podermos ainda detectar pela sua côr a qualidade que ela comporta, o nutriente
que a essa côr se associa. Em suma : aquilo que nos alimenta. Aquilo que, indo
integrar o nosso corpo, se integra à partida no corpo da ideia. Algo que, desde
os primórdios, nos anima.
Torna-se
assim evidente que aquilo em que se fixam os olhos, aquilo que nos atrai, não é
bem a coisa que avistamos mas a expressão da sua qualidade, o pólen no caso da
abelha, algo de reprodutivo, um sema : no cinema, imagem no estado imóvel
iniciando a vibração que precede o movimento. Ressonância de todas as
imagens-mãe que lhe deram origem, acrescida da misteriosa atracção causada pelo
seu reflexo no momento em que a fixo : agora precisamente. Agora que o filme
começa, agora que a coisa surge. Agora que a vejo com os meus próprios olhos,
agora que tudo principia, aqui e agora (23) em pleno palco, no centro do
mundo : no écran do cinema. E o que é o cinema? O cinema é o sonho. Mas, mais que o sonho, é a vida. Por muito
longe que nos leve, prende-nos pelo olhar. E por ele nos une. Olhos no écran,
todos ficamos suspensos na perseguição da coisa, na detecção obsessiva da
qualidade que ela exibe ou que ela esconde, presos pelo que nos une, e não pelo
que nos separa, que é o momento em que termina a fita, quando o sonho é
interrompido ou quando acaba o pesadelo : quando Teseu sai do Labirinto, quando
por fim na sala de cinema damos por nós sentados na cadeira.
resolver o conflito
o registo do sonho
Acordamos do
pesadelo antes de cairmos no abismo, antes de sermos tragados pelo monstro. Só
não acordamos se, por um expediente miraculoso, acabamos por não cair,
começando por exemplo a voar como um pássaro ou se conseguimos escorregar, como
uma enguia, por entre as garras do inimigo (Ver 8 in anexo).
Funciona o
sonho com imagens, imagens em associação
e sequência, como no écran do cinema. Como na onomatopeia, no sonho ou no
cinema, a imagem é aquilo que ela própria refere, a sua matéria corpórea, o
ícone que nela existe, por vezes fortemente motivado por ser algures analogon daquilo que representa. Mas
também o modelo narrativo em que essa imagem se integra, no sonho ou no cinema,
é constituído por associações típicas que, por seu lado, nos remetem para algo
como os paradigmas de que falava
Saussure (24) : assim composto, o próprio modelo
das associações é convenção. Convenção que, numa larga medida, tem raízes
profundas no corpo do homem, convenção que possui écran privado numa certa sala
de projecção, algures na sua cabeça. Em
certos filmes pode esse modelo ser mais que convenção. Pode a convenção ser
projecto : ser pássaro, o projecto do velocipeder,
o réptil saltador. Pode assim o desejo de voar tornar-se a
convenção, a lembrança que o lagarto
projecta no seu futuro.
Nesse écran,
determinadas associações induzem determinadas emoções, que se produzem em
determinadas regiões neuronais do corpo e da mente. Os indutores de emoção
podem ser directos, como uma trovoada ou uma cobra. Fala disso Damásio e
explica que outros há, como por exemplo «o impedimento do comportamento que
conduz o animal para o consumar de uma boa expectativa», que induz a zanga. O
mesmo se passa quando o indutor consiste na «suspensão súbita de uma situação
de castigo», «na suspensão súbita de um estado de medo até aí mantidos sem
quartel», que conduz à catarse. A propósito desse efeito de suspensão gerador de emoções fortes cita
Hitchcock que «construiu uma brilhante carreira baseada neste simples arranjo
biológico». Estamos condicionados pela dor e pelo prazer, e ainda mais pelas
suas relações perversas. A emoção impõe-se, prende-nos, antecipa-se à vontade.
«Não temos maneira de escapar à armadilha que a natureza nos preparou. Caímos
nela à ida ou apanhamo-la à volta» (25).
Desiludimo-nos, é certo, quando o desfecho da acção nos deixa frustados
na expectativa. Mas exultamos quando, apesar do sofrimento em que o suspence
nos deixa, a expectativa se consuma, quando o desejo é satisfeito.
Para que no
cinema a mesma emoção seja vivida por pessoas diferentes, é necessário que de
algum modo, a apreendam em uníssono.
E para que isso aconteça dá-nos o filme, através daquilo que exprime, as
referências da unicidade que tanto pode unir apenas duas pessoas, um grupo ou
toda a gente. O homem tem formas de ser próprias, com raízes profundas em
qualquer um, que são comuns à espécie, e que por isso são colectivas.
Confirma-nos a moderna neurobiologia que existem mesmo formas de ser dessa
unicidade. O filme que vemos no écran ou
aquele que tecemos na dormência, terrífico ou libertador, quando certas das
nossas faculdades adormecem, bem pode ser o mesmo : algo que se inscreveu na
nossa memória e que, se perdurar, se inscreve depois na sua matéria.
A inscrição
de padrões nos indivíduos faz-se quando vivem anos e anos em idênticas
condições de vida, mas certamente também se faz quando vivem anos e anos as
mesmas culturas, alimentando os mesmos desejos, trabalhando nos mesmos
projectos. Acaba mais cedo ou mais tarde essa inscrição por se manifestar nos
indivíduos pelo menos como tendência.
Certos grupos de pessoas ou mesmo certos povos manifestam maior
tendência para certas coisas do que outros, porque as cultivam. É comum achar-se, por exemplo, que os africanos têm uma
tendência inata para a música e para a dança. A frequência das situações
vividas, de geração em geração, acaba por nos deixar rastos na memória mais
profunda, do mesmo modo que a convenção social, esse outro “meio externo” que
gera a aprendizagem : certas espécies animais demonstram bem a capacidade dessa
herança. O registo começa por se fazer no indivíduo, a frequência que o
determina pode atingir um grupo ou a espécie. É tudo uma questão de tempo e
certos registos há que se fazem mais depressa.
No fundo, o
que tem afinal o cinema que o implique com estes registos, que o aproxime tanto
do sonho? O que têm ambos de exemplar? Um e outro, face à realidade que
exprimem, põem as pessoas a imaginar de
outra maneira. Os dois mundos, o do sonho e o do cinema, implicam-se de tal
modo que hoje não nos é possível estarmos num deles sem nos sentirmos no outro
: não sonhamos hoje da mesma maneira que sonhavam as pessoas que não viveram na
época das imagens animadas. O cinema impôs e vulgarizou, codificando-as, certas
associações a que não escapamos nos sonhos que temos todas as noites. Sonhamos
mais em função dos filmes que vemos do que sonhavam os nossos bisavós, que
nunca foram ao cinema. As crianças de hoje vêem certas imagens associar-se no
mundo que as rodeia e que cada vez mais neles se projecta, em particular
através do écran da televisão, antes
mesmo de as poderem associar no sonho. Mantendo-se no futuro essa
tendência, é provável que os filhos dessas crianças e os filhos dos seus filhos
adquirem capacidades inatas para associar imagens de uma maneira nova. O
cérebro que possuem é capaz de produzir modificações profundas nos mecanismos
sensoriais do corpo que têm, e que se reproduz. Por mediação do cérebro,
registando sinais exteriores, pode o corpo representá-los «como se» fossem
sinais do corpo, em vez de representações do corpo tal «como é». Esses sinais virtuais que cada vez mais agem sobre a
nossa sensibilidade podem induzir modificações significativas na sua textura e
não é de excluir que essas modificações de algum modo se inscrevam a curto
prazo na matéria sensível que geneticamente transmitimos, a par das convenções
sociais e da cultura.
As
associações que geram as mesmas emoções, que despertam em nós, em diferentes pessoas, os mesmos desejos, são
fenómenos correntes da vida. Mas quando a vida muda, quando se alteram certas
coisas que nos rodeiam, terá forçosamente que mudar a representação que delas
fazemos. Não podemos ficar prisioneiros de representações desajustadas. Para
vermos bem as coisas, terá a linha do nosso olhar de ultrapassar os obstáculos
ou as aparências. Pomo-nos então, antes de as podermos ver na sua forma
adequada, a imaginar essas coisas com contornos diferentes do que elas tinham
e, se o desejo a isso se juntar, pomo-nos a sonhar com elas de uma maneira
nova.
O que têm de
comum, por exemplo, sonhos tão diferentes como A cidade das mulheres (1980), de Fellini e 2001, a odisseia no espaço (1968), de Kubrick? No fundo, um e outro
são expressão de uma longínqua viagem, um deles é viagem delirante no eterno feminino, bem
terrena, viagem do Homem até ao confins das suas origens, o outro viagem
sideral em busca de si próprio em paragens onde vai estar, onde algures já
esteve sem nunca lá ter estado, e isso simplesmente porque as imaginou e disso
guarda uma determinada lembrança. Para quem sonhou esses sonhos, isto é, para
quem viu esses filmes, uma coisa é certa : não sonhará com mulheres terrenas,
com sibilinos encantos femininos, não sonhará com aventuras espaciais nem com
místicos encontros nos confins do Universo do mesmo modo que sonharia se não
tivesse visto um e outro desses filmes, se não tivesse sonhado esses sonhos tal
como eles foram sonhados à partida.
Antes de ser sonhado por vários ao mesmo tempo, o sonho do réptil que ganhou
asas foi de certeza sonhado por um primeiro indivíduo. As imagens desses
filmes, que ficaram inscritas na memória de quem os viu, acabará de algum modo
por marcar os sonhos que vier a ter. As imagens dos sonhos que tivermos terá
fortes probabilidades de se associar, de uma maneira ou outra, a certas imagens
de um filme que já se viu. Acaba sempre o espectador por sonhar outro sonho, com imagens um tanto ou
quanto diferentes das do sonho que se projecta no écran. Sonhará sempre com as suas próprias imagens o sonho que
gerou o seu, mesmo sendo essas imagens produzidas pelo desejo ou pela forma de
sentir de outro indivíduo. Mesmo sendo
outro, apesar de tudo, é sempre o mesmo o sonho que se reproduz, em nós
próprios ou noutra pessoa. Antes de inventar o avião o Homem sonhou o mesmo
sonho do lagarto que ganhou asas. Terão ambos passado pelo mesmo estado de
alma, antes de ensaiarem o primeiro vôo.
Um segundo
ponto comum a esses dois filmes tão diferentes, a essas matérias oníricas na
aparência tão opostas, é simplesmente a circunstância de envolverem questões
susceptíveis de serem sonhadas, isto é, de serem motivados por coisas vistas
como sendo essenciais à vida. Nem um nem
outro desses filmes nos prende pela convenção pura, nem um nem outro nos seduz
só por ter posto a mexer certos mecanismos da emoção, nem um nem outro
desencadeia em nós aquilo que sentimos quando estamos em perigo ou quando se vê
ameaçado o personagem que elegemos. Não é o Bem e o Mal que neles se confronta,
nenhum desses filme reproduz qualquer mecanismo elementar de luta pela vida,
neles não está em causa nem a vitória nem a derrota, nem o engano ou o
desengano, nenhum deles privilegia as regras do drama ou os clichés do jogo. Um
e outro, como certos dos sonhos que temos certas noites, são motivados pelo
mesmo efeito que Eisenstein descreveu, quando nos divertimos com o tal
brinquedo de reguinhas entrecruzadas que tem
num dos extremos a feia carantonha ou a temível luva de box, que dão o
tal salto para a frente quando alguém carrega na ponta das réguas que estão do
outro lado. Certos dos nossos sonhos surgem-nos assim de repente. Uma qualquer
força os desencadeia, como aquela que nos faz mover em determinados estados de
alma : um sentimento prevalecente, que por vezes nos passa despercebido, ou
então vários sentimentos relacionados, fortemente presentes ou intensamente
sentidos. Sentimentos que são em geral resultado de uma sensibilidade
particularmente desenvolvida, de uma avaliação particularmente sensível de
certas coisas bem relacionadas e amadurecidas.
O registo de
sonhos desses, como o do sáurio que deu
o primeiro salto para voar, é algures de natureza lúdica. No sáurio, o salto
que por instantes o liberta da gravidade é menos um constrangimento imposto
pelas condições em que vive (se algum problema a isso o leva poderia resolvê-lo
de um modo mais simples, de outra qualquer maneira) do que um puro desejo, a
ideia insensata de se pôr a voar. Engana-se antes do momento zero. Engana-se no primeiro salto, é claro, em que só voa uns escassos metros. Desengana-se ao segundo em que, apesar do
esforço, pouco mais se sente no ar, mas continua a saltar. Aberrante, a ideia
persiste. Sem dúvida aquilo dá-lhe gozo e ele não pára de dar saltos. E de tal
maneira insiste que, ao fim de algum tempo, entre enganos e desenganos, as
pontas dos membros anteriores lhe começam a crescer. Salta e volta a saltar.
Aquece-lhe o sangue. Prolongam-se os membros, articulam-se num novo ângulo,
desenvolvem penas ou uma fina membrana, os ossos tornam-se mais ligeiros, todo
o bicho perde peso e às tantas dá mesmo por si a voar, coisa que nenhum antes
dele tinha conseguido. Tenta imitá-lo o Homem desenvolvendo estranhos
mecanismos, com tentativas frustradas e animadas peripécias que, vistas hoje no
écran do cinema, nos dão vontade de rir. Persiste com a obstinação do lagarto
e, passado algum tempo, incomparavelmente menos tempo do que o animal
necessitou para lá chegar, consegue pôr-se a voar como ele, até que por fim o
consegue fazer com uma capacidade, com um alcance e uma velocidade muito
superiores.
De um ponto
de vista puramente científico, é claro, pode pôr-se em dúvida que tenham sido
essas as motivações, meio poéticas, que puseram o bicho a voar. No entanto,
para os cépticos que duvidam dos fundamentos lúdicos de um tal propósito, há
uma questão, incontornável, que bem os pode atormentar : se, na sua versão
original, o sáurio que precedeu o archeopteryx ficou colado à terra,
conseguindo sobreviver sem ter de voar (o que não sucedeu na linhagem que
degenerou no moa, no «frango sem
asas», que acabou por ser comido, monstruosa caricatura dos seus ousados
genitores) por que carga de água insistiu o réptil primordial durante tantos e
tantos anos até se pôr a voar? Há uma teoria, desenvolvida pelo geneticista
Richard Goldschimdt, que ficou conhecido por se opor à síntese neo-darviniada
da evolução das espécies, teoria do início dos anos quarenta do século XX, que
talvez ajude a explicar esse mistério : a evolução por saltos dos «monstros promissores».
as variações do espectro
Sentir :
sentir sabendo que estamos a sentir aquilo que sentimos. Sentir : sentir sem
sabermos que estamos a sentir aquilo que sentimos. Entre um sentir e o outro
reside a diferença que em nós determina a consciência e o conhecimento. Ao sentir,
na sua expressão mais perfeita, sabemos qual a sua origem, o seu modo e o seu
significado. Na sua forma mais elementar apenas nos apercebemos do seu modo,
podemos desconhecer a sua origem e o seu significado.
Quando
sentimos qualquer coisa sem sabermos o que
estamos a sentir, no caso da visão, isso significa algo apenas visto (apreendido sem consciência, numa zona do écran
que o olhar percorre sem interpretar : um pormenor no mar das coisas visíveis),
certos traços mal registados (traços
insuficientemente apreendidos, que no entanto podem preceder uma aparição, um
fantasma) : o nosso olhar fixa-se sem
ter a noção do conjunto, sem chegar a detectar a forma, sem saber se o espectro
é espectro. Neste caso apenas se manifesta um sinal de algo que talvez só mais
tarde seremos capazes de interpretar. A zona do écran será indefinida, o
fantasma não é outra coisa senão a ponta de um icebergue, a vaga manifestação
do agente que ainda não discernimos e o écran não é verdadeiro écran, é apenas
isto : um campo insignificante, algo
que não chega a ter significado. Algo
que está presente no écran, numa zona que tanto pode ser centro como periferia
: nada nos diz como no écran isso se situa em relação a tudo o resto.
No outro
caso, quando sabemos o que estamos a sentir,
sabemos de certeza em que zona do “écran” o sentimos. Temos a noção mais
ou menos exacta do ponto em que surge a coisa, sabemos se ela surge no centro
ou na periferia do campo que o nosso olhar domina. E sabemos mais ainda :
sabemos, com um maior ou uma menor certeza, que ela pode relacionar-se com algo
que se situa off-screen, no universo
que envolve o próprio campo em que a vemos. Se se confirma aquilo que nos
sugere a ciência, no centro do écran concentra-se o trabalho que se produz na
parte de trás do cérebro, ao passo que,
na periferia do écran, se concentra o trabalho do cérebro que decorre nas zonas
que se situam mais à frente, ao longo da massa neuronal (28). Em termos de
evolução, essa parte mais avançada no
cérebro é também a mais recente, não deixando de ser significativa a função suplementar que lhe é destinada :
controlar a periferia. Um olho no visor, bem na mira, o outro em full-screen.
Se
admitirmos que, ao saltar, sentindo-se
suspenso no ar, o lagarto se sente a voar antes de ser capaz de o
fazer, essa suposição levanta algumas
questões. A primeira e principal, sem dúvida, como o lagarto diria se soubesse
falar, é esta : será ele mesmo capaz de voar? Se pudesse ver-se ao espelho, nas
suas desajeitadas tentativas, se tivesse o mínimo de bom senso, de certo que se
enchia de vergonha e não daria nem mais
um salto. Nele manter-se-iam atrofiadas para a eternidade certas zonas do
cérebro, não deixaria nunca de fazer pouco mais que rastejar. Mas se, tal como
ele acabou por fazer, não tiver medo de se perder na insensatez, se não fixar
um objectivo, se não se afincar na teimosia, por certo que nunca chegará a
voar. Pode ser inibidora a consciência,
a verdadeira consciência das verdades, comuns ou
universais : um lagarto não sabe voar.
Pode no
entanto o desenho do homem que se desenha, saindo de si sem nunca mudar
(reproduzindo-se igualzinho a si próprio, sem inovação, tal como um vírus),
ajudar-nos a encontrar respostas idênticas àquelas que lagarto procurava
encontrar depois de ter dado o primeiro salto, ou talvez mesmo antes disso.
Basta imaginarmos que, no segundo desenho de si, o homenzinho introduz, com maior ou menor consciência, um elemento novo, uma determinada
qualidade, um simples vestígio disso (uma inovação técnica). E que esse elemento se desenvolve a cada novo registo, a cada
nova representação de si próprio. Podemos imaginar que os seus braços se abrem
às tantas, como se pretendesse voar. Podemos imaginar que as suas mãos, pouco a
pouco, de desenho em desenho, se alargam para obterem uma cada vez maior
superfície de apoio na massa de ar. A cada nova representação da imagem que de
si próprio ele desenha, as suas mãozinhas transformam-se noutra coisa : algo em
que vagamente começamos a adivinhar o perfil de umas asas. Podemos do mesmo
modo imaginar que as suas pernas, que se vão abrindo e fechando a cada novo
desenho, se começam a unir criando entre si penas ou uma membrana que, no
boneco seguinte, o vemos utilizar para equilibrar o corpo que pretende fazer
subir no ar. Podemos vê-lo melhorar o desenho e o desempenho, a cada nova
versão do esboço anterior. Podemos finalmente perceber como ele consegue pôr-se
a voar. Mas podemos ainda supor que o
homenzinho é um ser perverso que, ao nascer, logo activa, logo determina os seus
descendentes, pondo-os ao seu serviço : tornando-os escravos da ideia insensata
que ele teve na origem de tudo aquilo. Que mais podemos imaginar? Dito por outras palavras : dado o gozo que
elas dão, que mais podemos esperar de coisas insensatas como esta?
Para
alcançar a coisa que procura atingir, para a detectar, o espírito (tal como o
sistema perceptivo de qualquer animal, por muito rudimentar que seja a sua
consciência) projecta uma visão matriz,
um modelo, um padrão ou, se preferirmos, uma imagem virtual que se ajusta a um
aspecto da realidade que o sujeito pretende alcançar. Essa pretensão, o desejo
que o move, que pode levá-lo a alcançar - com a vantagem ou com o prazer que daí retira - visa apenas uma certa
forma, um certo estado do próprio objecto. Não tem por finalidade interpretá-lo
em todos os seus aspectos possíveis, embora o
desejo o possa levar a isso.
Pode ainda o
espírito desenvolver modelos inverosímeis, padrões virtuais, improváveis, e projectá-los num qualquer objecto, movido por razões como
a pura curiosidade ou o simples capricho. Fá-lo por vezes por gozo : só para ver o que
é que a coisa dá. Não se surpreende se ela nada der - está consciente de
que se trata de um jogo (26) - mas
logo se prende à coisa quando se apercebe que entre ela e a projecção surgem
coincidências e imediatamente se excita se entre a coisa imaginada e a
avistada, entre a projectada e a sentida, se tecem analogias.
Vendo a
questão pelo lado do cinema podemos generalizar admitindo que essa postura,
esse puro desejo de ver, como o de lançarmos a rede ao mar sem sabermos o
que trará de volta, é o mesmo que leva o
artista a ousar, o passo indispensável que, na arte, nos conduz à descoberta. O
que não deixa, como no caso do réptil, de implicar certos riscos. Há boas e más
aparições, há aparições falsas e verdadeiras, mas em geral só nos interessamos
por aquelas que nos dão algum prazer : quando, em nós, em qualquer dos casos,
tocam uma ponta de verdade, que bem pode ser o simples prazer que delas
retiramos. Mudam os tempos e mudam as vontades, todos nós sabemos disso.
Sabemos ainda que pode também mudar a verdade ou o prazer que nos dão certas
coisas. Mas cerrtas verdades há ou certos prazeres que nos ficarão para sempre,
como os do doido lagarto que se meteu a voar.
o alcance do reflexo
Diria
Lapalisse : «Um lagarto não pode voar!». Será que se engana? A imagem, que
atravessa os olhos, como atravessa a câmara, vêmo-la reconstruída nesta fase da
intriga : quando atinge o écran ou quando atinge a retina, nesse ponto de
encontro, e logo, ainda reverberando, aí mesmo a vemos extinguir-se. Esse ponto
de entrada torna-se agora o seu ponto de
fuga. E ela só se extingue quando o
filme pára. Pára a fita mas a vida
continua : forte ou levemente tocada pela verdade do reflexo. E pelo sentimento
que nos causou, por dor ou saudade, conservamos por vezes o estado de alma em
que a imagem nos deixou. Outras vezes, no palco da vida, tocados pela intriga,
damos por nós diante dela, metidos na embrulhada, tal com a víamos nesse écran.
Na physis que o rodeia, é pelo corpo que o
homem sente as coisas. E é pelos sentidos (tanto pelo que herdou como pelo que
adquiriu) que o corpo age e decide, no mundo onde vive, guiado por um
saber primordial. Nesse corpo que o homem tem, é nos
olhos que essa inteligência mais se exerce : a inteligência do instinto.
No mesmo ponto do corpo onde, por outro lado, também mais trabalha a razão, a
lógica : a inteligência mecânica. Aquela
que se serve desses seus olhos para lhe construir a cabana, o arranha-céus, para evitar o intruso, para o salvar do bandido, sem falha : a razão pura (ou quase).
Sendo no confronto dessas duas inteligências que se joga o destino, é sempre
perante o olhos que se desenrola o drama. O tal drama imemorial, mas
quotidiano, que não podemos deixar de exprimir por “palavras”, em unidades
mínimas de sentido : a acesa troca de
palavras entre o que nos diz o mundo e o que nos diz o corpo.
A mímica
desta altercação, vista em cinema, é feita por Panofsky quando diz, a propósito
da «dinamização do espaço» (27), que «Não é só os volumes a mexer-se no espaço,
o próprio espaço se mexe, ora este ora aquele, dissolve-se e recompõe-se». E
quando Kracauer fala do destino do cinema usa a palavra desvelar ao falar «de uma missão que lhe foi atribuída à nascença,
herança do cinema mudo : captar à primeira os mais ínfimos pormenores». Dá ele
como exemplo o grande plano, que melhor ilustra essa tendência de desvelar (tão
própria do olho da câmara como dos nossos olhos), e cita Horace Mack Kallen :
«Actos mínimos, como o mexer maquinal dos dedos, as contracções da mão, a queda
de um lenço, o distraído manusear de objectos sem importância, pé que tropeça e nos desequilibra, o
procurarmos uma coisa sem aparente sucesso, etc, tornam-se hieróglifos visíveis
de um dinamismo secreto das relações humanas…» (30). Defende que os filmes
gozam de uma capacidade particular de usar hieróglifos desses, que «vêm juntar
o seu testemunho à da história propriamente dita». Para ele signos desses são tão
fortes que podem até chegar a exprimir
«disposições ou tendências colectivas de um povo», as «molas psicológicas de um
povo numa determinada época da sua evolução».
Roland
Barthes refere-se a algo da mesma ordem no campo da imagem imóvel, a fotografia,
quando fala do signo errátil a que chama punctum
(29). Na narrativa, dotada de uma estrutura que pode ser detectada pela análise
(quer na literatura quer no cinema), invoca ele a existência frequente de
detalhes «insignificantes», que são comodamente deixados de lado pelo estudo,
detalhes de que não se fala, por serem vistos como «supérfluos» em relação à própria estrutura
narrativa. Mas, se os virmos como «enchimentos» (remplissages), catálises, que possuem um «valor funcional
indirecto», ao serem relacionados, adicionados entre si, podemos admitir que
eles «constituem um qualquer indício de carácter ou de atmosfera, e poderão por
isso ser recuperados pela estrutura». Tenta perceber isso a análise exaustiva,
mas ela acaba por «fatalmente encontrar anotações que nenhuma função (por mais
indirecta que seja) pode justificar : estas anotações são escandalosas (do
ponto de vista da estrutura) ou, o que é ainda mais inquietante, parecem estar
destinadas a uma espécie de luxo da
narração, pródigo ao ponto de pôr à disposição dela detalhes “inúteis” e de por
isso fazer subir aqui e ali o custo da
informação narrativa» (30). Quando no écran surge «o detalhe absoluto, a
unidade indessecável, a transição fugitiva», o tal elemento insignificante, logo desconfiamos. É
claro, ferramos nele o olho. E o que é que alcançamos?
Acontece que
esse género de sinais, essas perturbadoras aparições, não surgem apenas no
livro que lemos, na história que ouvimos contar ou no filme que vemos. Surgem
também nas histórias que começamos a arquitectar, nos filmes que, uns e outros,
nos pomos a realizar e que já podemos
começar a ver em rushes na
sala de projecção : nos estúdios que temos na cabeça. Na história que ouvimos
contar ou naquela que se inventa, esses detalhes, aparentemente desprovidos de
sentido, têm uma natureza secreta que pode ser de grande importância : suscitam
a dúvida, chamam a atenção. Serão eles realmente insignificantes? Se tivermos
em conta aquilo que os nossos olhos detectam sem por vezes nos revelarem o que
isso verdadeiramente significa, temos razões de sobra para desconfiar. O que
pode acontecer se não fixarmos bem os olhos no tal pormenor insignificante, aquele que surge no meio
da folhagem, na figura que se insinua?
Além disso,
paradoxalmente, também acontece não ser apenas o detalhe insignificante a
perturbar as coisas. Acontece o mesmo com a própria descrição – um dos componentes essenciais da narrativa, um dos
elementos «próprios» das linguagens ditas superiores – visto não ser
justificada ela própria por nenhuma finalidade de acção ou de comunicação. Ela
nada tem a ver com o detalhe insignificante que por vezes ressalta, com a pequena coisa que mexe mais que as outras : a ocorrência
errática, mais pertinente ou menos pertinente, que se observa na «superfície do tecido narrativo». A
descrição é, pelo contrário, de ordem «analógica». É da ordem do paradigma, é
da ordem da língua : uma casa é uma casa. O detalhe insignificante é da ordem
da palavra, é predicativo. Mas tanto a descrição como o detalhe insignificante,
apesar de tão diferentes, se singularizam pelo que de comum revelam ter : a
cada um a sua solidão, a sua preocupante individualidade dentro do tecido
narrativo, um como puctum, o outro
como foto (o cenário do filme, o décor, o espaço cénico
ocupado pelo actor ou pelo seu fantasma, a sua casa, o seu habitat natural, o
seu pano de fundo - por vezes mesmo o seu rosto -, a superfície em que as coisas mexem). O que levanta uma dúvida e
suscita uma questão : «… acaso tudo na narração é indiferente? Se não, se no
sistema narrativo subsistem praias insignificantes, qual é - de uma vez por
todas, e por assim dizer - o significado
dessa insignificância?» (31). E qual o seu alcance?
Falando das
coisas pertinentes, das verdadeiramente significantes, das coisas que mexem no cinema desde os primórdios, comboios ou
cavalos, até às que vemos mexer hoje em dia, Panofski lembra que foi entre
1905 e 1910 que se iniciaram as
primeiras tentativas conscientes para fazer o cinema passar do nível de arte
popular à de «arte real», com uma adaptação do Fausto e com o filme Elisabeth
reine d’Angleterre (Henri Desfontaines e Louis Mercanton, 1913), com Sarah
Bernard. Estava aberto o caminho não para o abandono de uma forma, no que ela
tem de arte popular, diz ele, mas «para os caminhos autênticos da evolução» do
cinema, «nos limites das suas próprias possibilidades». E reconhece que «Esses
arquétipos fundamentais das produções cinematográficas de tipo popular -
sucessos ou recompensa, sentimento, sensação, pornografia e humor cru - podem
expandir-se em verdadeiras histórias , tragédias e romances, crimes e
aventuras, comédias, desde o momento em que se percebeu que podem ser
transfigurados, não pela injecção artificial de valores literários, mas pela
exploração de possibilidades únicas e específicas do novo meio de
expressão». Quando vemos certas coisas
projectadas no écran, quando as vemos assim transfiguradas
nesse espelho, o filme pode-nos trazer grandes surpresas.
Não se pode
privar o cinema das transfigurações do mundo nem dos diferentes estados que em
nós as acompanham : os serenos estados de alma e os estados de vigília. Vive o
cinema entre esses dois pólos : o sonho e o real, sendo por vezes um e outro.
Mas nós sabemos bem quem comanda.
Obriga-nos
por vezes a vida a esquecer o cinema, mas este insiste sempre em não esquecer a
vida. Complicam-se as coisas para o cinema, porque, na época em que vivemos, na
vida tudo se complica. Tudo se transfigura. E são muito rápidas as transfigurações.
Tudo acelera num instante. Vivemos num mundo tão vasto, de tão vastas
perspectivas, que nos obriga a não vermos certos filmes importantes, a ignorar
certas coisas, por muito vitais que elas sejam. Vivemos a um ritmo tal que muitas vezes nos faz perder verdades que deveriam ser lembrança.
Temos aliás duas formas perigosas de esquecer : o verdadeiro esquecimento, o de
certas memórias que deveríamos manter bem vivas, e um outro esquecimento, que
não é verdadeiro esquecimento, que é, como Freud mostrou, a repressão de
uma lembrança, a repressão selectiva de algo que foi fechado à chave e ficou sem
voz, preso numa obscura cela. Mantém-nos a consciência distantes dessas coisas,
prende-nos a outras o estado de vigília. Mas, sem que nos demos conta disso, somos
quase sempre transportados a certos estados de alma em que se atenua a
vigilância e o prisioneiro se escapa no sonho, fazendo-nos sobressaltar,
agitando-nos na dormência, despertando-nos para a vida.
Por vezes
essa acesa troca de palavras (entre aquilo que nos diz o mundo e aquilo que nos
diz o instinto) cansa. É então que, fartos de intriga, caímos em lassidão e nos
refugiamos nesses estados de alma, mais propensos à poesia. A ficção não pára :
os actores entram e saem de cena, a coisa acelera, perdemos as pistas, hora a
hora, dia a dia. O corpo reclama então o
seu mais elementar direito : o da existência. Alheia-se do mundo, fixa uma
linha de horizonte, e ali fica. Abre os
olhos e vê outro filme. Roda o botão e ouve outra música.
Os filmes de
ficção científica são um aspecto peculiar das ilusões criadas pelo desejo de
ver, num salto para a frente, outro aspecto da fuga. Parte a ficção científica hoje em dia de uma hipótese
radical, assente numa certeza, a inevitabilidade para nós do espaço sideral : dominando o tempo, poderá o Homem tornar-se
senhor do Universo, terá inteligência bastante para isso. Coisa plausível, na
medida em que já começou : decifrando a radiação fóssil que o levará, para lá das origens, a tudo ver e entender.
Já deu o primeiro passo, com a biologia molecular, cada vez mais profundamente
limando a chave da sua existência, com a física quântica, penetrando os
microcosmos, sondando os confins do Universo, presumindo mesmo ter fotografado
o ovo primordial. Em visões alucinantes, no seu imaginário miupe de uma
civilização do “Tipo 0”, já imagina o seu futuro : para começar, dentro de uns
dez mil anos, uma gota de água no oceano do tempo, fundará uma civilização
galáctica do “Tipo 3”, o primeiro salto para poder voar para as galáxias mais
longuínquas, que um dia dominará (Nikolai Kardashev e Freeman Dyson). Será que, com esses vôos, alcançará a
Eternidade? Talvez sim, talvez não. Será que as descobertas de amanhã nos farão
rir de visões que vamos tendo? (Ver 11 in anexo)..
Em todo o caso, «Estarmos conscientes da evolução do Universo e do nosso
destino dentro dele é já uma prenda bem maior do que podermos habitá-lo
eternamente» (32).
Horizontes
destes fazem-nos entrever um novo protagonista : o robot humano (anjo ou
monstro). É nessas paragens que o cinema se cruza bizarramente com a História.
É aí que a coisa vai mudar a sério. E é
aí que, mudando ela, mudará o estilo e a intriga. É aí que a história será
outra : nesse país longínquo, em que já se vislumbra o novo fantasma, o actante
mudará forçosamente de figura. Sempre que, nas ficções do futuro, o herói tiver
de transformar o corpo, lá terá ele de saber em que película fixará os
registos, em que componentes serão produzidas as emoções, quais os circuitos
que as animam, qual a frequência dos sinais que as anunciam e as transmitem,
quais os fluxos que lhe induzem os sentimentos, que qualidades terão essas
águas, quais os traços adequados à sua grotesca fisionomia, que raio de alma
será a sua, qual o inédito écran onde se projecta o vertiginoso filme que protagoniza. Será que não se engana? Vai ter
de mudar de olhos. Vai ter de afinar a óptica. Se calhar vai precisar de
óculos. Se mudar no sexo (e por certo que isso lhe vai acontecer) … lá terá ele
de reinventar o prazer. Está lixado. Será um daqueles que se topa à distância, como no cinema. Terá na íris um brilho perverso de voyeur.
Quem se obstinar em
localizar as origens deste género de viagens - elas não são só de agora - terá
à sua frente uma carga de trabalhos. Terá forçosamente de recuar para lá de
Homero e de certeza que vai descobrir indícios dessas viagens em míticas
aventuras que levaram os nossos bisavós a sair da floresta, a atravessar a
savana e o deserto, a transpor oceanos antes de por fim chegarem às longínquas
paragens onde, de boca aberta, ainda hoje os avistamos. Dizia Júlio Verne : «Tudo o que um homem
possa imaginar pode ser feito por outros». Mais evoluído, acreditava H. G.
Wells, que leu Darwin, que tudo aquilo que a mente humana possa hoje imaginar
pode tornar-se no mais admirável ou no mais execrável dos mundos novos. No
écran, George Méliès e Fritz Lang
quiseram mostrar-nos isso mesmo.
Um deles, o grande ilusionista, fez vibrar os nossos avós cinéfilos na sua
viagem à Lua com doces selenitas recrutadas no Folies-Bergères. O alemão, o
arquitecto desiludido, que também fez a sua viagem à Lua, conseguiu
arrepiar-lhes o pêlo com a sombria cidade de arranha-céus e com o robot de
Maria (a linda escrava que pregava a
obediência e a esperança aos submissos), cavilosamente concebido pelo senhor da
cidade, o tirânico Rotwang, para dominar, para se impôr na ordem e no trabalho.
Robert Louis
Stevens - o lívido escritor inglês que, apesar de correr o mundo, pouco saía da
cama - não ficou atrás do compatriota e do francês. Entre as célebres histórias
que lhe saíram da doença, escreveu um dia, em 1886, um livrinho «para crianças»
chamado The strange case of Dr. Jekyll
and Mr Hyde. Imbuído de bom senso puritano, uma virtude familiar, Stevenson
parte desta idéia peregrina : o ser humano é a tal criatura contraditória,
tocada pelo Bem e pelo Mal, capaz do melhor e do pior, coisa que nunca se vê lá muito bem. Ao seu herói, ao Dr. Henry
Jekyll, faz-lhe Stevens passar pela cabeça a intensão de separar as duas coisas.
Sábio como é, acaba Jekyll por descobrir certo dia a poção mágica. Não chega
bem a engoli-la : só lhe toma o gosto. Deita-se e acorda no outro dia fresco e
bem disposto. Mas umas gotinhas bastaram, a ousadia dá para o torto. Às tantas
começa a sentir-se outra pessoa, ao ponto de ter de mudar de nome.
Engrossam-lhe as sobrancelhas, o cabelo invade-lhe a testa, cresce-lhe uma
barba imunda, parece um Neanderthal. Chama-se agora Edward Hyde e sente-se mau
como as cobras. Hyde não o larga. Desesperado, Jekyll emborca dose dupla, a ver
se consegue voltar ao normal, mas acaba na sepultura (Ver 9 in anexo).
Tempos
antes, na noite de 14 de Junho de 1816, uma jovem de dezanove anos, chamada
Mary, filha do conhecido sociólogo William Godwin, apologista do amor livre, aceita um desafio.
Já antes desse dia, provavelmente inspirada pela obra do pai, Rights of women, tinha ela aceite um
outro : tornara-se amante do conhecido poeta romântico Percy Shelley. Estão ele e ela na Villa Diodati, nas margens
do Léman, em Genebra, em casa de um amigo chamado Lord Byron. Encontram-se com
eles uma conhecida actriz de teatro e o Dr. Polidori, secretário e amante de
Byron. Estão à lareira e, para matar o tempo, falam de literatura fantástica.
Às tantas fazem uma aposta : sairá vencedor quem deles escrever a melhor
história de terror. Mary leva a sério o desafio.
A ideia que
surge no espírito da evoluída jovem, no fundo, não anda muito longe da de Stevenson. Inspirada no mito de Prometeu, que
produzia seres vivos da argila, Mary inventa um cientista que cria seres
humanos a partir de cadáveres : o Dr. Frankenstein. Sheley dá-lhe umas dicas. A
história acaba por ser escrita e dá um livro : Frankenstein, or the the modern Prometeus. Esse livro de Mary - que logo após a morte da legítima esposa do
poeta passará a chamar-se Mary Shelley - descreve em pormenor os sentimentos do
monstro, mas também os do seu criador (Ver 10 in anexo).
Abrem-se os horizontes
da ciência no conhecimento do Homem. Prossegue a criação de monstros, paridos
por sábios enlouquecidos. Suspeita-se que o Homem é capaz de conquistar o espaço e logo a ficção se anticipa.
Presume-se, aliás, que não estará só no Universo.
Em 1924 a
URSS lança-se na primeira expedição
extra-terrestre : um engenheiro russo, ao avistar a rainha de Marte, embarca
logo na aventura. O imaginário dá asas à ciência, abre-lhe as portas do sonho
e faz acreditar no impossível.
Pressentidos por Orson Wells, chegam os os marcianos à Terra. Avistados por
Byron Haskin, inspirado pelo outro Wells, entram com eles os humanos em guerra
: «The war of the words» (1953). Outros extraterrestres por aí aparecem, em
disco voador, com propósitos mais sensatos : um certo Klatu, pacifista no seu
planeta, é avesso a armas nucleares e tudo faz contra elas : «The day the earth
stood still» (Robert Wise, 1951). Nesse
mesmo ano até cá chegam cenouras de patas - «The thing» - invulneráveis,
vampirescas, que preferem aterrar no Ártico, num delírio de Christian Nyby. Em 1960, no
planeta Althaïr 4, o planeta maldito - o
«Forbidden Planet» (Fred McLeod Wilcox ) - a
coisa é pior ainda : destruída a super civilização dos Krells, que têm o
dom de materializar os pensamentos, começam a andar à solta toda a espécie de
monstros, no meio dos quais o robot Robby lá vai fazendo o que pode … para não
nos fazer perder o riso.
Kubrick
lembra-se do mesmo : «Dr. Strangelove or
how I learned to stop worring and love the bomb» (1963) . Ipsis verbis : o estranho
Dr. Pingamor ou como eu passei a estar-me nas tintas e até achar graça à bomba.
Interessam-lhe as viagens espaciais, mas acha por bem lembrar outras
coisas, que também se podem ver no cinema. De coisas risíveis como esta surgem,
em sketch, versões filosóficas : «Le nouveau
monde», segundo Godard, em «Ropopag» (1962). Mais ou menos filosóficas,
outras versões dessa história se avistam, mas em nenhuma delas se divisa
vislumbre de um sorriso. É o caso de «Fail safe» de Sidney Lumet, (1964) : uma
qualquer pentelhice emperra a complexa máquina da «coexistência pacífica». E
logo se ouve o estrondo sinistro, que acorda Godzilla.
Os monstros
estão por todo o lado, na Terra e o Espaço. Com mutações sinistras ou sem elas,
no cinema levam a melhor os monstros simpáticos, como o extraterrestre-menino
(Steven Spielberg, 1982). Certo dia,
por exemplo, descobrem os primatas humanos, ao pé das grutas, um estranho
monólito : de todos o mais enigmático. Não fazem ideia do que aquilo seja, e lá
vão à vida. Passado algum tempo, já com melhor aspecto, salta-lhes das mãos um
osso, arma mais que primitiva. Põe-se o osso a voar, por entre as notas de
abertura do Danúbio Azul, tornando-se
nave espacial. Conduzida pelos bisnetos desses primatas, aterra a nave na Lua.
E o que é que eles lá vêem? O misterioso monólito! Numa distante galáxia um
sinal é captado : alguém que por ali passara antes, milhões de anos antes, fica
a saber que se elevaram os primatas no espaço. Prossegue a viagem. Como é
grande a distância, revezam-se uns aos outros. Enquanto uns comandam a nave,
outros hibernam, congelados. Chega a nave a Júpiter e logo se lança a caminho
das estrelas. Siderados, observam os astronautas o estranho monólito que
persegue a nave terrena nesse momento crucial da aventura. Ressoa de novo o Danúbio Azul. Nada os leva a supor o que
possa ser aquele estranho corpo : sem forma, sem máscara, sem rosto. Um monstro sedutor. Passa-se isto no ano 2001
e a missão tem um nome : Odisseia no
espaço (Ver 11 in anexo)..
Assim lançados
nesse género de viagens, para as quais não nos convém deixar nada esquecido
(«Solaris», Tarkovsky, 1972) o que nos ficará afinal do momento zero e da ideia condutora? De tudo aquilo que se seguiu à
vibração primordial que lhe deu origem?
Fica sem dúvida o resíduo de uma intenção
qualquer que ela tinha à partida. Fica algures registado, mesmo num
rudimentar esboço, o mapa do trajecto que a ideia seguiu no curso dessa
aventura. De algum modo e em qualquer parte fica gravada a experiência, mesmo
se a ideia não alcançou o seu destino, mesmo se a nave perdeu a energia,
ficando a pairar no espaço, talvez detida pela gravidade de um corpo. Fica a
experiência e, com ela, algo ficará do elemento fecundador, como também algo
há-de ficar do corpo fecundado, nem que seja o simples vislumbre desse outro
corpo que faz sempre parte da ideia. Algo ficará da ideia depois de ela atingir
o seu alvo e se reproduzir, com outro,
num corpo novo. Mais corpo ou menos corpo, de resto isso é o que menos
importa. O que mais importa é a força da ideia, a energia que ela comporta. Que
não vale só pela força, mas sobretudo pela qualidade das várias energias de que
é composta. E que têm todas origem no corpo. No ponto de partida, onde tudo
volta.
Prova-nos a
vida, ao contrário do que proclamam alguns profetas, que o cinema não acaba :
extinguem-se, sim, velhos écrans. Filmes continuarão a ser feitos e nós
continuaremos a desejar vê-los em novas paisagens, em écrans mais adequados às
circunstâncias, em small ou big screen, tudo dependerá da distância. É
simplesmente em novos écrans que melhor se projectam as ideias novas. E, por
conseguinte, a moral da história. Ora sendo a história, em si, matéria bruta, o
que mais pesa no meio de tudo isso não é
a trama, o fio de que ela é feita, nem
sequer o esbracejar de quem o desenrola, é a ideia : a luz que atravessa
a intriga. A tal evidência.
No encontro
entre o cinema e a vida, o que está em causa do lado da vida é aquilo que
vemos. Do lado do cinema é aquilo que nos é dado ver. Ver e dar a ver, eis a
questão. É aí, no ponto em que o ver é dado pela objectiva e o dar-a-ver é dado
pela fita, pela intriga, é aí, nesse ponto contraditório de dar e receber, que tudo ganha vida.
Mas se a
coisa que mexe no écran artificialmente lá foi posta, se ela é por natureza
enganadora, como resolver o problema? O que é que ela tem que não nos convenha,
sobretudo sabendo nós que, em vez da verdadeira, podemos lá estar a ver outra
coisa? Sabendo nós que na paisagem pode estar um perigo oculto, que até o inimigo
se disfarça na natureza? Sendo feito
dessa natureza ambígua, como pode o cinema evitar a intriga? Como pode, em
suma, o filme não ser história?
Mesmo se,
cheios de perspicácia, acabamos por descobrir no écran a verdadeira coisa, logo de lá salta o velho fantasma. A acção
nunca mais pára. Muda o espectro de casa. A coisa vai surgir noutra paisagem.
Mal acabamos de ver um filme, há logo outro que nos espera. A cada passo que
damos muda o écran. Em que longínqua sala irá terminar esta aventura? Qual será
o último, o grande écran que nos espera? E em que estado de alma nos iremos
finalmente sentir, nessa última projecção? Em que já tudo sabemos da história,
em que já nada temos de prever, em que não haverá mais intriga? Em que tudo se
espraia na luz? Tudo : tudo o que se
afunda nas trevas, tudo «o que mergulha na noite» e que agora enche o écran?
Nesse écran total, sem sombras ameaçadoras, tocado por uma luz abrangente, de
intocável pureza, que sonho se sonha? Que filme se vê? Em que universo se desenrola? Será que, livre
de incertezas, despojado de intriga, já não é filme? Apenas estado de alma? Ou
nem mesmo isso, apenas o que disso fica : uma qualquer fotografia, apócrifa,
uma serena pintura de expressão ambígua, como aquela que se desenhou um dia no
rosto de Mona Lisa ou como aquela que, depois de um êxtase, depois de um
orgasmo - como nas figurações da morte, como na tampa de um sarcófago - surge
no rosto de quem ama? Será isso que fica? Apenas isso?
© Ricardo Costa, Paris, 22/9/2000
revisto em
18/3/2002 e 31/07/2005
anexo
na sala de cinema
1 - É
cinzenta a atmosfera num país já desfeito por uma Grande Guerra. Reina a
penúria, a inflação é insustentável. Nas cidades o desemprego atinge milhões de
desmobilizados, a marginalidade e a criminalidade aumentam a cada dia que passa
e bandos armados defrontam-se no meio da rua. Deambulam os homens como
fantasmas, desesperados, em busca de sustento, dia após dia. É justamente nessa
densa atmosfera, nesse sombrio estado de alma colectivo, que algo se põe mexer
: o Dr Mabuse. Mexe-se na sombra, é um cérebro diabólico, um verdadeiro génio
do Mal, espiando tudo e todos por detrás dos seus óculos escuros. É ele que está
na origem de toda aquela desgraça, é ele que comanda e controla as muitas
sociedades secretas e os sinistros agentes que ameaçam e matam impunemente.
Sobre um filme que ele realizou em 1920, intitulado «Der müde Tod», a morte cansada (les Trois Lumières, no seu título francês), um crítico
escreveu estas palavras : «Um criador de
filmes é assim chamado para desvelar ao mundo o rosto de um povo inteiro,
tornando-se o mensageiro da sua alma. Podem por isso esses filmes ser
considerados como testemunhos da época que os viu nascer e acabarão por se
tornar, à sua maneira, documentos da
história universal». A expressão
cinematográfica desse estado de coisas, a sua transfiguração em fotografia animada, exigia uma nova forma. Por
isso mesmo - por só assim poder correctamente traduzir o estado de alma que a
esse estado de coisas se associa - passou a chamar-se «expressionismo». AA
cidade feita de arranha-céus que se chama «Metropolis» (1927) foi avistada por
Fritz Lang, antigo estudante de arquitectura, quando chegou de barco a Nova
Iorque, a um cais de West Side, mandado lá ir pelos patrões da UFA, para se
inteirar dos avanços técnicos dos americanos. Em 1931 filma ele «M, o maldito»,
que tinha como subtítulo «Os assassinos estão entre nós», sub-título que se viu
obrigado a retirar ao ser ameaçado pelos nazis, nas vésperas da tomada de poder
de Hitler. Surge de novo o Dr Mabuse em 1933, com o futuro na mão : «Das
Testament des Dr Mabuse» e em 1960, depois da sua deriva pelos Estados Unidos,
Lang retoma o tema e realiza um outro filme sobre o mesmo personagem : «Die
tausend Augen des Dr Mabuse», os mil
olhos do Dr Mabuse, que se chamará em francês Le diabolique Dr. Mabuse.
«Metropolis», que revela o estado de alma não apenas de um mas de
milhões de indivíduos, é ao mesmo tempo - e significativamente - um filme de
anttecipação científica : neste caso, uma ficção científica de mau
gosto, um sonho mau.
Um ano depois do «Dr Mabuse», o jovem René Clair, numa cidade também ensombrada por certos fantasmas, em 1924, inventa
um argumento inverosímil e faz um filme
: «Paris qui dort». Certo dia, Paris
não acorda. Nada mexe na cidade, nem uma só pessoa se avista, nas ruas não há o
mais pequenino sinal de vida. Essa inexplicável morte é constatada por um
guarda da Torre Eiffel, mal o sol se levanta, mal ele desperta para o serviço
de todos os dias. Surpreendido, desce de elevador para receber à hora habitual
os primeiros visitantes, percorre tudo com olhar, lá das alturas, sondando
aquele inquietante silêncio por entre os perfis da torre, metálicos,
imponentes, mas o tempo passa e ninguém chega. Ousa ele então aventurar-se pela
cidade em busca de quem lhe explique o sucedido. Acaba por avistar um carro em
que se desloca o causador desse sono colectivo, daquela dormente lassidão de
que ninguém desperta : um sábio louco que paralisou a cidade com um raio
invisível, congelando o tempo. Alguns
anos mais tarde, em 1931, numa época semelhante de convulsões fatídicas, em que
tudo mexe perigosamente, fez ele outro filme, com certos estigmas também de science fiction, filme de um certo
estado de alma, quase lascivo, que
invadiu os personagens que nele vemos : «A nous la liberté», filme cuja ideia
central se baseia numa aproximação futurista.
«René Clair analisa as reacções de massa e implicitamente demonstra a
semelhança que existe entre o trabalho em cadeia de uma fábrica e a rotina dos
prisioneiros». Cinco anos depois Charlie Chaplin realiza Modern times (1936) : um homem de tal modo possuído pela
máquina, com um corpo e uma alma de tal
maneira automatizados que vira robot.
É um personagem com os reflexos tão condicionados que até mesmo fora da fábrica
não pára de trabalhar : continua a tirar botões, arrancando-os a quem lhe apareça. Certos estados de alma, se
deles não despertamos a tempo, podem levar-nos a estes extremos,
característicos na verdade da ficção científica.
2 - A distância entre o corpo do
observador e o écran, a sua maior ou menor dependência
dele, é, por regra, aquilo que
determina os efeitos que se exercem entre um e outro. A uma curta distância da
coisa avistada, encontra-se o corpo numa situação que dele exige respostas
rápidas, sente-se ele num lugar mais vulnerável. A curta distância provoca nele
obrigatoriamante reacções imediatas, reacções que lhe permitirão agir a tempo, na atracção ou na repulsa, ao
propósito que a coisa encarna, à razão que a faz mover. É pelo efeito da emoção que ela suscita, pela reacção
pronta ao sinal que ela induz, que o corpo dá a resposta adequada.
A uma distância conforfável do
écran, pode o corpo reagir de outra forma, pode ele agir de um modo diferente
daquele a que o força o sobressalto das emoções, pode ele tomar as devidas
precausões, evitando as consequências por vezes nefastas do acto-reflexo. Ao
tomar o gosto da coisa - reagindo pelo sentimento,
a uma razoável distância, que no cinema é a distância ideal - terá o corpo o tempo necessário para avaliar quer as
intenções da coisa, os seus efeitos, quer até mesmo as intenções que nele se
esboçam, os efeitos que a sua própria reacção terá sobre aquilo que lhe surgiu
diante dos olhos. Permitir-lhe-à esse modo menos imediato e menos radical de
sentir a presença da coisa de responder de uma maneira mais conforme aos seus
próprios desejos, às solicitações dela, aos imperativos do contexto, de evitar
de um modo mais seguro as consequências da reacção brusca, que pode ser
desastrosa. Permite-lhe o sentimento da
coisa uma resposta mais calculada, uma avaliação mais profunda do confronto em que, voluntaria ou involuntariamente, ele se
sente envolvido.
Pode no entanto o sentimento nele gerado tornar-se perigoso se for
demasiado prolongado. Pode degradar-se, por um lado. Por outro, pode esse
sentimento traduzir-se por uma hesitação excessivamente gravosa. Pode assim o
corpo estar a sentir a coisa avistada de um modo fatal, levado pela força, pela
persistência da sedução, sem ter
podido avaliar-lhe bem a qualidade, sem nunca se ter sentido perto de a tocar,
sem nunca lhe ter podido sentir sequer o cheiro. Pode ele socumbir perante ela porque
não reagiu a tempo ao risco que ela comporta, perdendo-se. É esse perigo
particularmente acrescido em todas as circunstâncias em que o corpo fica
paralizado : sempre que a sua distância do écran não se altera, sempre que,
durante demasiado tempo, deixa de haver mudança de plano. Nessas
circunstâncias, se a distância se mantém inalterável, uma de duas coisas
aconteceu : ou o olhar se prendeu, hipnotizado, prisioneiro de um corpo já
dominado, ou de tal modo se imolibizou o objecto avistado que acabou por se
extinguir nesse corpo o desejo de o alcançar. Dominado o corpo pela coisa
avistada, o pior lhe pode acontecer. Imobilizada a coisa pelo poder do seu
olhar, acaba o corpo por só poder tomar posse dela quando já é tarde demais. Se
não for esse o seu propósito, se algo houver que o leve a desistir de a
alcançar - acabará ele, enfastiado, por lhe virar as costas a meio do filme e
ir-se embora. Num e noutro caso termina o jogo, congela-se o movimento.
Pode, é claro - algo também possível no cinema - a imagem avistada no écran
não ser a de um filme, mas de uma pintura
: imagem imóvel que exerce sobre o corpo uma sedução perversa. Neste caso,
incapaz de suportar a imobilidade da imagem, ou se afasta ele ou se aproxima.
Ou não se sente atraído por razão nenhuma ou, fascinado, avança fisicamente, em travelling para a
frente, talvez apenas em zoom in, se
algum obstáculo lhe travar o movimento ou se alguma razão o levar a preferir a
simples aproximação pelo olhar. Em todo o caso é sempre levado a avançar ou
recuar, a desejar explorar a figura ou a evitá-la, aproximando-se ou
afastando-se. Sendo imóvel a imagem avistada, ao querer alcançá-la procura logo
o corpo apreender o movimento que nela está inscrito ou que lhe falta, o
movimento que de algum modo nela se esconde
: ao sentir-se por ela atraído, ele,
corpo por natureza móvel, não resiste ao desejo de a sentir : avançando, recuando, indo e vindo,
perscutando, sondando a coisa em tudo o que de mais sensível nela existe, do
mais superficial ao mais profundo. Não pode deixar de socumbir a essa tentação
: ao desejo de a invadir ou de por ela se sentir invadido. Se a imagem não vem
para ele, vai ele para ela : «Torna-se o amador na coisa amada / por virtude de
muito imaginar...».
São estas as regras do écran. Mesmo sendo imóvel a imagem que nele se
projecta, mesmo sendo pintura, move-se sempre o corpo diante dela, tem sempre
de mover-se, não prescinde do movimento.
No caso contrário, sempre que a coisa mexe no écran, sendo imagem animada de
movimento, pode o corpo imobilizar-se, não precisa sequer de se mexer : move-se
por ele a coisa. Sendo movido por ela, será ele que a faz mover. Sendo imóvel a
imagem, basta ao corpo os olhos que tem : são eles que geram o movimento. São
eles que levam o corpo até onde a coisa está, são eles que, por um mistério
qualquer, ainda mal esclarecido, o fazem chegar a ela : para a dominar ou por
ela ser dominado.
Tudo
não passa, é claro, de um simples jogo de sedução. Deixa de agir o corpo
quando, seduzido, já não resiste, expondo-se. Age ele quando resiste. Quando
resiste à sedução : para melhor apreender, para melhor dominar aquilo que o
seduz. Ao exibir-se, o agente sedutor
estabelece uma relação de forças com o objecto da sua sedução e é quanto lhe
basta para ficar logo seduzido. Movido pelo observador dessa sua exibição, pelo
espectador - por alguém que se colocou em posição de ser seduzido - acaba o
sedutor por se deixar levar, ao ter de se meter na pele de quem pretende
seduzir, passando de sedutor a seduzido. Sente-se, até às orelhas, metido no
estado de alma dele, mas mais que isso : metido no corpo seduzido. Neste jogo
não deixa de haver desencontros, por vezes dramáticos. Há filmes que falham
nesses enganos : quer nas fitas que nos fazem quer naquelas que nós fazemos.
3 - Prosseguem
as aventuras no coração do continente «misterioso», muito mais perigoso que
qualquer mundo conhecido. São elas iniciadas por «Trader horn» (1930), de W.S.
Van Dike, numa história sinistra em que uma mulher branca é capturada por indígenas que fazem dela uma bruxa :
África. Continuarão, depois, numa longa tradição, a poderem ser vividas por
entre as acrobacias do Tarzan - e da sua fiel macaca -, o branco que vôa de
árvore para árvore, que dá murros no peito e grita como um primata ou, com
outros heróis, por entre danças selvagens,
cerimónias rituais, cenas de caça, tráfico de diamantes, tesouros fabulosos.
Insignificantes são as contrariedades do dia a dia, em comparação com as que
enfrentam os heróis dessas histórias. Dentro desta tradição, dois filmes bem
comportados fazem a diferença : «Hatari» (1962), de Howard Hawks, cujos heróis
capturam rinocerontes para serem vistos em jardins zoológicos por quem já os
venera nas salas de cinema, e «The roots of heavean» (1958), de John Huston, em
que o herói outra coisa não deseja que defender os pobres elefantes da ganância
de lúbricos caçadores. Mantém-se a tradição pelo menos até «The last safari»
(1967), de Henry Hathaway, tradição entretanto subvertida pelo irreverente Jean
Rouch em «Chasse au lion à l’arche» (1965), um dos primitivos do filme de “aventuras”. Nunca antes dele se tinha
realmente pensado que aquilo que lá em África mais importa é «o que lá está,
não aquilo que se pretende que lá esteja» : mesmo que no entanto aí se tenha
visto, com deleite, como num filme de Hatahway, Gabriella Licudi, descalça, de
calçãozinho e blusa côr-de-rosa, toda desabotoada, sem soutien-gorge, a abanar
o pandeiro no meio de um ritual de negros, algo que virou moda nas boîtes
africanas das velhas cidades coloniais.
Alcança o sonho as ilhas do paraíso : o Pacífico, praias nunca avistadas,
palmeiras e coqueiros, ricas morenas com grinaldas de brancas flores, mares de
cristal, céus límpidos, azuis, azuis, espectaculares, filmes a côr. Mesmo
sem côr : «White shadows in the south seas» (W.S. Van Dyke, 1926). «Tabu» (F.W.
Murnau, 1931). «Bird of Paradise» (King Vidor, 1931), cenas de amor que fazem
sonhar : Dolores del Rio. Remakes. John
Ford e a raínha do sarong, Dorothy Lamour,
isto é, «Hurricane» (1937) e «Donovan’s reef» (1963). «South of
Rudyard Kipling, bardo de um reino bem unido e do seu império colonial
leva-nos até às Índias. Move-se o herói entre os nativos : «comparsas,
mais-valias ou criados», sempre a tramar qualquer coisa. A aventura deixa de
ter fronteiras, o olho da câmara chega aos antípodas. Nem mesmo nesses lugares de sonho, onde são
os americanos a dar à manivela, a vida
é côr-de-rosa : «Lives of a Bengal lancer», Gary Cooper e Franchot Tone, tudo
isto filmado na Califórnia, com um cheirinho de «décors naturais» (Henry
Hathaway, 1935). «Gunga Din», Cary Grant, Douglas Fairbanks
Jr, Victor Mc Lagen (George Stevens, 1939). «The four feathers», o Egipto e o
Sudão, em versão britânica, homem que se redime da culpa num acto heróico
(Zolan Korda, 1939). «Bhowani Junction» e Ava Gardner (George
Cukor, 1956). «The rains came» e Tyrone Power, o príncipe indú, (Clarence
Brown, 1939), ou «The rains of Ranchinpur»
e Richard Burton. Alan Ladd : «Calcuta» (1947), «Saigon»
(1948), «Tripoli» (1950), «Malaga» (1954), «Lisbon» (1956), «Maracaïbo» (1958).
«The River» (1950), filme renovador do género, de Jean Renoir, que exalta a
vida e os encantos da natureza. O regresso indú de Fritz Lang : «Der Tiger von
Eschnapur» (1958) e «Das indishe Grabmal» (1958), o espírito romântico e a
longuínqua aventura. As aventuras de Marco Polo. A «fantasia oriental» : Rita
Hayworth na pele de Salomé («Salomé», William Dieterle, 1952). Carmen
Sevilla em Bagdad («Babes in Bagdad», Edgard G. Ulmer, 1952). A guerra a
côres no outro extremo do mundo.
O mar. Os irmãos Lumière : barcas vogando, velas deslizando sobre as vagas.
George Méliès : «La guerre de Cuba et l’explosion du Maine à La Havane» (1898),
cinco actualidades reconstituídas, dois episódios «submarinos», as tais vinte
mil léguas de Júlio Verne na transparência das águas (1907). A deriva nos
oceanos, piratas e corsários, o temível Perna-de-Pau, tesouros escondidos, o
capitão Nemo e o Náutilus em aventuras
coloridas. Nem mesmo no fundo do mar estamos livres do demónio. Flaherty : «Man of Aran» (1934), pescadores
numa paisagem lunar, só pedra, fazendo o que podem pela vida, num mar sempre
violento, lutando com peixes monstruosos. A ilha do tesouro : «The treasure
island» (Vitor Fleming, 1934), o menino-prodígio do cinema, Jackie Cooper, e o
pirata, o Perna-de-Pau, Wallace
Berry. Motins a bordo. «Mutiny on the
Bounty» (Frank Loyd, 1935) : a galera voga para Tahiti em demanda da árvore do pão - a história é verdadeira
e ocorreu em 1787 -, revoltam-se os
marinheiros contra o tirânico capitão Bligh (Charles Laughton), secundados pelo
corajoso imediato, Fletcher Christian (Clark Gable). Remake de Lewis Milestone
em 1960, com Marlon Brando. «The Caine munitinity» (Edward Dmytryck, 1954), a
história do capitão louco, Humphrey Bogart, face a José Ferrer e Van Johson,
enorme sucesso. «H.M.S. Defiant», Alec Guiness versus Dick Bogart (Lewis Gilgert, 1961). Velas ao vento por todos
os mares. Gregory Peck : o «Capitan Horatio Hornblower» (1951),
«The world in his arms» (Raoul Walsh, 1952). E mais Walsh : «Blackbeard the pirate»
(1952) ou «Sea devils» (1953). Moby Dick, a baleia branca, contra o capitão
Achad, a Raposa do Mar : Gregory Peck
versus Orson Wells, o «pregador» (John Huston, 1956). Barcos fantasmas : «The
sea wolf» (Michael Curtis, 1940). Piratas e corsários, bandidos românticos e
agentes imperiais. O flibusteiro : Cecil B. de Mille, «The buccaneer» (1937) ou
«Reap the wild wind» (1942), grandes cenas de abordagem, o polvo gigante. Maureen O’Hara : «The Black Swan» (Tyrone
Power, 1942). O agente do rei : o «Capitan Blood» (Michael Curtis, 1935).
Salgari : «La figlia del corsario verde» (1940) e «I pirati della Malaesia»
(Enrico Guazzoni, 1941). Piratas do séc
XX por mares da China : «China seas» (Tay Garnet, 1935). As aventuras
marítimas da máquina a vapor : «Sons of
the sea» (Walter Ford, 1940). Ou melhor ainda : «Submarine» (Frank Capra,
1928). John Ford, o marinheiro sem mulher, num submarino a
sério («Men without women», 1930). O capitão Nemo e o seu espantoso submarino : «Twenty
thousand leagues under the sea» (Richard Fleisher, 1954). O periscópio
indiscreto : «Up periscope» (Gordon Douglas, 1958).
O ar : asas para que te quero! Howard Hughes, accionista majoritário da
T.W.A., pioneiro da indústria aeronáutica, doidinho por aeroplanos, mete-se em
1927 nas loucuras do cinema (7) : segue-se recordes de longa distância, heróicos carteiros voadores, temerosos
pilotos de guerra. O Homem ganha asas, até nos céus, por entre as núvens, se
luta contra o Mal. Acrobacias aéreas nos céus do mundo por entre as duas
guerras. Howard Hawks e os reis do ar : «Air Circus» (1926). Oficial da força
aérea, Hawks mete a máquina de filmar no avião e o suspence nas núvens : «Air
Patrol» (1930). Guiado por ele, paira
James Cagney por entre as brumas («Ceiling zero», 1936) e Gary Grant por sobre os cumes das
montanhas, levado por motivos idênticos aos que iriam fazer explodir «a bomba
atómica», Rita Hayworth, a ruivinha espanhola, nos braços de Orson Welles
(«Only angels have wings», 1939). Vol de
nuit, de Saint-Exupéry, é adaptado por Clarence Brown («Night Flight»,
1933). Torna-se Charles Lindberg o herói da década e, no cinema, outros
“heróis” conquistam o espaço com mais aventuras : William Dieterle, talega de
dois metros de altura, aluno de Max Reinhardt no Deutsches Theater e iniciador de Marlene Dietrich («The last
Flight», 1931), William Wellman, condutor de ambulâncias da Legião Estrangeira
na Primeira Grande Guerra e piloto da célebre esquadrilha La Fayette («Central airport», 1935), Ray Enrich, que deve o sucesso que teve a um
cãozinho chamado Rin -Tin -Tin («China Clipper», 1936), Victtor Flemming («Test
pilot», 1938), ex-corredor de automóveis, autor de E tudo o vento levou, que dizem ser o pior filme que fez. Neste outro
filme, menos melífuo, o piloto é o heróico Clark Gable, que já tinha comandado
os aviões de George Hill e Clarence Brown.
Estala a Segunda Grande Guerra. Deixam-se os sonhadores de sonhar. Certos
deles passam ao ataque : Hawks («I wanted wings, 1941, «Air force», 1943),
Flemming («A guy named Joe», 1943), Lothar Mendes («Flight for freedom», 1943). Acaba a
guerra e tudo acelera : «The sound barrier» (David Lean, 1952). Revive-se
a odisseia de Lindberg : «The Spirit of Saint Louis» (Billy Wilder, 1956).
Fazem-nos rir as máquinas voadoras : «Those magnificent men in their flying
machines» (Ken Anakin, 1964). É o
crepúsculo das águias : «The blue Max» (John Guillermin, 1966). Extingue-se
fénix nas cinzas «The flight of the phoenix»
(Robert Aldrich, 1965).
4 - No
cinema, nas sagas do séc. XX, nas cordas da guitarra dos heróis modernos,
ressoa a harpa céltica. Usam esses heróis botas de couro até às virilhas.
Cheiram a merda de bisonte. Vieram todos do outro lado do mar em busca de
qualquer coisa. São irlandeses ou ingleses. Outros são bretães, franceses,
angevinos. Andam de Colt à cintura ou de Winchester ao ombro. Sentem-se uns,
que lêem a Bíblia todas as noites, emissários de Deus, e os outros, por não
saberem ler ou porque a Palavra lhe entra por um ouvido e lhes sai logo pelo
outro, preferem dar ouvidos ao Diabo.
Alguém lhes pregou esta sentença : «Se não têm família, um amigo a quem
estender a mão, nem horizonte à vossa frente
… ergam os olhos para o Far West. É aí que se vai erguer a vossa morada»
(Horace Greeley).
No número seis da revista Look,
de treze de março de 1962, Peter Homans define o western como a paródia amarga
do Este, paródia essa em que o Mal se revela em muitas tentações, que ameaçam o
herói e a que ele dificilmente resiste. Perante a sua encarnação, o melhor é
ele destruir logo a ameaça. Aí vai ele : «Sentado na sela, cabeça erguida,
galopa de Plymouth Rock a caminho de uma cidade poeirenta da fronteira e, é
claro, sendo ele o revólver mais rápido lá das bandas de Lamarie, o seu Colt 45
está do lado dos anjos».
Depois de «Train robbery» (1903) de Erwin S. Porter, tornar-se-à o western
um dos géneros mais filmados de toda a história do cinema, com os seus autores
de culto (John Ford, Henry Hathaway, William Withney, Raoul Walsh, John
Sturges, Nicholas Ray, etc ), com as suas grandes estrelas, as encarnações de grandes heróis, os Kit Carson,
os Frank e os Jasse James, os Buffalo Bill, os Billy the Kid e os muitos mais.
5 - Conta
Jean Rouch uma história a propósito da raposa. Filmava ele (Le Dama du vieil Anaï) um ritual dos
dogons em que o mito da criação é ilustrado por máscaras que dançam. Segundo o
mito, a raposa, na primeira dança que efectua, arranca um pedaço da casca de
uma árvore e coloca-a sobre o rosto, servindo-se dela como máscara. A casca é
avermelhada. Acaba de dançar, põe a
máscara no chão, e do céu surge logo um abutre que se lança sobre ela, supondo
ser carne viva. Pela mesma razão enche-se a máscara de formigas, saídas de um
formigueiro. Rouch, que viu talhar a máscara
que o personagem que dança coloca no chão, tal como a raposa o fez na
história da criação do mundo, avista um falcão que a vem depenicar, tal como o
abutre, e vê sair de um formigueiro formigas que invadem a máscara, como as do
mito. Não se percebe lá muito bem porque motivo ele conta esta história : se o
faz para sugerir uma hipótese se, maliciosamente, o faz apenas para pôr em
causa o tal conceito de consciência que hoje utilizamos perante coisas
insólitas como esta.
6 - Passa-se
isto na época em que Jean Renoir nos mostra quais são as regras do jogo («La
règle du jeu», 1939), como se jogam os jogos da verdade («Le déjeuner sur
l’herbe», 1959), quando René Clair nos
leva aos confins da cidade («La Porte de Lilas», 1952) ou nos convida a imaginar
o que um belo dia nos pode cair sobre a cabeça
(«La beauté du Diable», 1950)? Terminada a mais abominável das guerras,
o que nos espera? Em Itália, terra
ferida de morte, chagas abertas ao sol, que ainda não teve tempo de as secar,
Ana Magnani ergue os braços e grita de desespero («Roma città aperta», Roberto
Rossellini, 1945). Sai a intriga dos estúdios, libertam-se deles as câmaras,
encontram-se os actores na rua : «Paisà» (Rosselini, 1946), «La terra trema»
(Visconti, 1947).
Até «o pai do neo-realismo» no cinema, Roberto Rossellini, se deixou
enebriar, na sua Trilogia Fascista,
pelas palavras vibrantes do Ducce, no perverso sono peninsular : «La nave
bianca» (1941), «Un pilota ritorna» (1942), «L’uomo della croce» (1943).
Acordou tarde do pesadelo mas, uma vez desperto, não mais tirou os olhos do que
já devia ter visto. Fez mea culpa por
ter ajudado a fazer opiniões à força e passou de um extremo ao outro, pondo-se
a ver as coisas com toda a obectividade.
Com essa ideia na cabeça, começou a desejar retratar cada um dos adeptos na
contenda com um olhar imparcial, a única maneira honesta de os pôr face a face,
em confronto com a verdade que procurava. O olhar
neutro da câmara os julgaria. Na realidade assim registada, os modos de
sentir, as virtudes, os vícios, as crenças e as ideologias seriam desmascaradas
pelo mágico poder do espelho. Depois de «Roma città aperta» (1945), o primeiro
filme dito neo-realista - que ele em boa parte financiou vendendo as jóias da
mulher e da amante -, «L’Amore» (1948) e «La macchina ammazzacattivi» (1952), a
tal máquina de matar os maus, fazem a transição. Acaba por descobrir
Rossellini que o olhar mecânico não
basta : o sentido só pode surgir no écran se houver alguém que lá o meta. A
solução, conclui, é usar a máquina como uma ferramenta de laboratório, uma
espécie de microscópio que filtre o meio-ambiente em que se move o objecto da
observação, isolando-o no seu microcosmos. É simples : abre-se sorrateiramente
a porta do quarto e toda a gente, escondida no escuro, espreitando, pode ver à
vontade tudo o que lá se passa, quem lá se move e o que verdadeiramente faz nesse décor iluminado. Mas logo se apercebe
que, vendo assim as coisas, nem tudo é a preto e branco : dentro dessas
paredes-meias e no desenho das figuras vistas nesse quarto há opacidades, há
certas zonas obscuras. Há que ter em conta o que as envolve, o que se passa
fora dessas paredes, coisa de grande importância. Há até que descobrir o que,
por detrás desses rostos ou dessas máscaras, faz mover essas figuras.
A Trilogia Fascista é sublimada,
magistralmente transcendida pela Trilogia
da Solidão : «Stromboli terra di dio» (1951), «Europa 51» (1952), «Viaggio
in Italia» (1954). São mulheres os objectos em observação, essas figuras encarnadas
por Ingrid Bergman, desencantada por Rossellini nos EU, lá onde, ainda jovem,
ela foi parar um dia e onde (até ela!) se deixou subjugar pelos sortilégios
malignos de Howard Hughes, o tal maníaco dos aviões. Aquilo que está por detrás
do rosto dessas mulheres, aquilo que no
corpo elas têm, aquilo que lá no fundo delas o Roberto busca, será captado em close-up e em planos-sequência, a fim de
não se perder, por muito ténue que seja, um só raio da luz que desses corpos
irradia, iluminando a paisagem. Pretende ele, o Roberto, ao mostrá-las assim,
nesse seu explendor, fazer com que o espectador participe nas suas próprias visões - nas de um vidente privilegiado
-, fazendo-o imaginar, obrigando-o a seer mais que um simples voyeur
indiferente a certas realidades dignas de serem vistas, que, sem isso, sem essa
luz, ele, o espectador, teria aceite passivamente sem nunca ter descoberto
aquilo que lhe é mostrado. O olhar revelador, o de quem-vê-fazendo-ver, não
pode ser só objectivo. Nem apenas ético : puro como um cristal. Terá de
ser, diz Rossellini, mais que isso : «a expressão artística da verdade». Todas estas «descobertas» iriam servir às mil
maravilhas não só aos seus outros colegas do neo-realismo como ainda a outras
vanguardas. A Nouvelle Vague francêsa
acabaria por tirar delas grande proveito.
Inspirados foram Giuseppe de Santis («Giorni di gloria», 1945, «Riso
amaro», 1947), Alderto Lattuada («Sensa Pietà», 1947), Vittorio De Sica (o
mensageiro do amor, o percursor do surrealismo da miséria : «Ladro di
biciclette», 1948, «Miracolo a Milano», 1951, «Humberto D», 1952) e os outros
três : Visconti, o «esteta», Fellini, o jornalista dos delírios ordinários, o
surrealista barroco, e Antonioni, também inspirado pelas mulheres. Inspirados
foram todos eles por Rosselini, é certo, mas também por certa «nova vaga»
soviética que os precedeu.
Luchino Visconti - depois de lançar
um olhar cru sobre a miséria dos pescadores da Sicília («La terra trema»,
1948), filme em que «o neo-realismo se eleva da crónica à história» (Guido
Aristarco), depois de «Senso» (1954), filme que, de uma ponta à outra, se eleva
«do íntimo ao social, da psicologia à história, dos trágicos huits-clos aos imensos espaços abertos»
(Marcel Martin), depois de «Rocco e suoi
fratelli» (1960), filme em que a pobreza se eleva, ganha a murros, ás alturas
da dignidade de quem ama - depois de
filmes assim, eleva-se ele próprio, o aristocrata marxista da Lombardia, na dialética
das idéias e dos sentidos, ao ponto mais alto da História, do que viveu nas
suas origens («Il Gattopardo», 1963). Noutro filme, na praia tórrida, eleva-se
ele até onde os ideais se perdem de vista, descendo ao nível de desejos de que
nenhuma nobreza nos livra : «Morte a Venezia» (1971). Quer ele mostrar com filmes desses que o dia a dia não escapa
à grande vaga de fundo que emerge dos dias anteriores e que cada dia que se
vive é assim, em certos momentos, a eclosão, por vezes brutal, que resulta de um qualquer refluxo contraditório
que a vaga engole e projecta no seu futuro. Viajam os seus olhos nesse
movimento.
Frederico Fellini prefere ver as coisas de outra maneira. Sentindo não ter
podido escapar à desolação em que o eclodir da vaga deixou a terra onde nasceu
(«La strada», 1954, «Il bidone», 1955, «Le notti di Cabiria», 1957, «La dolce
vita» 1960), tendo observado os estragos e o estado das coisas, sentido bem os
estados de alma dos habitantes dessa terra submergida, deixou-se ele seduzir
pela visão dos detritos que - nos restos da espuma, no extremo limite que
assinala o recuo da vaga - foram deixados na areia da praia. São esses
singulares objectos, que só se encontram nesses extremos, nesses locais de
abandono, o que mais o seduz, as tais
coisas que ele descobre em certos momentos
privilegiados : «quando dou por mim em frente de uma coisa qualquer que é a
verdade absoluta, não porque se pareça com a vida, mas por ser verdadeira em
si, enquanto imagem, enquanto gesto» (entrevista com Toni Maraini, 1994/1995).
Que realidade é essa, onde se encontra tudo o que acontece? Onde é que ela está? Dentro ou fora de nós?
Nas memórias, de onde sai o mito? No que vemos de real, e que mais parece um
sonho? Ou no sonho, que umas vezes é
farsa e outras comédia trágica?
Peremptório, responde Fellini : «Os meus filmes não são para serem
entendidos, são para serem vistos». Visto de outro modo : «Um filme é como uma
doença expelida pelo corpo». Não certamente como A Náusea de Jean-Paul Sartre : pode ser a mesma a Origem, mas é
outro o Universo. A «doença» de Fellini salta cá para fora como um
fogo-de-vista, bem à italiana : «8 e ½» (1963), «Fellini Satyricon» (1969) -
que ele diz ser uma science-fiction
do passado -, «Amarcord» (1973), salta com os filmes antecedentes e com os que
se lhe seguiram, antes da derradeira e feérica partida do navio. Nos seus
filmes, os sentidos e a História são captados nos resíduos da onda ou, em
certos casos, no ponto de vertigem, no olho do furacão.
Michelangelo Antonioni navega mais nas águas calmas do momento, naqueles
dias em que o Mediterrâneo se espraia na luz, ou em dias cinzentos, apenas
percorridos por brisas que não chegam a perturbar a navegação. Fora isso, só se
aventura em superfícies com as cores uniformes do deserto. Por essas razões foi
aceite, por navegar em mares como os da Nova Vaga, em que a superfície das
águas não chega a dar as vertigens do mal-de-mer.
Prefere assim, talvez por dar toda a atenção à sensibilidade feminina, atenção
essa também cultivada pelos colegas francêses da vanguarda. Aos sobressaltos da
emoção, prefere as subtilezas do sentimento. E tenta captar a História nos
estados de alma que ela suscita. «Cronaca di un amore» (1950) é a primeira
crónica dessa sua serena navegação. Ensaia-a com certas mulheres antes se a
ensaiar com Monica Vitti («Il grido», 1958), antes de arribar com ela à ilha
dos desencontros - «L’aventura» (1961). Fá-lo
numa viagem em cujo jornal de
bordo ele assinala : «o meu relato é baseado num mecanismo interior e não no
mecanismo dos factos». E de tal modo o faz que esse mecanismo interior,
predominantemente feminino, se projecta na paisagem, inundando-a. É pelo olhar
que os sentimentos dessas personagens, ao confrontarem-se com o masculino, se
revelam mostrando o seu morno isolamento, num mundo que lhes é hostil : «La
notte», (1961), «L’eclisse» (1962), «Deserto Rosso» (1964). Pergunta-se : mas
como é que isso acontece? Uma resposta é insinuada em «Blow-up» (1967), em que
o fotógrafo, o protagonista masculino, não consegue ajustar a verdade à máquina
de fotografar com que se obstina a ver o mundo : ao instrumento fálico que
privilegia. Fenómeno muito especial nas modas da história do cinema, Antonioni
foi acusado (é claro, injustamente!) de
ter um defeito que acabaria por ser tendência : «Muita cabeça e poucas tripas».
7 - “Nova
vaga”, é o tal neologismo cinéfilo introduzido em 23 de Agosto de 1957 pela
chefe de redação do semanário L’ Express,
Françoise Giroud, ao anunciar um inquérito feito a uns oito milhões de pessoas, gente nova,
entre os dezoito e os trinta anos, gente
que na década seguinte terá «a França nas mãos, os mais velhos no comando, os
mais novos a levá-los para a frente». Os resultados do inquérito são revelados
entre 3 de Outubro e 12 de Dezembro. O rosto de uma jovem. Um título : «La
Nouvelle Vage arrive!». A frase de Péguy : «Somos nós o centro e o coração.
Passa por nós o eixo. É o relógio que temos no pulso que marca as horas». Brigitte Bardot, eis o
arquétipo : «Et Dieu créa la femme» (Roger Vadim, 1956). Cannes, Maio
de 1959 : «Les Quatre Cents Coups», prémio da melhor realização para Truffaut e
dois outros filmes brilhando nos céus do Midi
: «Orfeu Negro» de Marcel Camus, a Palma de Ouro, e «Hiroshima mon amour» de
Alain Resnais.
Agosto em Paris, o cinema na berlinda, o jornal Le Monde
e a grande questão : «Existe-il une Nouvelle Vague?». Tati, Chabrol, Franju, Clair, Renoir, Astruc, Malle, Vadim dizem : «Não!».
Existe, sim um «cinema da juventude»,
existe de certeza um «cinema moderno»… Mas o que é afinal esse «cinema
moderno»?. A Nova Vaga,
«les jeunes turques», tinham
erguido o bastião e montado a artilharia
nos Cahiers du cinéma : Truffault,
Godard, Rohmer, Rivette, Chabrol. São
eles mais solidários que os Três
Mosqueteiros e esgrimem
praguejando. Nos ares de Paris sente-se o cheiro das suas bombardas. E fica
logo cheia de buracos «la qualité
française» do academismo (Cahiers, nº 31, Janeiro de 1954). Claro,
é Truffaut a atirar, que Godard ainda
erra na pontaria : «Só a crise pode salvar o cinema francês!» (Arts,
8 de Janeiro de 1958). Nem Vadim lhe escapa,
e tem toda a razão : «é preciso filmar outra coisa, com outro espírito».
Insurge-se contra o comodismo de uma indústria que busca o sucesso pela rotina,
em salas que se esvaziam, e procalma
serem necessárias a loucura e ousadia, na ambição e na sinceridade, «para que o entusiasmo das tomadas de vista se comunique à projecção e conquiste o
público». Não lhes é de modo algum alheia a atracção atávica pelo público.
Nem a estes «jovens turcos»
são indiferentes os problemas da «comunicação de massa» : bem para lá do
sentido explícito da imagem e do som, importa, segundo eles, pôr em relevo
aquilo que está em causa «por debaixo» e «para além» desse sentido, em versões
Brigitte Bardot do neo-realismo. Caracterizam-se
esses jovens irreverentes (e estão bem cientes disso) por serem bem mais
mediáticos que os outros seus colegas «modernos». Distinguem-se deles,
aliás, por uma certa manha nos combates em que se lançam, nos golpes de capa e
espada, em prodigiosas habilidades (gostosamente cultivadas por certos fãs da
posteridade, que os interpretam à letra), em certos truques bem aplicados
quando esgrimem e conquistam. Não lhes falta o olho. Dizia Truffault em Agosto
de 1960 : «Temos de andar à porrada e não falhar a porta entreaberta para fazer
passar a malta, antes que seja tarde demais».No seu francês
jacobino : «Il faut se bagarrer et profiter de ce que la porte est entrouverte
pour faire passer les copains avant qu’il soit trop tard». Sabendo que a certos
deles não lhes falta talento, pela mesma razão proclama : «Godard pulverizou o
sistema, partiu a louça toda no cinema e, tal como Picasso o fêz na pintura,
tornou tudo possível».
Os outros do «cinema moderno», que era gente mais sisuda, ficaram tão só
conhecidos como os do Novo Cinema :
Alain Resnais («Hiroshima mon amour»,1959), Georges Franju («La Tête contre les
murs», 1959) Chris Marker («Cuba Si», 1961), Jacques Demy (1961). Uns e outros, é claro, regem-se por idênticas
bitolas. Têm todos em comum o desejo de
ver as coisas - as realidades do
pós-guerra - de uma maneira nova.
Mexem-se com desenvoltura. Numa obra chamada L’ Age moderne du cinéma français (Flammarion, 1995), Jean-Michel
Frodon, que assim os identifica, diz que em praticamente todos os filmes, de
uns e outros, nos da Nouvelle Vague e nos do Cinéma
moderne, existe uma idêntica «figura de estilo» : mostram todos esses
filmes «gente a andar». Cheios de estilo, caminham os seus heróis nas ruas de
Paris só «porque na vida se caminha, porque esse cinema é um cinema em
movimento». Caminham descontraídos, como os próprios filmes em que figuram,
porque «o que está em jogo é menos a realidade que a verdade» : «Enquanto os
filmes académicos ou eram filmes “imóveis” (os tais saídos direitinhos do
teatro), ou eram filmes “a correr” (os filmes de acção), este cinema moderno é
bem “um cinema a andar”». Caracteriza-se ainda a démarche moderna pelas novas relações tecidas entre a imagem e o
som, numa matéria única. O palavreado - garantem eles - é o lugar por
excelência do teatro e do romanesco que,
somado à belle image, no cinema, é
igual a academismo, com mais ou menos estilo. Citando Jean Duchet, Frodon faz
notar que no «moderno» cinema irrompe «um modo original de tratar o conjunto
audio-visual, em que a palavra faz a
imagem e em que a imagem suscita o
verbo». E invoca a propósito disso uma expressão de Henri Langlois, quando
ele falava do tal «cinema do silêncio que foi a nossa primeira linguagem
universal».
Uns e outros, no entanto, divergem em certas coisas, mas a divergência é
pacífica. Feitas as contas, tudo acaba por ficar em pratos limpos no France-Observateur de 19 de Outubro de
1961. Com clarividência, propõe Truffaut que o problema seja visto da seguinte maneira : há que substituir
a tradicional dicotomia entre o cinema-Lumière e o cinema-Méliès, entre a
primazia do documentário e da ficção. Manda ele a velha dicotomia para o
caixote do lixo e avança com uma outra : «Acho que há duas espécies de cinema,
“o ramo Lumière” e o “ramo Delluc”». Lumière inventou o cinema «para filmar a
natureza das acções». Louis Delluc - romancista, argumentista, crítico e
realizador (1890/ 1924) - «pensou poder utilizar esse invento para filmar
idéias, ou acções com outro significado que não o evidente, sem tirar o olho
das outras artes». Do “ramo Lumière”, segundoTruffaut, saem Griffith, Chaplin,
Stroheim, Flaherty, Gance, Vigo, Renoir, Rosselini, Godard. Do “ramo Delluc”
surge gente como Epstein, L’Herbier, Feyder, Grémillon, Huston, Astruc,
Antonioni, Resnais. «Para os primeiros, o cinema é espectáculo, para os
segundos é uma linguagem». Em todo o caso, para com os do «cinema das Editions de Minuit» (os do novo cinema), como para com os da Nouvelle Vague (em suma, para com todos
os do «cinema moderno»), «a realidade é tida como uma questão central (diferente da “evasão” proposta pelo cinema
de Méliès), realidade que eles, os da Nova Vaga, «tentam captar em idéias, enquanto os do “novo cinema”
o fazem enquanto artistas ideológicos, mais empenhados na relefexão política e
social». Ora só hoje sabemos que Méliès, mal ouviu estas palavras de Truffaut,
ferrou dois pontapés no caixão.
8 - Num
filme americano da série B, «The mysterious doctor Satan», datado de 1940, de
William Witney e de John English, contemporâneos de Hitchcock, filme com cerca de quatro horas,
um folhetim constituído por catorze episódios, cerca de vinte minutos cada, na
tradição das séries de Feuillade, os mecanismos do sonho são magistralmente explorados
no suspense criado pela articulação dos episódios. O filme, uma mistura de
policial e ficção científica, prenuncia James Bond (os comunistas soviéticos
ainda não eram inimigos). O oponente, o mau da fita, é obviamente o doutor Satã
(extra-terrestre disfarçado), um arguto cientista que quer dominar a Humanidade
criando uma tecnologia sofisticada que inclui um robot mecânico, quase
invulnerável, de que ele se serve para combater os terrenos e um sistema de
televisão avant la lettre através do
qual ele pode observar, sem ser visto, tudo o que se passa à sua volta. O bom
da fita é um polícia prodigioso, que muda de identidade nos momentos críticos
para não ser identificado, disfarçado-se com um capuz de malha de cobre, o
Copper Head. No final de cada episódio o
Copper Head sofre um percalço qualquer que nos leva a crer que foi eliminado.
Cada episódio termina como se despertássemos de um pesadelo, imediatamente
antes da fatal aniquilação do herói, que desejamos vivo. Mas nunca a sua morte
é coisa certa porque nenhuma imagem a confirma : o episódio termina, tal como o
pesadelo, sem que se veja o sujeito morrer. Acordamos sempre antes que isso
aconteça. Ad contrarium, quando o
milagre nos salva, o sonho continua. O desejo de viver do sujeito, ou melhor, o
desejo de o vermos vivo é a exigência
que permite que o sonho se mantenha, que a intriga prossiga, a condição
indispensável para que novo episódio tenha lugar. O filme recomeça no próprio
momento em que tudo perecia ter terminado. Sucedem-se assim as peripécias, o
herói sobrevive e volta a atacar. Passamos
ao episódio seguinte. Cada novo episódio se inicia com um flash-back : vemos o herói saltar do
carro precisamente antes de este se precipitar numa ravina, vêmo-lo escapar-se
de dentro de uma grande caixote de madeira em que se escondera, antes de o
doutor Satã, desconfiado de tramóia,
mandar queimar a caixa - onde supomos que ele ainda se encontra - num forno de alta temperatura. Entretanto vêmo-lo dar um tiro de revólver
por entre as grades da cela onde ficou prisioneiro destruindo o mecanismo de
comando da parede que inexoravelmente se move para o esmagar. O filme, é claro, só pode terminar com a
derrota de Satã …
O modelo narrativo da série consiste em manter o suspense quanto ao destino do herói, no final de cada um dos
capítulos, resolvendo-o por flash-back
no capítulo seguinte, e na
circunstância de todos os capítulos seguirem o mesmo modelo, retomando a mesma
estrutura e os mesmos personagens. A coisa funciona bem, apesar de toda a
inverosimilhança, apesar dos clichés e dos caixotes vazios que os adversários
lançam uns aos outros nas cenas de pancadaria, adereços que chegam a passar de
filme para filme. Funciona o modelo prendendo
o espectador, mesmo o mais exigente, ainda que o filme não acrescente nada à vida.
Despojado de conteúdo - o Bem e o Mal que estão na base da intriga não têm
relação com nenhuma ética nem nenhum ideal -, o modelo funciona apenas porque
cada um dos actantes desempenha um papel convencional, puramente convencional,
é uma simples peça de xadrez. Em todo o caso, mesmo sem um ideal coerente, o
Copper Head voa : voa de episódio
para episódio, sem nunca chegar a cair.
9 - Sai
o livro, a história é posta em cena por todo o lado, em inúmeras e diferentes
adaptações. Acaba por surgir no écran em 1908, em duas versões diferentes. Hyde
e Jekyll partem à conquista do mundo, em novas e novas remakes : 1910, 1913,
1915, 1917, 1919, 1920, 1925 e por aí fora.
Tornam-se célebres algumas delas. Em 1931 produz a Paramount um desses
filmes, assinado por Ruben Mamoulian e interpretado pelo actor Fredrick March, que ganha um Óscar . Em 1941
Victor Flemming realiza outra dessas adaptações, com Spencer Tracy, que se
desdobra representando os dois papéis (Metro-Goldwin Mayer). Em 1951 Jekyll tem um filho («Son of Dr.
Jekyll») e em 1953 Abott e Costello cruzam-se com Boris Karloff na pele do Mr.
Hyde («Abott and Costello meet Dr. Jekyll and Mr. Hyde»). Jean Renoir
inspira-se no modelo e realiza em 1959 «Le testament du docteur Cordelier».
Nesse mesmo ano Terence Fisher inverte a moral da história : Jekyll muda de
figura, alguém lhe põe os cornos,
torna-se ridículo, e Hyde vira galã cínico («Two faces of Dr. Jekyll»).
Jerry Lewis entra em cena em 1963 e constrói uma das versões mais hilariantes
da fita : «The mutty professor». Cheios de pretenções, até os monstros dar
vontade de rir.
10 - Tal
como iria acontecer com a obra de Stevenson, o livro de Mary Shelley seria peça
de teatro, em diversas adaptações. A primeira versão cinematográfica data de
1910 e muitas outras se lhe seguiriam. No écran, Frankenstein tem a sua época
de ouro nos anos trinta. A Universal
produz «Dracula», de Tod Browning, em 1931, com enorme sucesso de bilheteira,
James Whale, realizador britânico, é o autor de uma outra versão, também
produzida pela Universal, em 1932, com Boris Karloff, pseudónimo de Charles
Erwin Prat, e logo outra será por ele realizada em 1935 : «Bride of
Frankenstein», uma das melhores de todos os tempos. Em 1939 o sábio tem um
filho : «Son of Frankenstein», de Rowland Van Lee. A tradição percorre os anos
quarenta. O sábio e o monstro deixam de inspirar terror para fazer rir as
plateias. É com essa na cabeça que Mel Brooks filma o «Young Frankenstein» em
1974, mais conhecido por «Frankenstein Júnior».
Saídos da mente humana, os monstros invadem o écran. Criam-se
anõezinhos-robots que têm por única função saciar um qualquer mesquinho gosto
de vingança : «Devil doll», de Tod Browning (1936), o tal «Poe do cinema», com
iluminações de Stroheim e certos truques de Griffith. Surgem réplicas de
«Metropolis» : «Things to come» (1936), de William Cameron Menzies que,
inspirado por Wells, imagina os efeitos de uma guerra mundial, dias mais tarde
: «parábola sobre a evolução técnica, que tanto pode dar cabo de nós como trazer-nos o bem
estar».
11- A
Horse Opera - que «nas suas origens
só tinha fronteiras morais», depois de cruzar os mares, em versão de Sea Opera e de, na de Air Opera, se elevar nos ares -, virou Space
Opera, seguindo um percurso infeliz que
Fellini descreve assim : «devido à educação que nos foi dada, nós, os
Ocidentais, temos uma visão de nós próprios vivendo numa linha contínua de
tempo que requere etapas, mudanças, conclusões e um objectivo a atingir» (entrevista com Toni Maraini, op cit.).
Renunciando a esta visão apoliníaca e cristã da História, cultivando uma
sensibilidade alegremente dionisíaca, adoptada pelos surrealistas, decide ele
aventurar-se em expedições como a de Satyricon
ou a tal de La città delle donne,
tanto uma como outra «ficção científica do passado». Faz ele, empedernido
cidadão italiano séc XX, por prazer e não por obrigação, viagens
diferentes das da science-fiction dos
americanos. As viagens do séc. XXI terão obrigatoriamente de se fazer e já
foram iniciadas em 2001. Da
inevitabilidade e da urgência dessas
viagens falam-nos hoje astrónomos e cientistas. Por exemplo, Michio Kaku,
Professor de Teoria Física na City
University of New York, dá-nos guidelines
para as novas aventuras, e muito para lá do séc. XXI. Num livro que se intitula
Visions, traça-nos ele - com a
benção, note-se, de cerca de noventa dos maiores nomes da ciência do final do
século, assinalados no prefácio da obra e cuja colaboração agradece - a
primeira fase desse futuro : «os desenvolvimentos notáveis que nos esperam na
revolução dos computadores, que começaram já a transformar os negócios, as
comunicações, os estilos de vida e que - garante-nos ele - nos darão um dia o
poder de instalar a inteligência no planeta inteiro», desenvolvimentos esses
que nos permitirão transfomar a Terra de uma ponta à outra, mudar radicalmente
o meio ambiente, extraír toda a energia necessária do seu interior, construir
máquinas do tamanho de moléculas, foguetes iónicos, organismos inéditos, clonar
a vida, prolongá-la, reconstruindo os órgãos e o corpo. Bastam-nos para isso
uns oitocentos anos. Claro, podemos ainda imaginar as figuras hilariantes que,
no cinema, vão dar certos robots ou mutantes dessas épocas. No segundo grande
capítulo da sua evolução, esgotados todos os recursos terrestres, acabará o
Homem por dominar o sol para dele extraír a energia necessária e colonizar as
galáxias mais próximas, epopeia que estará em condições de empreender daqui a
uns dez mil anos, «consumindo dez biliões mais de energia do que uma
civilização do Tipo 1», a que já terá povoado o sistema solar. Prevendo toda
esta tremenda evolução, prevê também Kaku - e desde já! - o eclodir de uma
classe média universal, classe certamente dominante, que estabelecerá um
forçoso equilíbrio entre as classes dirigentes, minoritárias, e as inferiores,
por certo ocupadas em trabalhos de limpeza e construção. Afirma ele : «Com a
ascensão de uma classe média internacional, o poder dessas elites dirigentes
será diluído» e o das classes inferiores sensivelmente aumentado. Ele não o diz
mas apenas dá a entender que, nesses estados avançados da civilização, o bom
eleitor, a grande massa, irá votar ao centro. Mas diz sem papas na língua que
«Esta corrida para uma civilização planetária comum pode não ser esteticamente
agradável para toda a gente. Por exemplo, entre as grandes exportações dos
Estados Unidos estão os filmes e o rock and roll. Os filmes do Arnold
Schwarznegger são imensamente populares porque são action-oriented e facilmente percebidos por diferentes culturas. O rock and roll foi acolhido por um
público internacional ready-made,
cada vez mais feito de adolescentes rebeldes, no mundo inteiro» (Michio Kaku, Visions, Oxford University Press, 1998,
pp 337). Será então certo que, para o Homem desses amanhãs, os grandes filmes
que agora fazemos, se alguém ainda os vir, a anos de luz, serão infinitamente
mais fúteis, infinitamente mais sem «ideias», do que para nós, puros terrenos,
são hoje os filmes de Méliès.
notas
(1) Alexander Gottlieb Baumgarten, filósofo alemão
da primeira metade do séc. XVIII, que introduziu o conceito de “estética” para
qualificar o belo.
(2) S.M.
Eisenstein, A Natureza não Indiferente (Neravnodouchnaïa
Priroda), vol. III das obras escolhidas, Edições Istkousstvo, Moscovo, 1964.
Extracto traduzido em francês e intitulado Structure,
montage, passage in Le Montage,
Change-Seuil, 1968, Paris.
(3) S.M. Eisenstein, Le Montage, pp 20, op cit.
(4) Erwin Panofsky, Style and Medium in the Moving Pictures - transition, nº 26, pág. 124-125, Paris, 1937 - artigo traduzido em
francês por Sigfried Kracauer e publicado em Cinéma, théorie, lectures, pág. 47, Klincksieck, Paris, 1978.
(5) Encyclopédie alpha du cinéma, pág.
189, volume 2, Editions Grammont S.A., Lausanne, 1974.
(6) L. Glass, Nature,
223, 578, 1969.
(7) Consta que Hughes,
que já tinha no cadastro um número apreciável de starlettes, resolveu fechar a
mulher a sete chaves, Jean Peters, para se atirar de cabeça a Jane Russell,
moreninha bem fornecida, seduzido pelo seu generoso par de tetas. Perdeu-se
entretanto pelos lindos olhos de Jean Harlow, de seu verdadeiro nome Harlean
Carpentier, que tinha começado mal a vida
: certo dia, o Bucha e o Estica, Laurel e Hardy na versão original, ao
fecharem a porta do carro, entalaram-lhe a ponta da saia e deixaram-lhe tudo à
mostra. Deslumbrado pelo que viu, resolveu logo o industrial alinhar na
realização de um filme, «Hell’s Angels» (1930), em colaboração com Lewis
Milestone, e meteu a jovem na fita. Foi «Hell’s Angels» a primeira
superprodução do género e a rapariga tornar-se-ia a «loura de platina», um sex symbol na América dos anos trinta.
Inscrevem-se os símbolos na memória colectiva e os volumes americanos ficam
para durar.
(8) Père Alberch, L’engenieur, l’artiste et les monstres in Recherches (L’ origine des
formes), nº especial 305, Janeiro
1998, Paris.
(9) Père Alberch, op cit.
(10) Anne
Reboul, Aux sources du malentendu in Sciences humaines (nº especial), 27 Dez.
1999. Fornece-nos a memória os códigos, que estão na base de uma língua ou que são
próprios de uma linguagem. A interpretação, certa ou não, que retiramos de uma comunicação é extra-línguística. A
moderna ciência linguística presta cada vez maior atenção a questões desta
ordem. Sabe-se que toda a troca de
palavras ocorre num contexto determinado em que entram em confronto os
elementos guardados na memória e os que são directamente percebidos. Daí o princípio de pertinência que justifica
todo o enunciado : a garantia da sua
pertinência. Quer isto dizer : não pretende apenas o locutor transmitir uma
mensagem mas tem a intenção ainda de a transmitir de tal modo que a sua
intenção seja reconhecida. Para que se perceba
melhor o problema, segue-se um exemplo, via rádio. A
comunicação parece ter sido gravada. Os americanos transmitem : «Façam favor de
corrigir o rumo de 15 graus norte para se evitar uma colisão. Escuto». Os
canadianos : «Desviem-se mas é vocês quinze graus sul para evitar a colisão.
Escuto». Os americanos : «Aqui fala o comandante de um navio das forças armadas
americanas. Repito : mudem de rumo se faz favor! Escuto». Os canadianos : «Não! Eu cá acho que o melhor é serem vocês a
mudar! Escuto». Os americanos : «Aqui o porta-aviões USS Lincoln, o segundo
navio mais importante das forças navais dos Estados Unidos. Estamos a ser
acompanhados por três destroyers e vários navios de escolta. Ou vocês se
desviam 15 graus norte ou tomamos medidas de força para garantir a segurança do
vosso navio! Escuto». Os canadianos : «Mas isto aqui é um farol !…». E fica tudo dito.
(11) Christien
Metz, L’Étude sémiotique du langage
cinématographique in Cinéma, théorie,
lectures, pp 130, Editons Klincksieck, Paris,1978.
(12) O
«choque», questão central do surrealismo, dá-se no ponto de mira, no visor, na cruz formada pelo cruzamento
dos dois eixos da visão, o eixo horizontal e o eixo
vertical, que «correspondem a duas disposições humanas muitíssimo
gerais». Como explica John Lechte, falando de um artigo de Georges Bataille
publicado na revista Documents, a
questão central é que : «…é a própria realidade - mais que a justaposição de
objectos na imaginação ou num museu - que é chocante. Bataille insiste nesse
ponto em vários números da revista. Como Bataille assinala no L’Oeil pinéal, esses eixos poderiam
corresponder à visão dos evolucionistas, que acreditam que a longo termo a
humanidade se diferenciou pouco a pouco dos reinos animal e vegetal pela sua
capacidade de andar a pé», postura que lhe moldou a visão em função da linha
horizontal que invoca o que está por baixo, no chão, e em função da linha
vertical que, pela metáfora, invoca o que está por cima (e por baixo do chão).
«Baixo não é aqui uma metáfora, o baixo significa o castigo da metáfora e
da comunicação linguística : aquilo que é baixo não tem significado nenhum, é
vulgar, ordinário, obsceno». Chega até a ser chocante. Sendo assim terreno, é
no entanto algo fecundante, é desse húmus que tanto se alimenta a arte como o
sagrado. Percebe-se isso quando o olhar se ergue.
«Nada se compara ao que está por baixo
porque tudo aquilo que está por baixo
por baixo está por estar fora de qualquer princípio de interpretação ou de
troca». Ao contrário do eixo horizontal,
material, repetitivo, o eixo vertical interpreta,
transforma a coisa e o seu valor, é simbólico, eleva o Homem, levando-o a
querer voar para o sol. É no cruzamento
destes eixos que o olhar se exerce : no ponto de encontro das coisas, normais e
insólitas, onde agem grandes poderes. Nesse ponto - em que se faz a
justaposição das coisas - quando o verdadeiramente incongruente se manifesta,
manifesta-se com tal poder que acaba logo por se revelar como espaço
equivalente a um peixe que come o outro. É
nesse ponto que, para os surrealistas, se exerce todo o poder da visão. (John
Lechte, Bataille, l’Autre et le Sacré
in L’Autre et le Sacré, textos recolhidos
por C.W. Thompson, l’Harmattan, Paris 1995).
No visor,
note-se, o ponto de mira é a cruz : a mesma cruz que é desenhada pelo Homem
quando, corpo erguido, ergue o rosto e os braços à altura dos ombros,
significando com isso estar aberto ao Outro e ao Universo. Mostrando-se o
Homem, no sopro de vida que o anima, de
braços abertos, aproveitou-se o
cristianismo deste gesto simbólico para o transformar, nele introduzindo a
metáfora do crucificado, tal como se vê nos quadros de Salvador Dali : a de um Homem aberto cujo sopro de vida foi
interrompido. Com esta simples intrusão, o cristianismo criou o mito : o mito
do Homem morto pelo Outro, em que esse Outro somos Nós e em que Ele, o
crucificado, é o Homem Bom, o modelo. Para criar esta idéia bastou acrescentar
uma nova imagem (a do crucificado) à do homem de braços abertos: uma imagem que
faz acreditar que a morte é recompensada. Uma vez introduzido o fantasma no
visor, não mais deixará de o parasitar.
Acabará por se manifestar sempre que for chamado.
É assim que um peixe come o outro.
Um corpo é ressuscitado : idêntico mecanismo é descrito por Roman Jackobson na
definição do seu conceito de metalinguagem.
O significado do paradigma - o primeiro sentido da palavra ou da imagem -
torna-se segundo sentido pela metáfora,
que cola ao paradigma um novo significado, um significado que ele não tinha. No
conto de Kafka, A Metamorfose, Gregor
Samsa transforma-se num insecto. É neste eixo vertical - no eixo das
identidades (Gregor Samsa = insecto) : a um primeiro nível da linguagem
paradigmático, metafórico a um segundo nível - que o Homem se eleva. No eixo
horizontal - no eixo das associações : sintagmático no seu primeiro nível e
metonímico no segundo - o olhar do Homem move-se pouco acima da linha do solo.
Neste seu movimento, articula o Homem um passo dado com outro, uma palavra com
outra palavra, uma imagem com outra imagem, uma parte do todo com o todo. No outro, no movimento que prolonga o do olhar que se ergue, sobe ele
acima do passo dado, acima da palavra, acima da imagem, acima da parte para ver
o todo.
(13) René
Lindekens, Essai de sémiotique visuelle,
pp 29, Editions Klincksieck, Paris, 1976.
(14) Alain
Berthoz, Laurent Petit, Les mouvements du
regard : une affaire de saccades in Recherche,
número especial, Julho/Agosto, 1996, Paris.
(15) John B.
Reppas, Anders M. Dale, Martin I. Sereno, Robert B. H. Tootell, La vision, une percepton subjective in Recherche, número especial, Julho/Agosto
1996, Paris.
(16) António Damásio, O sentimento de si (The
feeling of what happens), pág 265, 266 e 267, Publicações Europa-América,
Lisboa, 2000.
(17) Michal Chekov, To the actor, Harper & Row, New
York, 1953.
(18) V. I. Poudovkin,
Types instead of actors : comunicação
feita a três de Fevereiro de 1929 na Film Society, no Stewarts Café, Regent
Street, Londres, publicada como capítulo III de Film technique in Film
technique and film acting, Grove Press, Inc, New York, 1970.
(19) Mikhaïl
Iampolski, Visage-masque et visage-machine in Vers une théorie de l’acteur,
pp 31, Actas do colóquio de Lausane - Universidade de Lausanne, Editons
l’Age d’ Homme, Lausane, Suíça, 1994.
(20) Germaine
Dieterlen, Masques : sociétés
traditionnelles d’Afrique occidentale in Le Masque du rite au théatre, CNRS, 1985, Paris.
(21) Mikahïl
Iampolski, Visage-masque et visage-machine, op. cit..
(22) História relatada pelo jornal “O Público” de 20 de Junho de 2000.
(23) Damásio, O
sentimento de si, op cit. pág
36/37.
(24) Ferdinand de
Saussure, Cours de linguistique généralle,
Editions Payot, 1971, Paris.
(25) António Damásio, O sentimento de si, opus cit, pág 80/81. O aqui e o agora é domínio por excelência da consciência nuclear : «A
consciência nuclear não ilumina o futuro, e o único passado que nos permite
vagamente vislumbrar é o que ocorreu no instante exactamente anterior» (pág
36). «O sentido do si que surge na consciência nuclear é o si nuclear, uma
entidade transitória, recriada incessantemente para todos os objectos com que o
cérebro interage» (pág 37).
(26) Claude Lévi Strauss, pedindo desculpa pelo
neologismo, usa a palavra mitismo,
que envolve três conceitos : o de mito, rito e jogo. Pode assim o jogo ser
entendido como um dos aspectos da sensibilidade mítica, do mitismo, na sua
vertente de criação lúdica ou artística. No Ocidente, por resultado da evolução
cultural e tecnológica, o mito deixou de ter
mão na expressão criativa, com o aparecimento do romance, e a música
começou a seguir um caminho próprio «sem que se tenha dado por isso» : o
compositor «pensa em termos de música antes de pensar em estrutura»
(entrevistas filmadas, com Jean José Marchand, em Julho de 1972).
(27) Erwin Panofsky, Style and Medium in the Moving Pictures,
op cit.
(28) Sigfried
Krakauer, Le cinéma, reflet des tendances
profondes des peuples in Cinéma,
théorie, lectures, pp. 20, op cit.
(29) Roland
Barthes, La chambre claire, éditons
de l’Étoile, Gallimard, Le Seuil, 1980.
(30) Roland
Barthes, L’éffet de réel in
Communications, nº11, pág 84, Le Seuil, 1968, Paris.
(31) Roland
Barthes, L’éffet de réel, pág 85 op
cit.
(32) Lawrence Krauss
e Gleen Starkam, Science, 269, 2000.
ÍNDICE
olhos no écran pág.
os estados de alma
olhos espraiados ------------------------------------------------
03
confrontos com a
coisa
------------------------------------------------ 07
atenção e visão
rápida
------------------------------------------------ 12
o olho da câmara
a óptica e a mecânica
------------------------------------------------ 16
o registo da
imagem
------------------------------------------------ 17
os rituais da memória
------------------------------------------------ 20
seguir a intriga
sondar o personagem
------------------------------------------------- 26
não o perder de
vista
------------------------------------------------- 33
seguir o fio das
coisas
------------------------------------------------- 36
resolver o conflito
o registo do
sonho
-------------------------------------------------- 39
as variações do
espectro -------------------------------------------------- 43
o alcance do reflexo
-------------------------------------------------- 45
anexo --------------------------------------------------
53
notas --------------------------------------------------
69